ECONOMIA

Salário tem aumento real, mas poder de compra muda com prioridades, diz economista

Por Roberto Gardinalli | roberto.gardinalli@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 3 min
Roberto Gardinalli/JP
Aumento do salário mínimo foi acima da inflação
Aumento do salário mínimo foi acima da inflação

Em vigor desde o primeiro dia do ano, o novo salário mínimo brasileiro chegou ao valor de R$ 1.412, 6,97% maior que o salário de R$ 1.320, que vigorou de maio a dezembro de 2023. O aumento corresponde à inflação pelo INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor) acumulado nos últimos 12 meses terminados em novembro do ano passado. O total foi de 3,85%. Além disso, entrou no cálculo mais 3% do PIB (Produto Interno Bruto) de 2022.

O aumento do salário representou, no geral, um ganho real na renda do brasileiro que baseia as finanças nesse valor. Principalmente porque, segundo especialistas, o poder de compra também apresentou crescimento. “Como as metodologias para inflação buscam uma média mais representativa da variação de preços para a sociedade brasileira, ao considerarmos que a correção oferecida é maior que a inflação aferida no ano anterior, não há como negar o aumento do poder de compra”, explicou o economista Ricardo Buso. Segundo o especialista, porém, a percepção do poder de compra e da valorização do dinheiro varia de acordo com a necessidade de cada pessoa, o que, por vezes, pode gerar a sensação, também, da desvalorização, apesar do aumento no valor mínimo.

“Isso ocorre porque não existe uma inflação única, e todos os indicadores, como IPCA, que é a inflação oficial do país, INPC, entre outros, são uma linha condutora, espécie de média geral, para uma determinada cesta de consumo da metodologia, mas, na verdade, cada família, com os mais variados padrões de consumo, tem sua inflação particular”, explicou. A percepção da valorização, no entanto, segue pela forma como cada trabalhador vai destinar o pagamento mensal, de acordo com as necessidades de cada família. “Dentro do próprio INPC, enquanto o indicador geral para o ano todo de 2023 foi de 3,71%, o grupo da alimentação variou apenas 0,33%, isso por conta de alguns alimentos em deflação, como o leite. Então, famílias de renda muito baixa, cuja maior parte do orçamento doméstico se direciona a compra de alimentos, provavelmente sentiram uma inflação ainda menor que a divulgada, e a correção do salário mínimo fortalece acima da média seus poderes de compra”, explicou. “Do outro lado, famílias que têm mais gastos com a saúde, que sozinha variou 5,46% no ano, certamente sentiram uma inflação maior, e uma recomposição menor do poder compra”, completou.

ENTRAVES
O economista explicou, ainda, que apesar da política de valorização salarial permanente, o governo federal encontra dificuldades pelo caminho, como a elevação de custos trabalhistas aos empregadores e, também, nas despesas do próprio governo, especialmente com a Previdência Social. “Afeta diretamente a elevação dos gastos previdenciários e as contas públicas por consequência”, afirmou Buso.

Segundo o governo federal, o aumento dos gastos da União em 2024 por conta dos benefícios previdenciários, atrelados ao salário mínimo, será de R$ 35 bilhões. De acordo com a Lei de Diretrizes Orçamentárias, a cada R$ 1 a mais no salário, as despesas do governo aumentam em R$ 389 milhões.

O economista alerta, que a alta do salário mínimo precisa ser acompanhada pela produção do país para evitar que a inflação volte a retirar o poder de compra. “Outro desafio importante é o de que, de acordo com a teoria econômica, elevar a disponibilidade da renda sem o correspondente crescimento da produção tem um efeito muito indesejado, a alta da inflação, que toma poder de compra de maneira cruel”, finalizou.

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