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‘Eu me sinto bem com a natação; tenho necessidade de nadar’

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 9 min
Divulgação
Fagundes: 'Eu tive uma fase na vida que tive síndrome do pânico e a natação me ajudou muito'
Fagundes: 'Eu tive uma fase na vida que tive síndrome do pânico e a natação me ajudou muito'

O nadador piracicabano Luiz Antônio Fagundes, de 73 anos, há três décadas mantém da rotina de treinos e torneios no Brasil e fora dele. Para o veterano atleta, o esporte, mais que uma competição para ver quem “bate primeiro a mão na borda da piscina”, é uma terapia, um meio saudável de manter a saúde em dia e a boa qualidade de vida. Fagundes começou no esporte aos seis anos. Depois, com 12, foi acompanhar o pai (Virgilio Lopes Fagundes) jogar basquete no clube Regatas e, por lá, se desenvolveu em seu esporte preferido, a natação, principalmente nos 50 m livre e nos 50 m peito, suas provas preferidas.

Aos 13 anos, começou a competir pelo Clube de Campo de Piracicaba e só parou aos 19, quando foi estudar em São Paulo. Ficou parado por 23 anos e voltou com 43 anos, após ser convidado para um torneio em Ribeirão Preto. A partir daí, não parou mais. Foi a sete mundiais (Inglaterra, Rússia, Nova Zelândia, Canadá, Suécia, Alemanha e Itália) e conquistou seis medalhas de ouro. Além disso, tem recordes sul-americanos e pan-americanos, além das participações em diversas competições em nível nacional.

Porém, o ápice de sua carreira nas piscinas aconteceu no mês passado, quando conquistou um feito histórico ao bater o recorde mundial no revezamento 4x50 medley, na categoria 280+. A marca foi alcançada durante a última etapa do Circuito Paulista de Masters de Natação, evento realizado no clube Pinheiros, em São Paulo.

Ele, ao lado dos nadadores José Loro (74 anos/Guarujá), Flávio Kelner (65 anos/Rio de Janeiro) e Paulo Mota (75 anos/Campos do Jordão) fecharam a prova com o tempo de 2 minutos, 10 segundos e 51 centésimos, superando o recorde anterior por uma margem mínima (2 minutos, 10 segundos e 72 centésimos), pertencente aos Estados Unidos. A marca foi enviada à Fina (Federação Internacional de Natação), que deve ser homologada oficialmente nas próximas semanas. 

Casado com Marciara Fagundes e pai de Marcela Fagundes (40 anos) e de Rafael Fagundes (38 anos), Fagundes pegou gosto pelo recorde e já planeja, ao lado de seus colegas, tentar bater a própria marca, em abril do ano que vem. “Dá para ganhar uns 40 centésimos”, calcula. Com tanto amor ao esporte, o veterano atleta sabe que a natação transformou sua vida: “Eu sinto a necessidade de nadar. Me dá disposição, preparo físico. Sem contar a parte mental. Eu tive uma fase na vida que tive síndrome do pânico e a natação me ajudou muito, porque enquanto você faz exercício vai relaxando e oxigenando seu cérebro e tudo fica bem”. Veja a entrevista na íntegra abaixo.

Como começou essa paixão pelo esporte?

Na realidade, quando eu tinha uns 12 anos de idade, eu queria imitar meu pai, porque ele foi o cestinha dos dois primeiros Jogos Abertos; meu pai jogava muito bem e todo mundo falava dele por causa do basquete. E eu comecei a acompanhá-lo no Regatas aos finais de semana. Eu já nadava. Aí, um senhor conhecido por Dito Polenta, que nadava bem e jogava basquete, falou que ia inaugurar a piscina e teria uma competição. Ele me convidou para treinar. Isso foi em 1962. Depois, eu fui me desenvolvendo mais velocidade e, na competição, eu ganhei uma medalha de segundo lugar. Eu tenho até hoje. Isso me incentivou a continuar os treinos. Como era sócio do Clube de Campo, eu comecei a treinar lá e também a participar de campeonatos. E comecei a me dar bem. Tanto que eu fui o primeiro nadador do Clube de Campo a nadar abaixo do um minuto nos 100 livres – o recorde mundial era 53, 54 segundos. Eu fiz 59 e pouco. Então, fui bem.

A partir daí, tomou gosto pela natação…

Eu treinei até os 19 anos, quando eu fui estudar em São Paulo. Depois, eu voltei, tranquei a matrícula, fui para Londres, fiz Engenharia. Voltei, o Adilson (Maluf, ex-prefeito, em 1973) me convidou para ser secretário de Turismo e nunca mais participei de campeonatos, fui deixando, por que eu era secretário, tinha uma construtora, trabalhava bastante… E em 1993, um amigo me disse: ‘você não ganha os 50 metros de mim’. Eu estava com 43 anos. Haveria um campeonato em Ribeirão Preto e ele quis me inscrever. Eu aceitei e peguei segundo lugar. Depois, a turma do Fluminense me convidou para o campeonato que teria na Bahia. Me colocaram para nadar os 100 livre, mas eu estava bem treinado. Na prova, eu passei os 50 metros muito forte, eu me entusiasmei, fiquei num ‘bagaço’, mas ganhei os 100 livre. A turma do Rio falou que eu teria que nadar para eles. E comecei a treinar. Não parei mais. Faz 30 anos que estou nisso aí.

Mas também teve uma recomendação médica nessa volta, não?

Eu voltei por questão de saúde. O médico falou que eu teria de voltar a fazer exercícios porque eu estava meio estressado, tinha muita atividade, já fui secretário de Turismo, secretário de Transporte, entre 1982 e 1984… Então, comecei a atividade, fui bem e não parei mais. Já fui em vários sul-americanos; ganhei pan-americanos; ganhei medalhas em seis mundiais – sendo costa, crawl e peito… No ano retrasado, bati o recorde sul-americano na minha faixa de idade.

A sua especialidade é o nado livre?

Livre e peito, mas eu nado os quatro estilos. Tanto que eu ganhei no Mundial da Nova Zelândia nos 50 costas. Na verdade, eu me sinto bem com a natação. Eu sinto necessidade de nadar. Me dá disposição, preparo físico. Sem contar a parte mental. Eu tive uma fase na vida que tive síndrome do pânico e a natação me ajudou muito, porque enquanto você faz exercício vai relaxando e oxigenando seu cérebro e tudo fica bem.

O senhor foi a sete mundiais. Nos conte quais foram…

O primeiro foi em 1994, no Canadá; depois em 1996, na Inglaterra, onde eu peguei dois ouros no revezamento. Em 2000, na Alemanha, onde eu peguei nono lugar. Depois, na Suécia, quando eu peguei três quarto lugares. Em seguida, eu fui para a Itália, onde peguei terceiro lugar no revezamento, sétimo no peito e nono nos 50 livre. Depois da Itália, eu fui para a Rússia, em 2015. Aí eu fui com o objetivo de ganhar uma individual, porque eu só ganhava revezamento. Lá, eu via mentalmente meu nome no placar. E eu nadei os 100 livre para ‘quebrar o gelo’ e ganhei os 100 livre. Nadei os 50 livre e ganhei também e peguei o segundo lugar no peito.

Agora falando sobre seu recorde mundial, como foi esse planejamento?

Dois desses nadadores (costa e borboleta) já haviam batido esse recorde com outro grupo. E como eu sou muito amigo do José Loro, que nada costa, ele disse para mim. ‘Nós temos uma possibilidade de bater o recorde mundial no revezamento. Vamos treinar para isso. E junto vem um cara do Rio, que nada muito bem peito, e dá para a gente bater esse recorde pelos tempos que a gente faz. Até uns dias antes do campeonato, eu fui para um campeonato em Campinas para ver como estava os meus 50 livre, porque eu tinha sido operado em dezembro. E foi mal o meu tempo e eu pensei: ‘com esse tempo não dá para bater o recorde’. Eu treinei, fiz musculação e pensei: ‘tenho de conseguir’. E lá no dia da prova, a piscina do Pinheiros, a água é na borda. Eu fiquei com medo de bater o calcanhar em cima, na virada. Chegou na hora, escorreguei e por isso o tempo poderia melhorar ainda mais o tempo (de 2 minutos, 10 segundos e 51 centésimos).

Até por isso, vocês acham que podem bater o próprio recorde?

Esse grupo está querendo em abril tentar baixar o próprio recorde. Porque pelo fato de eu ter escorregado, dá para ganhar uns 40 centésimos. Um mora em Campos do Jordão, um mora do Rio e outro mora em Guarujá, comigo em Piracicaba. E cada um faz o seu treino. A gente já se conhece bem e na hora a gente se une. No revezamento, começa com um nadador de costa, depois peito, borboleta e crowl.

Vocês já receberam alguma notificação da Fina sobre o reconhecimento do recorde?

No processo tem os cronometristas, o pessoal da Associação Brasileira de Natação, que faz a oficialização do recorde. Isso foi para a Fina (Federação Internacional de Natação); toda a documentação foi para lá e ela é quem homologa o recorde. Deve chegar em um mês e meio.

E o futuro? Além do projeto para tentar bater o recorde, alguma outra competição para os próximos meses?

Era para ir ao Sul-Americano do Peru, mas como minha filha mora em Copenhague (capital da Dinamarca), era para eu ir para lá porque vai nascer uma neta minha. Mas também não deu certo por que eu tenho uma série de compromissos. Então, tenho de ficar por aqui mais ou menos até o dia 15 de dezembro. Por isso, acabei perdendo dois campeonatos: o Campeonato Nacional de Piscina de 50 m, em Uberlândia/MG. E o outro é o Sul-Americano. Se eu fosse nadar no Sul-Americano do Peru eu ganharia pelo meu tempo.

E Mundiais? Tem algum?

Tem o Mundial de Doha, no Catar, agora em fevereiro. Mas como eu tenho de ficar um pouco lá na minha filha, eu vou ficar sem tempo para ir. E a inscrição será em janeiro. Vamos ver. Pode ser que ainda dê. Agora, o meu objetivo é o mundial. Como eu vou mudar de faixa (75 a 80), vai ter um mundial na Ásia nesta faixa e eu vou. Por que funciona assim: quando chegar em janeiro eu vou estar com 74, mas já oficializado para 75 (por ser ano que completa essa idade). Aí, tenho chance se eu treinar forte para isso.

Para terminar, faça uma análise da equipe brasileira de natação que vai aos Jogos de Paris? Temos chances de uma boa campanha?

Tem uma moçada boa que vai para os Jogos de Paris. Mas tudo vai depender de apoio nesta fase final de treinamento, porque sem isso (dinheiro) não dá. Não é como jogador de futebol, que marca um gol e no dia seguinte está valendo milhões. É um esporte que tem de ter garra, tem de gostar. E nós temos grandes talentos, tanto mulheres como homens. Acho que teremos boas surpresas.   

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