
Mais uma semana, mais uma polêmica. O protagonista, novamente, é o vereador Vini Oliveira (Cidadania), que segue trilhando um caminho movido a embates e cortes estratégicos para alimentar suas redes sociais. Depois de atritos com médicos da rede pública, servidores do pátio da Emdec e vereadores de todas as correntes ideológicas, agora o alvo foi o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp — conhecido reduto da esquerda acadêmica.
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O parlamentar gravou um vídeo nas dependências do IFCH, denunciando pichações, cartazes com referências políticas e símbolos sexuais, e até mesmo adesivos em apoio ao presidente Lula. Vini se filmou retirando cartazes das paredes, fazendo discursos indignados sobre a estrutura do local e criticando o que manifestação “partidária” da faculdade.
Como se não bastasse, o vereador também compareceu a um debate sobre cotas trans realizado na universidade, e ali a tensão escalou. Houve protestos pela sua presença, tumulto, e Vini chegou a ser agredido. O episódio rapidamente se transformou em combustível para as redes sociais — dele e de seus críticos.
Não demorou para que a trincheira oposta se manifestasse. As vereadoras Mariana Conti (PSOL), Guida Calixto e Paolla Miguel (PT) rebateram duramente, classificando o ato como provocação e tentativa de intimidação. E sobrou para Vini os termos da cartilha: extrema-direita, discurso de ódio e fascista. Tanto nas redes sociais quanto na tribuna da Câmara, o episódio virou pauta prioritária da sessão ordinária desta segunda-feira.
Mas o mais relevante disso tudo não é o conteúdo do embate — que se repete, com novos personagens e velhos argumentos — e sim a dinâmica de como o vereador tem operado sua comunicação e atuação política. Vini não está, evidentemente, apenas fiscalizando. Ele escolhe o cenário, monta o roteiro, grava o corte e ativa sua base. A ida ao IFCH, sem qualquer fato novo, escancara uma estratégia de fabricar tensão para alimentar engajamento digital.
Se a intenção é mirar um público de direita conservadora, o parlamentar parece seguir um manual já conhecido: entrar em “territórios inimigos”, se dizer perseguido, se alimentar da reação. Só que em Campinas, o tabuleiro político é mais complexo. Ao atacar a esquerda, Vini ganha curtidas em nichos mais ideológicos de direita e avança sobre área, digamos, demarcadas de colegas, e amplia seu isolamento institucional, acumulando desafetos de esquerda, centro e direita.
O que se vê é um vereador em início de mandato que já queimou pontes com praticamente todos os setores da Casa. O que era para ser uma fase de construção política, diálogo e articulação, virou um reality show polarizado e de confrontos permanentes. O mandato vai ficando cada vez mais barulhento, mas politicamente solitário.
No episódio do IFCH, o tom moralista e de combate ideológico pode até repercutir entre os mais engajados das redes, mas reforça a percepção de que o vereador atua mais para o like do que para a construção política local. E, ao fim, isso levanta uma pergunta inevitável: qual projeto político se sustenta apenas na base do conflito?
Reação
A relação é bélica entre a bancada de esquerda e o vereador Vini Oliveira (Cidadania). A vereadora Mariana Conti (PSOL), uma das principais vozes da oposição, foi dura na tribuna da Câmara, mas o tom mais explícito veio anteriormente, em discurso no Ciclo Básico da Unicamp, diante de uma plateia formada por estudantes na Virada TransCultural: "hoje na sessão ordinária, nós vamos pro pau com esse vereador", disse, em referência direta a Vini. A fala escancara um temerário confronto aberto.
Nota da Reitoria da Unicamp
Toda a balbúrdia resultou inclusiva em uma nota da reitoria da Unicamp: A Reitoria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) repudia as tentativas de intimidação, difamação e desrespeito contra sua comunidade acadêmica por ocasião da Virada Transcultural, realizada nas dependências da instituição. A excelência de nossa Universidade tem na diversidade um de seus pilares essenciais, algo que se reflete na amplitude de saberes, nas perspectivas e abordagens que orientam nossas atividades de ensino, nas atividades de pesquisa e extensão.
Reconhecida nacional e internacionalmente pela qualidade de seus cursos e pela relevância de suas pesquisas, a Unicamp guarda um compromisso inegociável com o pensamento crítico, o avanço do conhecimento e a busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Como instituição pública e democrática, a Universidade mantém-se aberta ao diálogo com todas as pessoas e instituições que desejam engajar-se na saudável troca de conhecimento responsável por levar ao avanço da reflexão nos mais diversos campos do saber.
A reitoria reafirma seu compromisso com a defesa da integridade e dos direitos de toda a comunidade universitária e tomará todas as medidas necessárias para garantir um ambiente seguro, respeitoso e propício ao desenvolvimento de suas múltiplas atividades.
Cidadania reprova Vini
Em nota oficial assinada pela presidente do Cidadania, Ana Stela Alves de Lima, enviada à coluna, o partido de Vini Oliveira criticou a atitude do vereador e indicou rompimento com o parlamentar: O Cidadania Campinas e seu diretório vêm a público repudiar os ataques do vereador Vini aos alunos do IFCH e da Unicamp. Essas atitudes do vereador não condizem com a identidade do Cidadania, que é um partido da diversidade, da inclusão, da busca por um mundo mais justo e fraterno. Aos alunos do IFCH e à Unicamp, nossa solidariedade. Não nos interessa esse tipo de político.
Cortina de fumaça
E nessa mar de confusão, a Câmara Municipal de Campinas aprovou, nesta segunda-feira (24), um projeto de lei da Mesa Diretora que concede um impressionante reajuste salarial superior a 23% aos servidores efetivos, comissionados, aposentados e pensionistas do Legislativo. A medida também amplia benefícios, como o vale-alimentação e cria um programa inédito de ressarcimento para despesas com planos de saúde e assistência odontológica.
O reajuste será implementado em duas etapas: a primeira de 9,5% já no mês da publicação da lei e a segunda, de 13,5%, a partir de janeiro de 2026. Com isso, os salários que hoje variam entre R$ 3,1 mil e R$ 38 mil poderão ultrapassar os R$ 48 mil no teto da remuneração.
Já o vale-alimentação, atualmente em R$ 2.065,54, bem acima do trabalhador comum, também sofrerá uma correção escalonada de 17,72%, atingindo R$ 2.447,76 por mês ao final do processo.
A outra novidade que acompanha o pacote é a criação do Programa de Assistência à Saúde, que autoriza a Câmara a reembolsar valores gastos por seus servidores e dependentes com planos de saúde e atendimento odontológico. O formato do ressarcimento ainda será detalhado por meio de regulamentação interna.
O projeto também abrange aposentados e pensionistas, garantindo que esses valores sejam reajustados conforme os mesmos índices aprovados para os servidores da ativa.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br.