ARTIGO

Sanfona, Viola e Canção

Por Juliana Previtalli |
| Tempo de leitura: 4 min

“Saudades da Minha Terra” sai de um dedilhado, cuidadoso, da viola caipira; “As Andorinhas” passeia nas 12 cordas do violão; as “Nuvens de Lágrimas” dança ao som do acordeão e a primeira e a segunda vozes constroem a “Casinha Branca” — todas melodias que representam o melhor do estilo sertanejo raiz. Todos os domingos, das 7 às 9 horas, quem sintoniza a FM 105,9 — a Rádio Educativa — acompanha o Programa Encontro Sertanejo com a dupla Claudemir e Moisés.

O gosto pela música veio de forma natural, no convívio familiar, assim como o hábito de fumar. Claudemir cresceu na cidade, na “Rua da Cavalinho”, na Vila Rezende, em Piracicaba. Estudou na E.E. Abigail Azevedo Grillo e fez o técnico em processamento de dados no CTU — Colégio Técnico Universitário. Aos 12 anos começou a trabalhar como auxiliar de merchandising — os conhecidos repositores nos supermercados —, na empresa Orniex, dos detergentes ODD. Ele e os colegas percorriam a cidade inteira a pé e abasteciam as diversas unidades do “Brasil”; do “Guerra”, no Centro; do “Aliberte” na Vila até do “Scarpari”, na avenida Raposo Tavares. Entre um destino e outro, aprendeu a fumar.

De tanto ouvir o pai, João Jesus, sanfoneiro, entoar as mais lindas canções, logo fez dupla com o irmão Paulo Rogério e, por 10 anos, integraram grupos jovens para tocar nas missas e nas festas. Via o pai dedilhar o acordeão enquanto fumava cigarros.                            

Nos anos 1990, conheceu o Brasil inteiro quando se empregou na Anacol, fabricante do creme dental Kolynos. A letra da música “De São Paulo a Belém”, de Rio Negro e Solimões, descreve, com perfeição, as suas idas e vindas. Viajou por inúmeros estados e cidades como Americana, Limeira e Araras, passando por Ribeirão, Franca e Barretos. Em Minas Gerais, passou por Uberaba e Uberlândia. Seguiu caminho até as Caldas Novas em Goiás e, quando a saudade, como um prego, feria e martelava o coração, voltava, muitas vezes depois de mais de 80 dias longe de casa. O roteiro das vendas incluía até os longínquos Rondônia e Acre. Foi lá, na distante Porto Velho, que conheceu o cantor, por coincidência também piracicabano, Moisés. Este, na época, trabalhava na Aços Gerdau e, juntos, passaram a se reunir para tocar nos churrascos dos clientes. Assim, surgiu a dupla “Claudemir e Moisés”.

Gostava de jogar futebol, mas, certa vez, em 2005, lesionou o joelho e precisou operar o ligamento cruzado anterior. Assustara o cirurgião quando confessou fumar 40 cigarros por dia. O médico recomendou que suspendesse o mau hábito até a véspera da operação. Acendeu 2 cigarros e os fumou, antes da meia-noite. Quando voltou a casa, a esposa, Ana Maria, havia escondido os maços. Desde então, vencera o vício. Todavia a conta dos 30 anos de tabagismo chegaria bem mais tarde, em 2019.

O domingo amanhecera ensolarado, bom para uma caminhada. Findas a reza e a cantoria na missa sertaneja na Igreja São Francisco, na Vila Rezende, Ana Maria assustara-se com a palidez e a dificuldade de respirar do esposo. Rumaram à Santa Casa. Lembrara-se de tossir e de elevar os braços — conselho popular diante da suspeita de um ataque cardíaco. Subira, sozinho, o elevador até o EMCOR e, realizado o eletrocardiograma, o diagnóstico se confirmara: Infarto Agudo do Miocárdio, cujo melhor tratamento consiste na realização de cateterismo e de angioplastia para desobstruir a coronária ocluída. Durante o procedimento, sofreu parada cardíaca e recebeu 4 choques, mas, com a destreza do Dr. Humberto Passos no implante dos “stents”, sobreviveu. Aproveitou, para refletir, os dias internado na UCO (Unidade Coronariana), durante as visitas diárias, com orações junto a todos os pacientes, os médicos e a equipe. Sentiu muito medo e temeu por sua vida, a cada disparo dos alarmes nos monitores. A doença o fez mudar os hábitos de vida. Procurou melhorar a alimentação, praticar mais atividades físicas e valorizar os bons momentos com a família e os amigos.

Segundo dados do Ministério da Saúde, o tabagismo mata 5 milhões de pessoas anualmente no mundo. No Brasil, 200 mil perdem a vida vitimadas pelas mais de 50 doenças causadas pelo consumo de cigarros. No topo da lista, encontra-se o infarto do miocárdio que, não por acaso, é a maior causa de mortes no país — estima-se que ocorram 400 mil casos anuais e que, a cada 5 a 7 deles, uma pessoa morra. Nesse cenário, os tabagistas saem em desvantagem: o risco é 3 vezes maior. Mas a cessação do tabagismo o reduz substancialmente. Uma boa notícia: após um ano sem fumar, ele cai pela metade.

Claudemir trabalha, ainda, no segmento de vendas; hoje, ao lado da esposa, comanda a empresa NutriMais, mas vive imerso na cultura sertaneja, alegre e descontraída dos festejos, e na fé e na religiosidade, revestidas de cores e de sons das “Missas Caipiras”.

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