POLÍTICA

Depoimento de Vitorelli à Corregedoria contradiz sua própria declaração à Civil

Walmir confessou à Corregedoria ter pago valores ao hacker, enquanto disse à Civil de Bauru jamais ter sequer falado com ele

Por André Fleury Moraes | 12/04/2024 | Tempo de leitura: 4 min
da Redação

Guilherme Matos

Walmir Vitorelli: dois depoimentos, várias contradições; ele nega
Walmir Vitorelli: dois depoimentos, várias contradições; ele nega

O depoimento de Walmir Henrique Vitorelli à Corregedoria da Polícia Civil no âmbito do caso em que ele é acusado de ter contratado um hacker para invadir dispositivos e contas pessoais de desafetos do governo Suéllen Rosim (PSD), de quem é cunhado, contradiz sua declaração à imprensa quando o caso veio à tona e à própria Polícia Civil de Bauru. As vítimas teriam sido a vereadora Estela Almagro (PT) e o jornalista Nelson 'Itaberá'.

Walmir confessou à Corregedoria, em oitiva realizada em 6 de março, que pagou R$ 1.400 para que o hacker Patrick César da Silva Brito vasculhasse a vida pregressa do jornalista Nelson 'Itaberá'.

Ele ressaltou, no entanto, que os documentos que pediu eram "praticamente todos públicos" e que o hacker havia se apresentado como "um detetive particular" — informação que o hacker Patrick refuta desde o início.

Os depoimentos constam do processo da Comissão Provisória da Câmara de Bauru que investigou o caso. O procedimento tem mais de 500 páginas e o relatório final está sob sigilo.

O hacker chegou a ser preso na Sérvia procurado pela Interpol (Polícia Internacional), mas hoje está em liberdade. Patrick é peça central não apenas no episódio do hackeamento de figuras públicas de Bauru, mas também de outros casos de repercussão nacional.

Ele confessou, por exemplo, ter invadido o celular do ministro Márcio França (PSB), ex-governador de São Paulo, no escândalo posteriormente conhecido como "Operação Raio-X" - que está em vias de ser anulada porque as provas obtidas pelos policiais por meio do hacker podem ser consideradas ilegais.

Apesar da confissão à Corregedoria, Walmir deu uma versão distinta à Polícia Civil de Bauru no inquérito que apurou — e posteriormente descartou — a suposta invasão ao computador da vereadora Estela Almagro (PT).

O cunhado da prefeita afirmou à delegada Priscila Alferes "que jamais conversou com Patrick sobre a vereadora Estela e sobre o jornalista Nelson". Disse também "que Patrick pode estar alegando essa falácia com o fim de afetar o filho de seu padrasto, que é policial e trabalha em investigações envolvendo o hacker na cidade de Araçatuba".

Walmir se referiu a seu "meio-irmão" Felipe Garcia Pimenta, investigado no esquema que cooptou Patrick a invadir ilegalmente dispositivos de autoridades. Procurado pelo JC no ano passado, quando o escândalo veio à tona, Pimenta se recusou a comentar o caso.

Outra controvérsia nos depoimentos está no pagamento.

À Civil de Bauru, o cunhado da prefeita reafirmou uma nota que encaminhou à imprensa na qual diz que "sou formado em direito e jamais faria o pagamento do boleto na minha conta pessoal para contratar um serviço que é obviamente ilegal". Apesar disso, no depoimento à Corregedoria, ele admitiu ter pago valores ao hacker.

"[Walmir] informa que Patrick fez um levantamento de eventuais situações que envolvessem o jornalista, enviando documentos que eram, praticamente, todos públicos. Como contraprestação, o declarante [Walmir] pagou uma entrada e uma outra parte, sendo em torno de R$ 1.400", diz trecho do depoimento.

"Relata que Patrick encaminhou por e-mail os documentos que teriam sido obtidos nas pesquisas em relação ao jornalista Nelson e que não possui mais tais documentos, pois não serviram para nada", prossegue.

Procurado pelo JC na noite de ontem (11), Walmir negou haver contradições, disse que "eu realmente jamais pagaria por um serviço ilegal. Na verdade eu paguei, sim, mas por um serviço legal (ele se apresentou como um detetive particular que faria pesquisas)".

Não respondeu, porém, por que disse à Civil de Bauru que jamais teria conversado com o hacker Patrick Brito.

"Na minha primeira nota eu deixo claro que foi ele quem me contatou primeiro e se apresentou, e depois de algum tempo eu o procurei. Exatamente o mesmo que eu afirmei à Corregedoria", alega Walmir Vitorelli.

Além do inquérito que tramita na Corregedoria, o caso também é investigado pelo Ministério Público Federal (MPF) e pela Polícia Federal (PF), para onde a investigação foi direcionada depois de o MP Estadual declinar da competência de apurar o episódio. A vereadora Estela, por sinal, depõe na próxima terça (16) à PF sobre o caso.

Além de Walmir, seu meio-irmão Pimenta também foi ouvido pela Corregedoria. E seu depoimento foi ainda mais destoante. Disse que "contatou Walmir e este disse que no ano passado um hacker entrou em contato solicitando dinheiro para não publicar mensagens ofensivas pelo Facebook contra a prefeita de Bauru, tendo cobrado em uma ocasião R$ 500,00 e em outra R$ 1.000,00, valores que foram pagos por Walmir sem saber de quem se tratava o hacker". A informação é contestada por seu próprio irmão.

"O suposto hacker não me extorquiu. Não sei por que o Felipe fez essa afirmação, deve ter se confundido, mas não posso responder por ele", disse Walmir ao JC.

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