Quem conhece o nadador e médico Rafael Guena de Camargo, 47 anos, fica encantado com sua disposição em ajudar às pessoas que estão na fila de espera por um transplante de órgãos. E muito desse entusiasmo se dá também pelo fato de que ele já sentiu na pele esse sofrimento, pois foi submetido a um transplante de medula óssea há 25 anos. Agora, cheio de saúde e vontade de trabalhar, é um propagador da causa e voltou a nadar justamente para dar mais visibilidade à sua campanha.
“Esse é o propósito: servir de inspiração para quem está em uma condição de saúde difícil. Eu fiquei praticamente um ano dentro de um hospital internado como paciente. E fiquei três anos sem poder entrar em uma piscina”, conta Guena, que ainda faz projetos sociais em sua área, a oftalmologia, em regiões carentes da cidade.
O nadador piracicabano teve uma carreira promissora na natação – foi campeão mundial júnior aos 17 anos, conquistou cinco vezes o campeonato brasileiro e foi 11 vezes campeão paulista da sua categoria, além de ter sido eleito, por dois anos, o melhor atleta da cidade.
Após o sucesso no esporte, ele partiu para a academia e, em 1998, aos 21 anos, entrou na faculdade de medicina da USP (Universidade de São Paulo), em Ribeirão Preto. Foi nessa época em que tudo mudou: parou com a natação e encarou o maior desafio da vida. “Eu tive uma anemia aplásica, uma doença que faz com que a medula pare de funcionar”, conta.
O fato de estar na faculdade de Medicina ajudou em todo o processo para o transplante – a irmã dele, Marcela Guena, foi a doadora. Depois, teve ainda de passar por uma longa fase de recuperação. “Isso, graças a Deus, para mim foi um alento. Eu me sinto um privilegiado por ter tido essa história e ter conseguido passar”, reconhece.
Sua experiência nos hospitais virou sua inspiração de vida e, assim, passou a ser um agente na campanha por doadores de órgãos, além de trabalhar para ajudar àqueles que estão na fila à espera de um doador.
Voltou à natação há dois anos, quando sua campanha ficou mais forte ainda. Agora, ele pode, por meio do esporte, ser exemplo para os pacientes e servir de incentivo aos futuros doadores. “Isso ajuda a tirar mais gente da fila de órgãos e vira uma corrente”, finaliza.
‘EMPURRÃOZINHO’
O retorno às piscinas do nadador e médico Rafael Guena de Camargo, após um hiato de 25 anos sem participar de competições, teve a participação direta da filha dele, a pequena Alice, atualmente com 11 anos.
“Ela nunca tinha me visto nadar. Só tinham falado para ela. Aí eu voltei para ela me ver e fui muito bem. Eu não estava treinando nada e acabei ganhando a competição e pensei: ‘ainda sem fazer isso’”, recorda.
“Eu não achava que iria voltar a nadar na intensidade que eu nado hoje. Então, isso serve de espelho para as pessoas que estão na dificuldade”, emendou.
De fato. Hoje, Rafael disputa diversos torneios e ganha com frequência de pessoas que não são transplantadas. Ele também leva esse fato como incentivo para os pacientes que estão à espera de um doador.
“Isso dá uma energia para elas. Essa é a mensagem que a gente passa: que vale a pena a luta durante esse período mais difícil para depois ter a sua vida de volta”, diz.
“São 60 mil pessoas (na fila). Então, essa pessoa que está à espera me vê tendo uma carreira na natação e batendo recorde... Para ver que a vida volta ao normal”.
Recentemente, o médico-atleta participou do Campeonato Sul-Americano Masters de Piscina Curta, em Lima, no Peru, e trouxe cinco medalhas e o recorde nos 50 peito. “É uma sensação de falar de que tudo é possível, de que tudo vale a pena. É um reencontro comigo mesmo, de ter batido um recorde que estava aí desde 2018”.
Agora, Rafael se prepara para nadar o paulista, que é última competição do ano. Para o ano que vem, os desafios são o mundial de natação, em Doha, no Catar, o Campeonato brasileiro e o Pan-Americano.
LIGA
Outra paixão do nadador piracicabano é a Liga de Transplantados, entidade da qual participa há pouco tempo. “Ela me deu um propósito de nadar para fomentar o assunto sobre a doação de órgãos. Para incentivar a doação e para ver o quanto a minha vida mudou. Para saber que eu não voltaria a nadar e nem estaria aqui se não fosse uma doação”, discursa.
“É uma mensagem através do esporte. É fazer o bem simplesmente pelo bem. Tem transplantados de fígado, tem transplantados renais, tem pessoas com dificuldades, mas todos se apoiam e se inspiram para levar essa mensagem”, finaliza.
O nadador com a filha Alice em uma das conquistas recentes
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