MEMÓRIA

Humberto D'Abronzo deixou sua marca na cachaça 'Tatuzinho'

Industrial Humberto D'Abronzo morreu há 50 anos. Sua fábrica chegou a ter 300 funcionários diretos e outros que trabalhavam na logística operando 60 caminhões de entrega.

Por Edson Rontani Jr. | 26/05/2024 | Tempo de leitura: 4 min

O início se deu pelo movimento de imigração na segunda metade do século retrasado. Brasil e Itália tinham acordos visando a mão de obra destes europeus. Com o fim do escravagismo negreiro, a promessa de nova vida, e a intenção de aumentar a população brasileira, muitas famílias deixam o “velho mundo” e partem para América do Sul. O Brasil foi um dos destinos.

Em 1896, Giuseppe, então aos 62 anos de idade, deixa a cidade de Cassandrino, no interior de Nápoles (Itália). Parte em um navio cargueiro com a esposa e os quatro filhos para o Brasil. Entre os filhos estava Paschoal – também citado como Pasquale em alguns registros (01/09/1886 – 1951), com 10 anos de idade. Este, anos depois, casa-se com a paulistana Rosa (16/3/1893 – 14/11/1969). A família aporta em Santos e ruma para o interior paulista. Trabalha na colheita de café e algodão na fazenda da família Amaral, situada em Mombuca, quando ainda distrito de Capivari. Segundo relato de familiares, a fazenda era dos pais de Moacyr Amaral Santos, um dos fundadores da ACIPI, proprietário do jornal local “O Momento” e ministro do Supremo Tribuna Federal nos anos 1960.

Desta cidade partem para Piracicaba, onde Paschoal cria, em 1910, à travessa Maria Maniero, paralela ao Engenho Central, uma pequena produtora de vinagre e licores. Moravam ali perto, na avenida Barão de Serra Negra. Com o tempo passa a produzir refrigerantes gasosos. Seus dois irmãos têm a mesma ideia: Domingos, com engarrafadora de bebidas em Rio Claro, e Francisco, em Charqueada. Uma das irmãs, Paschoalina, casou-se com Vicente Orlando, patriarca da tradicional Tubaína e Gengibirra Orlando, ainda hoje fabricada.

Paschoal tem seis filhos: Maria (Mariquinha), Luzia, Rafael, Anna (Aninha), Suzana e Humberto. O caçula tornou-se esportista, industrial de renome, futebolista e político. Faleceu 50 anos atrás, em 23 de maio de 1974. É a ele que esse artigo dá destaque a partir de agora.

Humberto D’Abronzo nasceu em Piracicaba à 9 de junho de 1915, segundo registros oficiais. Foi o homem da família. Do outro irmão, Rafael, são raros os registros já que ele faleceu no início da juventude.

Humberto foi jogador de futebol rezendino, sendo identificado em alguns registros como “Junqueira”, atuando na Sucrière, associação desportiva do Engenho.

Dividia o fabrico de engarrafados com seu pai. No final dos anos 1940 resolve apenas envasar caninha, deixando de lado as demais bebidas, incluindo o tradicional Vinho D’Abronzo, com pura qualidade italiana. É aí que surge a Caninha da Serra e o Quá Quá 40 rebatizadas anos depois de Caninha Tatuzinho, que carregava o slogan do “melhor aperitivo nacional”. Este marketing tentava associar pequenos goles da bebida para abrir o apetite.

A D’Abronzo S/A envasava a caninha produzida por outra empresa em barracão ainda hoje existente à rua Boa Morte em frente ao Lar Coração de Maria. Era a fábrica da família Del Nero que produzia a Aguardente 21. Existiam também outros fornecedores.

O mercado acolheu a produção piracicabana. A Tatuzinho chegou a ter 300 funcionários diretos e outros que trabalhavam na logística operando 60 caminhões de entrega. Estes veículos percorriam o Brasil assim como alguns países da América do Sul. D’Abronzo chegou a importar da Argentina máquinas com capacidade de produzir 45 mil garrafas por hora, para um estoque de 10 milhões de litros da caninha.

A fábrica, que começou num tímido barracão ao lado do Engenho Central, passou para a avenida Maria Elisa (próximo a Farmácia do seu Pacheco/Dito da Farmácia) avançando pela avenida Rui Barbosa em barracões ainda preservados.

Nos anos 1950, D’Abronzo se envolve com o futebol sendo cartola do basquete do XV de Piracicaba e do Clube Atlético Piracicabano (CAP), que, junto a Armandinho Dedini, teve intenção de transformá-lo em um rival do XV com contratações volumosas visando entrar na divisão principal do futebol paulista. Nesta época surgem nomes renomados como Mazola e Waldemar Blatkauskas entre outros.

Deixa o Estádio Dr. Koch para dedicar-se ao Estádio Barão de Serra Negra como presidente do alvinegro local entre 1965 e 1970, por dois mandatos. O XV havia sido rebaixado para a segunda divisão em 1965 e coube a D’Abronzo elevar o time em disputada final realizada em janeiro de 1968 numa recordação ainda hoje lembrada por muitos e que fez a cidade parar.

Devido à esta exposição, entra na política postulando a prefeitura da cidade. Acabou não concorrendo.

Foram seis décadas de vida. Muito tempo dedicado a Piracicaba. Muitas atividades para um espaço determinado de linhas deste matutino. Muitos nomes também o auxiliaram nesta jornada. Uma infinidade de nomes, aliás. Foi comendador pela Ordem de São Paulo Apóstolo e Ordem São Francisco, além de ter sido agraciado pelo título de cidadão piracicabano. Seu filho, Pasqual D’Abronzo lembra que conviveu com Humberto por 24 anos, e que boas recordações deste período são gratas, como diversões e amizades com empresários, políticos e personalidades da sociedade piracicabana. “Ele deve ser lembrado como exemplo de italiano visionário e empreendedor que deu certo”, diz.

O fim é triste. Ocorreu às 5 horas da madrugada de 23 de maio de 1974, 50 anos atrás, após dias de internações na Clínica Amalfi. A vida se esvai aos 58 anos de idade. A causa foi um infarto do miocárdio, tendo como declarante Luiz Carlos Longatto atestado o óbito pelo doutor José Eduardo Mello Ayres. A vida se foi. O legado ficou.

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