ARTIGO

Grandeza, pequenez, miséria humanas

13/05/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Foto: reprodução

Está lá: “E Deus disse: ´Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Foi quando começaram as complicações. A primeira: se o verbo está no plural – “façamos” – o Deus falante estaria acompanhado. Pois faz um convite a um ou a outros a quem se expressou. Houve, pois, um projeto comum. Teólogos resolveram, pelo menos para si mesmos, haver um Deus pai, um Deus filho e o Espírito Santo. Com uma informação racionalmente incompreensível: três em um; o Deus trino. Isso explicaria o “façamos”. Mas complica ainda mais.

O homem é o ser humano, o “húmus”. Teria sido criado e, portanto, uma criatura. Outra indagação passou a perturbar a multidão dos que, ao longo dos milênios, foram criados. Por quê, para quê? Uma das primeiras respostas: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.” Ufa! Nascer, pois, seria uma graça, bênção, privilégio ou uma prestação de serviços? 

Mas, “vade retro Satana!” Sai de mim, danado, que não mais quero pensar nessas coisas. Cansei. E, portanto, que nunca mais me lamente por a humanidade ter gerado um Hitler, um Stalin. Foram entropias, abortos. Pois ela mesma gerou, também, Francisco de Assis, Tereza de Calcutá, Gandhi, tantas e tantas almas generosas e fecundas. Assim, pois, despertei para apenas bendizer o milagre de participar dessa aventura comum a todos os seres vivos. Esse ser parte, ainda que microscópica, da natureza. Da Criação. E os acontecimentos trágicos de Porto Alegre fortaleceram-me a fé no ser humano. E, também, o desprezo por gente lastimável. 

Pensemos com clareza, com lucidez: se somos frutos da Criação, como haveria – aquele ou aquilo que criou – tê-lo feito para o mal? Nós mesmos – humanos – ao procriarmos, não é apenas o bem que desejamos para nossas criaturas? Outra face do mistério está no surgimento do mal, que é a ausência do bem. No entanto, o desafio maior está em enfrentá-lo, em superá-lo. E provar a grande verdade: o amor vence o ódio, o bem vence o mal. E isso está acontecendo no Brasil, onde a tragédia de Porto Alegre revelou a dimensão da fraternidade de nossa gente. Que, no mais das vezes, fica oculta pela opção dos meios de comunicação em transformar o mal como notícia prioritária. 

De tal forma, porém, a violência, o desrespeito, a indiferença banalizaram-se tanto, que o bem, o bom e a verdade começam, novamente, a ser notícia. Que está no jovem ajudando a velhinha a atravessar a rua; no muito obrigado, no por favor. O Brasil virou notícia mundial não apenas pela tragédia gaúcha. Mas, também, pela grandeza moral e espiritual da solidariedade. 

Na comoção que nos abala, assistimos, também, ao horror promovido pelos chamados negacionistas. A pequenez moral e espiritual deles tenta abalar a grandeza da solidariedade do povo brasileiro. Não há como suportá-los, nesse espetáculo amargo de ressentimentos, de frustrados, de mal-amados. Eles se unem aos amantes das misérias humanas que assaltam, que violam e violentam lares já sofridos. Como vê-los à imagem e semelhança da divindade? 

A vida emite sinais. Os de agora são um momento de plena revisão de princípios idealísticos e, até mesmo, utópicos. O divisionismo do país tornou-se de tal forma evidente que parece irreversível. Isso reflete uma realidade social de relação amigo/inimigo. Ou seja: para os amigos, tudo; para o inimigo, a lei. Pois, o amigo do meu amigo é meu amigo; o inimigo do meu amigo é meu inimigo. Os negacionistas são inimigos. Resistamos.  

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

COMENTÁRIOS

A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores. Por isso, os leitores e usuários desse canal encontram-se sujeitos às condições de uso do portal de internet do Portal SAMPI e se comprometem a respeitar o código de Conduta On-line do SAMPI.