ARTIGO

A responsabilidade inafastável dos prefeitos de Porto Alegre

26/05/2024 | Tempo de leitura: 3 min

A tragédia das inundações no Rio Grande do Sul continua, com crescimento do número de mortos, que passa a abranger os vitimados por leptospirose e outras doenças que defluem das enchentes. Até sexta-feira (24/5) eram 163 mortos, com mais de 660 mil pessoas desabrigadas de suas próprias casas. Estima-se que a população afetada seja superior a 2,3 milhões de gaúchos.

Na quinta-feira (23/5) ocorreram novas inundações em bairros da zona sul de Porto Alegre que não haviam sido atingidos. A razão foi que os bueiros, ao invés de drenar, passaram a ejetar com enorme pressão a água que estava represada em galerias subterrâneas. As imagens são chocantes: bueiros da cidade se transformaram em verdadeiros “gêisers”, que até então não existiam no Brasil!

Gêisers são nascentes termais que entram em erupção periodicamente lançando jatos de água quente para a atmosfera em localidades próximas a vulcões ativos. São inexistentes na natureza brasileira. Porém, o Brasil conseguiu a proeza de mostrar ao mundo novo tipo de “gêiser” criado por obra de pura incompetência humana: bueiros que ejetam água gelada dos canais subterrâneos, os quais que se transformaram em distribuidores de novos alagamentos na capital gaúcha.

O colapso retumbante da anti-gestão da infraestrutura hídrica conseguiu inverter todo o propósito da engenharia moderna. Os bueiros que não drenam, mas ejetam água, são consequência direta do desleixo em que sucessivos prefeitos deixaram o sistema de bombas responsável por escoar toda a água de Porto Alegre, caso estivesse em pleno funcionamento. Todavia, das 23 bombas projetadas para assegurar a drenagem dos canais subterrâneos da cidade, havia somente 4 funcionando no início das inundações e apenas 10 funcionando atualmente.

As comportas projetadas para ficarem completamente fechadas, e evitar que as águas invadissem a cidade, não funcionaram por problemas de deterioração e vedação, existindo fendas de até 40 centímetros. Em decorrência, após o alagamento, as comportas tiveram que ser derrubadas às pressas e de qualquer jeito, para que a água pudesse voltar para o rio Guaíba. Ou seja, aquilo que deveria obstar o alagamento, passou a impedir o escoamento. E não é só isso. Como a chuva voltou em grandes quantidades, a prefeitura teve que improvisar novas barreiras para o avanço das águas com sacos de areia, já que as comportas originais ficaram danificadas.

Um documento assinado por mais de 40 engenheiros e técnicos de saneamento afirma que o sistema de proteção contra inundações falhou porque não recebeu a manutenção necessária. Segundo os especialistas, o sistema deveria ter impedido a inundação até a cota de 6 metros, o que nem chegou a ser atingido. Obviamente que isso requereria a manutenção permanente, em especial das comportas e das casas de bombas. Os técnicos atestam que as deficiências nas comportas eram visíveis e seriam fáceis de serem sanadas, mas não foram.

Trata-se, portanto, de modelo de falência na gestão de infraestrutura hídrica a ser exportado para o mundo para ensinar o que NÃO se deve fazer. A catástrofe do Rio Grande do Sul desnudou a inaptidão, a incompetência, a desfaçatez e a escancarada má-fé de políticos profissionais brasileiros que vêm a público para convenientemente culpar “as mudanças climáticas” enquanto deveriam se envergonhar e reconhecer a responsabilidade dos gestores públicos pelas vidas perdidas e pelos prejuízos materiais e imateriais incalculáveis que impuseram à população que se encontra sob sua gestão.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

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