Leandro Samarone da Rosa Fernandes, 52 anos, o novo técnico do XV de Piracicaba, está muito animado em relação ao futuro. Ex-jogador com carreira internacional, Samarone vive hoje o Alvinegro e está com o planejamento em andamento visando ao seu primeiro desafio: a Copa Paulista 2024. Promovido do time sub-20, ele sabe que terá de contar com o apoio e paciência da torcida quinzista para implantar seu método de trabalho em uma jovem equipe - que irá defender a camisa zebrada na competição que classifica os finalistas para competições nacionais (Copa do Brasil e Série D do Brasileiro). Casado há 15 anos com Elea Fernandes e pai de quatro filhos (Caroline Soares, 30 anos; Leandro Matheus, 29; Giovana Camila, 26; e Davi Augusto, 15), Samarone chegou ao Barão em 1987, aos 16 anos, e ficou até 1992. Depois de rodar em clubes do Brasil, foi para a Rússia, onde atou por Spartak e CSKA, dois gigantes de Moscou. Na volta do Leste Europeu, pendurou as chuteiras e iniciou a carreira de técnico. Intenso e estudioso, agora ele quer dar ao XV o tricampeonato da Copa Paulista. O fato de ter um time de novatos, garante ele, não será sinônimo de dias tranquilos no Barão. Pelo contrário. Os jovens jogadores serão cobrados por metas e desenvolvimento técnico, a fim de que conquistem o sucesso na carreira. “Você tem de ser profissional ao extremo para chegar ao topo da pirâmide”, diz. Veja, abaixo, a entrevista na íntegra.
Para começar, conte-nos com foi a sua trajetória como jogador de futebol profissional... Comecei minha carreira com 16 anos no XV de Piracicaba. Fiquei aqui de 1987 a 1992, quando fui para a Ponte Preta; depois fiz carreira aqui no Brasil até 1996; passei no CRB e no CSA, os dois times de Maceió/AL; Vila Nova de Goiás, Bragantino, Novorizontino e meu último clube foi o Ituano em 1996. Depois, fui embora para a Rússia.
Como foi sua experiência no Leste Europeu? Fiquei lá de 1996 a 2004. Joguei em dois grandes clubes da Rússia, que são o Spartak e o CSKA, de Moscou. Joguei uma Liga da Europa, que antes era Copa da Uefa, uma Champions League e uma Copa das Confederações. Fiz um gol na Champions, contra o Litex, da Bulgária, pelo Spartak de Moscou em 1998. E um gol na Copa da Uefa contra o Auxerre, da França, pelo CSKA, em 1996.
Você chegou muito longe nestes campeonatos? Não. Na Champions, nós ficamos em terceiro, mas em um grupo muito difícil, com Inter de Milão e Real Madrid; e o Spartak foi para a Copa da Uefa como terceiro colocado. No CSKA, nós passamos duas fases. Foram quase nove anos como atleta na Rússia.
Depois desse tempo, você volta para o Brasil já quase no final de carreira? Eu volto para o Brasil e encerro a carreira no União Barbarense. Ali mesmo, eu tive uma oportunidade como auxiliar-técnico em 2005, na Série B do Brasileiro. Tive uma experiência como técnico da Patrocinense-MG em 2015; e fiquei no Velo Clube por dois anos, entre 2018 e 2020.
Você é daqui mesmo de Piracicaba? Na verdade, eu sou de Ribeira, no Vale do Ribeira; vim embora para Piracicaba com 15 anos; meus pais moram aqui; não somos daqui, mas estamos aqui faz muito tempo. Hoje, moro em Santa Bárbara d´Oeste, mas vivi aqui por 20 anos. É que minha esposa é de Santa Bárbara.
Como foi essa chegada ao XV como técnico? Quando você assumiu o sub-20? Eu comecei em setembro de 2022. Eu estava no Uberlândia Esportes e vim para cá. Foram duas Copas São Paulo no período (2023 e 2024).
Na Copa SP, foram duas classificações. Uma boa campanha, não? Na verdade, eu joguei três copas SP com o XV como jogador e duas como treinador. Como jogador, eu passei de fase uma vez, em 1990. Como treinador, foram duas classificações, em 2023 e 2024, em primeiro lugar da chave e jogando fora de casa – em São Paulo (no estádio do Nacional, na Rua Comendador Souza), e em Alumínio. É importante você se classificar. Logicamente, você quer jogar em sua casa para ter a torcida a seu favor, mas isso não foi possível. Então, foi muito legal ter classificado duas vezes. Assim, o clube vai ganhando tradição nessa competição.
Isso é importante mesmo. O XV, que não vendia ninguém havia vários anos, nos últimos tempos tem negociado jogadores da base... As duas últimas Copas SP foram muito importantes. O Caíque e o Diego Lazarini foram para o Barra e agora o nosso goleiro foi para Red Bull e o Hassan foi para o Flamengo... Vai criando-se tradição dentro da competição e vão olhando mais para cá. Esse é o principal objetivo. Não adianta você ganhar jogos e não ver o seu atleta desenvolvendo. Tem de vencer jogos e desenvolver as valências dos atletas individualmente para servirem o time principal.
Sobre o time profissional, queria que falasse desse desafio em sua carreira, em um time como o XV, que é muito falado e todo mundo conhece... Para mim é um orgulho estar à frente do time profissional do XV, um clube que me projetou como atleta. Eu fui torcedor, jogador e hoje sou treinador da equipe principal do XV. Para mim, isso é um orgulho enorme. Agora, tenho de mostrar trabalho, porque o nosso clube é importante no Estado e no Brasil. Tem muita gente que gosta do XV, vem ao estádio, vê pela televisão, hoje também pelo youtube. É um processo de construção da equipe; daqui a pouco o clube está na primeira divisão do Paulista e volta a estar entre os grandes do futebol paulista e a meta é chegar até 2026 com esse projeto de estar entre as 60 melhores equipes do Brasil, ou seja, estar em uma Série C do Brasileiro, que é importante.
E a Copa Paulista? Aonde o XV pode chegar com essa molecada? O objetivo é sempre fazer o melhor, ganhar o maior número de jogos possíveis e a competição vai te desenhar o seu trajeto de conquista. Não é fácil, mas ao mesmo tempo o XV tem tradição dentro dessa competição. Por isso, o objeto é tentar chegar à final e conquistar o título, independente da idade do atleta, do atleta ser jovem. Se é um atleta profissional, tem de ter responsabilidade. Logicamente, um atleta jovem e envergando uma camisa importante, ele tem de ser ajudado e o nosso torcedor vai dar apoio a eles para que desenvolvam o melhor em campo.
O time é jovem, mas é um grupo que você conhece, pois a maioria passou por suas mãos no sub-20, não? A gente trouxe os atletas que estão no último degrau da formação, ou seja, os atletas 2004 (ano); nós já temos três atletas 2003, casos do Sérgio, do Iago e do Colômbia (Luis Acevedo). Agora, vêm os de 2004 para completar esse trabalho. São atletas que vinham trabalhando comigo há um ano e meio e que estão sendo ‘lapidados’ para esse objetivo maior na Copa Paulista.
Mas é uma grande oportunidade também para eles, não Leandro? Uma boa chance de seguir carreira e prosperar no futebol... Eles têm consciência de aonde querem chegar. Eu tenho falado para eles desde quando eu assumi o sub-20: ‘Aonde você quer chegar?’; ‘qual o seu objetivo?’; ‘o que você precisa fazer para jogar na Europa, em grandes clubes do futebol mundial ou na Série A do futebol brasileiro?’. Tudo é aonde você quer chegar. Passo a passo, mas você tem de entender que é com disciplina, com trabalho; não pode abrir mão dessas coisas. Você tem de ser profissional ao extremo para chegar lá em cima, ao topo da pirâmide.
Você acredita muito nesse grupo, então? Eu acredito no que a gente pode fazer, no que a gente pode desenvolver durante a semana para que eles possam estar potencializados para um jogo de final de semana. Que eles entendam que no profissional são exigências maiores e que o importante é desenvolver desde segunda-feira; porque se você trabalhar forte durante a semana, o resultado no final de semana vem.
Quais as posições carentes no atual elenco do XV? Por muitos atletas terem saído, por término de contrato, nós estamos observando basicamente todas as posições. Nós temos de ter pelo menos dois atletas por posição. E para que o atleta que esteja jogando tenha uma concorrência, uma sombra boa, importante, para que ele também se desenvolva.
Como é o seu perfil como técnico, não somente no dia a dia, mas à beira do campo? Eu cobro muito o atleta durante a semana. A intensidade no treino, algo que você não pode abrir mão. Cobrança a todo momento e pontuando coisas importantes para eles e, ao mesmo tempo, mostrando o que é importante para o desenvolvimento do jogo. Isso durante a semana. Durante o jogo, são situações pontuais e saber que tem um começo, um intervalo que pode também ajustar algumas coisas e entender o segundo tempo do jogo, fazendo com que eles desenvolvam. E tem de apoiá-los a todo o momento.
O técnico ganha jogo? O técnico ganha jogo em estratégias. E isso é você ter estratégias não somente com os 11 atletas que começam e sim com os outros que estão no banco de reservas. O treinador consegue desenvolver ações para a mudança do jogo, Aí que entra o treinador. Mas o jogador também está preparado tecnicamente e fisicamente para decidir jogos importantes.
Leandro, mais duas questões para terminar: você vê o futebol muito diferente em relação à sua época? Os clubes grandes hoje investem muito na base. Esse é o caminho? O alicerce de um clube passa pela categoria de base. A partir do momento em que o clube se estrutura nas categorias de base nos dias de hoje, ele tem grandes possibilidades de no futuro estar se construindo como clube importante e ao mesmo tempo formatando grandes jogadores para sua instituição. Passa por aí. O grande caminho do futebol é isso. O futebol mudou muito da minha época. Hoje, o jogo é muito intenso e o treino tem de ser muito bem planejado para ser desenvolvido de acordo com o seu modelo de jogo.