JP traz a transcrição, na íntegra, da reportagem de 7 de novembro de 1964 - um dia depois da queda do Comurba, que deixou 50 mortos.
Ruiu metade do edifício “Luiz de Queiroz”, destruindo totalmente o Cine Plaza – socorros aos feridos e solidariedade em face da pavorosa tragédia. 14 mortos, cerca de 20 desaparecidos e numerosos feridos, o trágico balanço do desastre. Continuam os trabalhos de desentulho, seguidos ansiosamente por membros das famílias dos desaparecidos.
Piracicaba foi abalada ontem por uma das maiores tragédias de que há memória em seus anais: ruiu a metade do Edifício “Luiz de Queiroz”, de 15 andares, que era o orgulho dos piracicabanos, pela imponência de sua arquitetura, e pela grandiosidade da construção, que era a maior em área construída do interior do Estado, pois abrangia 22.000 metros quadrados de construção, em plena Praça José Bonifácio.

O que era o Edifício “Luiz de Queiroz”?
O edifício, palco da tragédia sem precedentes, em nossa cidade era um monumento de arrojo e de fé dos piracicabanos. Quando se ultimou a reforma da Praça José Bonifácio, no fim do governo Samuel Neves e princípios da primeira administração Luciano Guidotti, um terreno imenso ali ficou, de vários proprietários, sem que um plano surgisse para realizar algo de grandioso para a cidade.
Com as gestões do comendador Luciano Guidotti, um pugilo de piracicabanos resolveu formar uma incorporação, com a finalidade de construir um edifício grandioso, que bem traduzisse os anseios de progresso na cidade. Nasceu assim a Cia. de Melhoramentos Urbanos – Comurba, com cerca de 100 acionistas. O seu presidente é o dr. Raul Coury.
Foi instituído um concurso de projetos saindo vencedor o arquiteto Fabio Penteado, um dos mais renomados nomes da moderna arquitetura brasileira, que assinou inúmeros projetos da maior responsabilidade em São Paulo. Os estudos de sondagens do subsolo foram confiados à Geotecnica, uma das mais idôneas firmas da especialidade, na capital paulista, que para aqui se transportou com seu aparelhamento tendo perfurado o subsolo, encontrando vasta diabase, que foi perfurada 10,5 metros de espessura. Assim, sobre a rocha viva, de mais de 10 metros de altura, se assentaram os poços de concreto de onde nasceram as colunas de sustentação do edifício.
Os cálculos foram realizados por escritório contratado, também da capital paulista, Moura Abreu, calculistas de grandes estruturas de São Paulo. A construção foi confiada a duas firmas da cidade: Holand Limitada e Coury Limitada, que trabalharam sob a orientação dos especialistas paulistanos.
O Edifício “Luiz de Queiroz”, como dissemos, tem 22.000 metros quadrados de construção, sendo dividido em dois corpos distintos: um, que vai da rua São José até a metade, mais ou menos, constituído por salas para escritórios, um clube, a galeria de lojas, e outro, o que ruiu, unido por uma junta de dilatação, e que continha 54 apartamentos, já em fase de acabamento, e 6 lojas. Sob o edifício, havia uma garagem com capacidade para mais de 50 automóveis. Para se avaliar o tamanho do prédio, basta dizer que, somente a área da garagem do Edifício “Luiz de Queiroz”, era maior do que todo o Edifício “Santo Antônio”, situado à rua da Boa Morte.
Como se deu o desastre
Seria 13:35 horas, em meio a silêncio, sem dar o menor sinal, sem ter se observado trinca ou rachadura, abruptamente, toda a ata que dá pra rua Prudente de Morais, do prédio da Comurba, veio abaixo, com grande estrondo, levantando-se uma nuvem de caliça que escureceu por completo toda a Praça José Bonifácio.
Estarrecidas, centenas de pessoas que se achavam naquela parte do centro da cidade, voltaram suas vistas para o Edifício “Luiz de Queiroz”, que toma todo o quarteirão entre as ruas São José e Prudente de Morais, percebendo, desde logo o alcance da catástrofe.
Passado o traumatismo que o desastre provocara nas centenas de pessoas que presenciaram pode-se dizer que todos que estavam no centro da cidade correram para o local, na tentativa de prestar ajuda aos atingidos, que se previa serem muitos, considerando-se o tamanho da parte do edifício desmoronado, com 15 andares e 45 metros de largura.
Isso fez estabelecer-se no local enorme confusão, com gritaria de parentes de possíveis vítimas, pois além dos operários que ali trabalhavam, calculados em trinta, o movimento de pedestres e de automóveis naquele momento era grande, como costuma ser nas primeiras horas da tarde, o que faz prever que o número de vítimas vá além de três dezenas.
Cordão de isolamento
Com a chegada da polícia e do corpo de bombeiros, logo foi estabelecido o cordão de isolamento para evitar novos desastres, desde que o povo afluía para a Praça José Bonifácio de todos os pontos da cidade. No perímetro central o tráfego se tornou intenso, sendo impossível o estacionamento de carros. Era visível a angústia de todos, que procuravam notícias, solidarizando-se com o pesar de muitos lares piracicabanos.
As indústrias locais, secundando os poderes públicos, se movimentaram para prestar socorros. Possantes máquinas começaram os serviços de remoção dos escombros, enquanto que da região e de São Paulo unidades de corpos de bombeiros rumavam para Piracicaba. Graças a compreensão geral, os trabalhos foram realizados com grande eficiência, prosseguindo durante toda a noite na remoção dos entulhos e busca das pessoas soterradas.
Salva em emocionante lance
Na ocasião do desabamento, se encontravam na “bomboniere” o sr. Victorio Moretti, funcionário do cinema e a srta. Clarice Carrel, que ali trabalhava. Mais de uma hora depois do desastre, quando o proprietário de um Simca, que se achava na garagem do prédio, foi ali retirá-lo, (com risco de vida) veio informando ter ouvido gemidos lá na garagem. Bombeiros e o dr. Raul Coury para lá se dirigiram e acabaram por localizar Clarice, que gemia e pedia socorro. Estava presa entre as vigas de cimento armado, traves de madeira e ferro. A muito custo foi aberta passagem, cortando cimento, serrando madeira e ferro, dali retirando a vítima, após 4 horas de sofrimento. Transportada para a Santa Casa, foram constatados sérios ferimentos, mas até a hora que redigíamos esta nota, estava reagindo bem.
Uma família inteira vitimada
Nota das mais dolorosas foi a tragédia que se abateu sobre a família sobre a família do Sr. Francisco Candeias Coroa, proprietário da conhecida Casa Portuguesa: residindo num prédio ao lado , na rua Prudente de Morais, nos altos da Casa Opera, que ficou completamente destruída, a sra. d. Maria Isabel Marques Pereira, sogra do sr. Francisco Candeias Coroa, e estando doente, para lá de dirigiram suas filhas d. Almerinda Pereira Coroa, esposa do sr. Francisco Candeias Coroa e suas irmãs Maria do Carmo Marques Pereira e Adelia Marques Pereira. Todos esses cinco membros foram apanhados pelos escombros, vindo a falecer no local da tragédia.
Ao lado da casa, dentro do automóvel e aguardando as outras senhoras, encontrava-se a sra. profa. Maria de Lourdes Pereira, professora do Instituto de Educação Sud Menucci e esposa do prof. Evaristo Marques Pereira, que também foi gravemente atingida, sendo transportada para Santa Casa, sendo grave seu estado.
Cinco automóveis sob escombros
Cinco automóveis ficaram sob os escombros. Um deles, o do dr. Orlando Veneziano, foi deixado segundos antes alí estacionado, pois mal o causidico atingira o edifício da Caixa Econômica, ali em frente, rumo ao Forum, o prédio caiu, escapando assim por instantes, apenas. Transitando pelo local, depois de ter estado na Casa Opera, morreu tragicamente o sr. Antônio Neder, antigo e estimado comerciante nesta cidade.
Os socorros aos feridos
Imediatamente após a catástrofe, o Pronto Socorro Municipal e o Samdú ocorreram ao local, assim como elementos do Corpo de Bombeiros, autoridades policiais e municipais, enquanto que a equipe da Santa Casa de Misericórdia se punha a postos, a fim de socorrer os feridos. Impressionante a ocorrência de pessoas ao banco de sangue da Santa Casa, notadamente de vários operários de várias Indústrias. O Corpo de Bombeiros de Campinas acorreu com viaturas, enquanto que a Colsan de São Paulo comunicava o nosocômio que estava providenciando um avião da FAB para remeter sangue para os feridos. De Campinas, da Associação Médica, veio o oferecimento de ajuda. De Rio claro, numa comovedora prova de solidariedade, para aqui rumaram duas ambulâncias: uma do Circulo Operário de Rio Claro e outra da Casa da Saúde e Maternidade Santa Filomena. Aqui estiveram os médicos rioclarenses drs. Jedaias Norberto, Augusto Metta, Luiz Angelo, Dirceu Penteado, Candido Alvarenga, José Takara, José Marciano, da Santa Casa daquela cidade e do Hospital Santa Filomena. Também de Limeira, Rio das Pedras, São Pedro e de Ribeirão Preto a classe médica ofereceu sua solidariedade.
Destruído todo o Cine Plaza
A magnífica casa de espetáculos, que era o Cine Plaza, foi inteiramente destruída: cabine de projeção e cerca de metade da plateia, bem como o saguão de entrada. Felizmente, o desastre ocorreu com a casa vazia.
Feridos socorridos na Santa Casa
Afora os que apresentaram pequenas escoriações, foram socorridos na Santa Casa: Sebastião Antônio Queiroz, rua José Pinto de Almeida, 2172; Marcos Palombo, Av. Prudente de Morais – Rio Claro; Iolanda Doná Silva, rua Prudente de Moraes, 670; Claudio Pires da Silva, rua Prudente de Moraes, 670; Vera Lucia da Silva, mesmo endereço; Anísio Pereira da Silva, Corumbatai; Maria Aparecida Arruda, Água Santa.
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