O número de denúncias de violência doméstica em Piracicaba apresentou um aumento no último ano e ultrapassou os registros de 2023. Segundo dados do Painel de Estatísticas do Poder Judiciário, mantido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os registros passaram de 1.418, em 2023, para 1.444, em 2024.
A advogada Simone Seghesi, representante da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Conselho Municipal da Mulher, avalia que o aumento mostra que as mulheres estão conscientes dos seus direitos, denunciando mais e se apoiando entre elas para fortalecer a rede de proteção. “Estamos observando a movimentação das mulheres dentro dos relacionamentos. As mulheres estão cada vez mais preocupadas em investir em suas carreiras, em se relacionar mais comas amigas e em se impor dentro das relações”, avalia a advogada.
A especialista destaca que o município tem ampliado esforços em ações de prevenção e suporte às vítimas de violência doméstica. Entre as iniciativas estão programas de assistência psicológica e jurídica, além do trabalho realizado pelo Conselho Municipal da Mulher e pela Procuradoria da Mulher.“Estamos conseguindo, cada vez mais, melhorar o sistema público de atendimento da mulher vítima de violência”, destaca. “Para desconstruir a violência contra a mulher, precisamos mudar as pessoas e a cultura em que vivemos. Nossa sociedade ainda é marcada pelo patriarcado, onde os homens acreditam ter um poder de comando sobre as mulheres. Temos que promover a igualdade em todas as relações, seja no trabalho, na família”, afirma a advogada.
TIPOS DE VIOLÊNCIA - A violência doméstica é um problema complexo, que vai além da violência física e abrange várias formas prejudiciais. A violência psicológica envolve humilhações e manipulações que afetam a saúde mental; a violência sexual força práticas contra a vontade da vítima; a violência patrimonial controla financeiramente, destruindo ou subtraindo bens; e a violência moral fere a dignidade por meio de difamações e insultos. Essas modalidades frequentemente coexistem, perpetuando um ciclo de abuso e controle. Para denunciar casos de violência doméstica, a orientação é ligar para a Polícia Militar (190), para a Central de Atendimento à Mulher (180) ou procurar a Delegacia Especializada de Defesa da Mulher.
"NA ARTE QUE CONSEGUI MOSTRAR A MINHA HISTÓRIA" - Apesar dos esforços para encorajar denúncias, muitos casos de violência ainda permanecem invisíveis. Superar um relacionamento abusivo é um desafio silencioso para muitas mulheres, como foi para a artista visual Rosy Jesus Vaz, que viveu um período doloroso em um casamento de 24 anos. “Me tornei insegura, sentia medo, dizia ‘sim’ para tudo almejando que estivesse tudo bem. Ouvia constantemente os meus defeitos, como se para ele, era importante registrar repetidamente sem observar qualquer qualidade nas minhas ações. Então fui criando uma dependência, era estranho, porque muitas vezes eu era idealizadora das ideias em relação a empresa, para que pudéssemos crescer juntos, mas não conseguia agir, esperava sempre por ele. A cada grito ou desmerecimento é como se eu tivesse feito algo muito ruim para merecer aquilo”, conta.
A artista relata que uma fase do casamento foi marcada também por uma série de problemas de saúde, que desencadeou um quadro de depressão. “Esse período foi crucial. Ele contratou uma pessoa que me cuidou por quatro meses e durante esse tempo ele não falava comigo. É como se eu não existisse dentro de casa”, relata Rosy.
Quando ela teve consciência de que vivia em relacionamento abusivo e, assim, decidiu se separar do marido, o divórcio trouxe à tona pensamentos negativos sobre si mesma. “Me senti sozinha, completamente responsável por destruir um lar, me entreguei totalmente para as feridas, ao sonho não realizado, ao riso que foi calado, afinal havia se passado 24 anos e eu me sentia velha, hipócrita por ter esperado tanto tempo para tomar coragem e pedir o divórcio”, conta.
A arte foi uma aliada durante o processo e ajudou a artista a expor publicamente a situação. “Hoje eu trabalho com arteterapia e ajudo mulheres a entender que por meio de lenços e cangas de seda feitos por elas, podem se tornar independentes financeiramente. Foi a arte e na arte que consegui mostrar minha história e trabalhar como exemplo na vida de muitos que vivem aprisionados pelo abuso emocional”, salienta Rosy.
