ARTIGO

Caipira que vai à mesa

10/05/2024 | Tempo de leitura: 3 min

Foto: reprodução Freepick

“Fulano é arroz de festa”. A expressão surgiu da realeza e nobreza portuguesas que por aqui aportaram. Em todas as festas reais, o tal arroz de festa era servido, numa tradição que surgiu lá pelos anos 700 quando os árabes invadiram a península ibérica. Sim, o arroz de festa veio do oriente médio. Esta guloseima é o tal arroz-doce, servido principalmente em festas religiosas. A influência dos árabes pode ser vista na especiaria conhecida por canela em pau ou em pó que o acompanha.

Nos tachões antigos, durante a fabricação do açúcar, ficavam raspas duras tiradas com espátulas. Era uma concentração elevada do próprio açúcar. Assim nasceu a rapadura (de raspas duras) que inicialmente era dispensada, sem utilidade, já que o fabrico específico era o açúcar. Com o tempo virou comida em muitos pratos do norte e nordeste. Hoje é mais uma sobremesa colocada em nossa gastronomia.

Estas e outras curiosidades foram exploradas no livro “Culinária brasileira, muito prazer”, lançado em dezembro pela Editora Senac. A autora é Roberta Malta Saldanha que já escreveu livros sobre gastronomia e vinhos. A mesma dá um capítulo especial à caipirinha e credita a invenção à Piracicaba no período da pandemia anterior à atual da covid-19, aquela conhecida por gripe espanhola que assolou o mundo logo ao final da Primeira Guerra Mundial estendendo-se de 1918 a 1920. Era um remédio caseiro de cachaça, mel e limão. Seu nome veio por ter surgido em nossa terra. Yes ! Somos caipiras com muito orgulho. Fez o maior sucesso na Semana da Arte Moderna em 1922, drinque oficial do evento na capital paulista.

Piracicaba não ficou distante da pandemia da gripe espanhola. Deixou a cidade de quarentena, matando 88 pessoas e atingindo outras 4.178, em especial as residentes no Porto João Alfredo (Ártemis) e outros bairros então considerados como zona rural. A cidade tinha perto de 30 mil habitantes. Tudo parou. Escolas, jogos de futebol, comércio... Houve tempo para inventar tal coquetel.

Não que isso fosse novidade. João Chiarini pregava isso pregava que a caipirinha surgiu em nossa vidade. Até bateu um papo descontraído com Lima Duarte no programa Som Brasil, da TV Globo, levado ao ar em 28 de dezembro de 1988, atestando isso. Cecílio Elias Netto também tocou no assunto no seu livro “Piracicaba, doçura da terra”, lançado em agosto de 1917 pelo ICEN.

Piracicaba teve seu papel de destaque na produção da caipirinha por ser uma terra produtora de muitas toneladas da cana de açúcar, produto importado pelos colonizadores. O setor sucroacooleiro se expandiu depois de muitos estudos. Europeus e norte-americanos que aqui vieram estudar e trabalhar tentaram cultivar algodão e alfafa, como os ex-diretores da Esalq Clinton Smith e Emilio Castello. Este último passou uma temporada na Argentina estudando alfafa regressando com relatório para seu plantio em escala na nossa cidade.

Mas, já que falamos da cachaça (também conhecida por aguardente, pinga, caninha, entre outas denominações que variam conforme sua graduação e fabricação), cabe lembrar que a cidade sempre teve tradição em sua produção. Não é raro ainda ver referência à Caninha Tatuzinho, da família D’Abronzo, que em meados dos anos 1960 tentou o mercado exterior com sua Samba’s Rum, numa jogada de marketing de Jorge César de Vargas. Ou ainda a Caninha Cavalinho da família Carmignani. Curioso é ver que esta tradição surge no início do século passado, liderada por imigrantes italianos como Ermelindo Del Nero e sua indústria situada à rua Boa Morte em frente ao Lar Escola Coração de Maria onde eram fabricados os rótulos Aguardente Brasileira e Caninha Velha 1921. Abrahão Zaidan incorporou seu nome na Caninha Zaidan em meados do século passado. José Madazio tinha sua produção no bairro Guamium. Não podemos esquecer da mais que centenária Usina Capuava que, através de Henrique Christiano Mathiessen, dinamarquês, produzia aquavita há cerca de 130 anos atrás, mas hoje fornece derivados da cana de açúcar para empresas de renome internacional. Também tivemos produtores de destilarias e reparo em alambiques. Tudo em prol da saúde ! Um trago pela conquista !

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do SAMPI

COMENTÁRIOS

A responsabilidade pelos comentários é exclusiva dos respectivos autores. Por isso, os leitores e usuários desse canal encontram-se sujeitos às condições de uso do portal de internet do Portal SAMPI e se comprometem a respeitar o código de Conduta On-line do SAMPI.