PERSONA

Ernst Mahle ajudou a impulsionar o ensino musical no Brasil

Por Fernanda Rizzi | fernanda.rizzi@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 5 min
Claudinho Coradini/JP

Piracicaba tem a honra de ter um dos principais compositores da atualidade: Ernst Mahle. Reconhecido por suas contribuições musicais no Brasil, o músico nasceu em Stuttgart, Alemanha, em3de janeiro de 1929, em uma família de engenheiros. Sua infância foi marcada pela Segunda Guerra Mundial, durante a qual sua família se viu obrigada a deixar sua cidade natal e se estabelecer na Áustria.

Foi na Áustria, após o término da guerra, que Mahle teve seu primeiro contato significativo com a música. Aos 21 anos, em 1950, ele deixou a Europa e se mudou para São Paulo, Brasil, com sua família. Logo após sua chegada, em 1952, Mahle teve um encontro com o músico Koellreutter durante uma apresentação da Sociedade Bach, o que o incentivou a seguir uma carreira na música.

No ano seguinte, em 1953, Mahle teve a oportunidade de apresentar suas composições ao compositor Krenek, que reconheceu seu talento e o encorajou a estudar composição. Sob a orientação de Koellreutter, Mahle se dedicou aos estudos musicais, explorando diversos aspectos da teoria e prática musical.

Durante sua jornada musical, Mahle não apenas se dedicou à composição, mas também explorou diferentes instrumentos, como piano, flauta doce e violino. Sua busca pela expressão musical o levou a experimentar uma variedade de estilos e técnicas, culminando no desenvolvimento de sua própria voz como compositor.

Fundou a Escola de Música de Piracicaba em 1953, onde atuou por mais de 50 anos como diretor artístico, professor e maestro. Recebeu o título de “Cidadão Piracicabano” e o prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) em 1995. Aqui, se casou com a piracicabana Maria Apparecida Romera Pinto Mahle, a Cidinha, ex-aluna de Koellreutter e uma das fundadoras da Empem (Escola de Música de Piracicaba Ernst Mahle), com quem teve os filhos Ernesto, Cecília Elisabeth (já falecida), Claudio, Ricardo e Leonora.

Hoje, devido à idade, o músico conta ao JP que gosta de assistir aos concertos, ouvir jovens alunos e, inclusive, recebê-los em sua casa.

O senhor já executou diversas atividades como músico. Hoje, aos 95 anos, em qual área se sente mais realizado? Por mim, acho que sou uma mistura de professor, maestro e compositor, tendo realizado bastante, nos três setores. Hoje estou com 95 anos, não consigo mais trabalhar como antes, mas gosto de assistir aos concertos, ouvir jovens alunos e inclusive vários deles vêm até minha casa, para tocar para mim, obras que escrevi para eles próprios ou peças que estudaram, de minha autoria, das quais gostaram muito e dizem que aprenderam bastante com elas.

Hoje o senhor é considerado um dos maiores compositores. Como descobriu que gostaria de ser compositor? Minha trajetória como compositor começou com a fundação da Escola de Música, pois observei que o número de crianças era maior, entre as que desejavam que estudassem música. Elas precisavam muito que tivessem material adequado e interessante para ter vontade de cantar, tocar. Isso culminou quando a pianista Maria Dirce Almeida Camargo, uma das diretoras da Pro Arte EMP, me escreveu uma carta, quando eu estava lecionando em um Curso de Férias, na Bahia, em 1955, pedindo para que eu escrevesse algumas pequenas peças para fundarmos uma “Orquestra Infantil” na EMP, dado o número de pequenos violinistas com os quais já contávamos, ali. Concordei logo e ao voltar da Bahia escrevi três pequenas peças, bem fáceis, com temas folclóricos, para formarmos uma Orquestra Infantil: “Ao clarão da Lua” (francesa); “Serra aqui, serra ali” (argentina) e “Entre o boi e o burrinho” (natalina). Começamos a ensaiar em agosto, uma vez por semana e a estreia foi no final de novembro, um grande sucesso! Os pais ficaram entusiasmados, o público também, mais alunos apareceram para estudar instrumentos de orquestra.

Como é sua abordagem criativa ao compor? Fontes de inspiração ou processos específicos que você segue? Para mim, o mais expressivo é ficar com a ideia daquilo que irei fazer e com a inspiração para o trabalho.

Acredita que a música deva transmitir sentimentos específicos ou é mais importante criar uma experiência aberta à interpretação do ouvinte? Compor sempre é um trabalho muito criativo e é normal esperar que o ouvinte aprecie aquilo que escrevemos e apresentamos.

Como você equilibra a inovação e a tradição em suas composições? Você se sente mais inclinado a explorar novas sonoridades e técnicas ou prefere se basear em formas e estruturas musicais estabelecidas? Considero muito importante conhecer e analisar bem as obras dos grandes mestres da música, pois elas ensinam muito. Por outro lado, um estilo próprio sempre é importante cultivar. Quando vou escrever uma nova composição, procuro ser original, mas ao mesmo tempo conhecer muito bem para qual instrumento ou conjunto: coral, orquestral, ballet, etc., para o qual irei compor, afim de que minha obra seja de interesse do solista ou do conjunto para o qual se destina. Penso também no público que irá ouvir a composição que ela, além de ser motivo de progresso e alegria do(s) executante(s) deixe também o público feliz.

Atualmente, a Empem passa por dificuldades. Acredita que a Escola de Música poderá voltar a ser o que era antes? Falando francamente, não creio, pois até o momento nada foi realizado, nesse particular, infelizmente. As Escolas de Música, do Estado, que mais se interessam, não contam com facilidades financeiras para “comprar” os prédios da EMP, mesmo que tudo o demais, incluso instrumentos de valor, a musicoteca, farão parte do todo mais, mas que sem manutenção, vão acabar estragando, o que será naturalmente, uma pena e um grande desperdício.

O senhor já recebeu diversas homenagens e ainda as recebem. Como é ouvir suas composições executadas ao vivo por músicos que o admiram? Fico feliz quando ouço dizer que minhas obras, executadas por Coro, Orquestras de Cordas ou Sinfônica, Solistas, também Duos, Trios, Pianistas, etc., deixam contentes os executantes, que em geral sugerem que eu escreva outras obras para eles. Fico emocionado quando ouço dizer que os intérpretes procuram se esmerar ao tocá-las ou cantá-las. Sinto-me, então, muito feliz.

Em sua opinião, qual é o maior desafio enfrentado pelos jovens compositores? E que conselho você daria aos compositores que estão começando suas carreiras? O maior desafio enfrentado pelos compositores contemporâneos é seguir seu próprio caminho, não digo para que de qualquer maneira queiram ser os mais originais de todos, mas sim para poder pensar que sua obra foi escrita e apresentada da melhor forma possível, a fim de que os intérpretes e também o público possam ficar felizes, ao ouvi-las.

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