Carla Stein Sturion, de 36 anos, desde criança aprendeu a amar a natação. Incentivada por sua família, começou cedo no esporte, com apenas 5 anos, em sua cidade natal, a vizinha Limeira. Com o tempo, foi se aperfeiçoando na modalidade e, com os ótimos resultados, se profissionalizou e trabalhou por 10 anos atrás de quebra de recordes e medalhas. Entre uma “braçada e outra”, fez faculdade de Matemática – outra paixão que carrega e atua até os dias atuais.
Filha do ex-jogador Nelson Sturion, o Nelsinho (já falecido), e da ex-jogadora de basquete Cleide Sturion, 67 anos, e irmã de Fabio Sturion, de 43, seus grandes incentivadores, Carla é casada com o também nadador Marcos Fraccaro, com quem divide as aventuras pelas piscinas do mundo. Eles também são coordenadores da MF Assessoria, empresa que presta assessoria para atletas de natação.
O ponto alto de sua carreira foi conquistado recentemente, durante o Campeonato Mundial Máster, realizado em Fukuoka, no Japão. Ela fez uma brilhante participação ao conquistar cinco medalhas: ouro no revezamento 4x50m; prata no revezamento 4x50 medley feminino e no 4x50 misto; além de bronze no 50m livre e no 4x50 livre misto.
Nesta entrevista ao Persona, Carla – hoje radicada em Piracicaba - também falou ainda da sua expectativa para a natação nos Jogos Olímpicos de Paris, no ano que vem, quando a Seleção Brasileira terá um grupo totalmente renovado (e forte) no feminino. Ela acredita em algumas finais, o que já seria um prêmio, pois o nível internacional não permite ainda, segundo ela, sonhar com um pódio. Veja abaixo os principais trechos da entrevista:
Como começou a sua paixão pela natação? Eu sou filha de dois atletas. Meu pai era jogador do futebol profissional, foi jogador do XV. Minha mãe foi jogadora amadora de basquete. E eu tenho um irmão sete anos mais velho do que eu. Ele já praticava natação e meus pais sempre acompanhavam. Ele começou a nadar muito cedo e começou nas competições com 8, 9 anos e eu já tinha 2, 3 anos e ia no embalo, junto. E aí minha mãe me colocou para nadar com cinco anos, por questão de segurança e por já ter o meu irmão praticando. Então, eu comecei na natação com 5 para 6 anos e nunca mais parei. Há 30 anos que eu faço natação.
Aí teve uma época que você começou a competir também... Isso. Eu comecei com aprendizado na prefeitura, lá em Limeira. E com sete anos, um ano antes da categoria pré-mirim, quando as crianças começam a competir, eu já comecei a competir também. Aí nunca mais parei. Comecei a participar dos torneios municipais, regionais... Com oito para nove anos eu já treinava todos os dias; já ia na natação todos os dias. Não era somente a prática duas vezes por semana igual às crianças fazem hoje. Com oito anos eu já praticava natação seis dias na semana. Muito por conta do meu irmão. Ele ia e minha mãe me colocava no mesmo lugar que ele fazia natação.
E vocês vieram para Piracicaba quando? Eu vim para cá pela primeira vez em 2005, quando vim fazer faculdade de Matemática. Fiquei dois anos aqui em Piracicaba – 2005 e 2006. Depois, voltei para Limeira por que não deu certo continuar nadando aqui, por que eu vim para estudar e paralelo nadar. O nadador sempre tem a ajuda de custo, a bolsa na faculdade... Mas aí não deu certo de continuar nadando aqui e voltei para Limeira, depois fui para Indaiatuba, fiquei seis anos em Indaiatuba e em 2014 eu voltei para cá a convite do meu ex-técnico. E fiquei e estou aqui até agora.
Você foi nadadora profissional por 10 anos? Conta como foi essa experiência? Fui nadadora profissional de 2007 a 2017. A gente fala assim, mas no Brasil a natação não é considerada um esporte profissional. É considerada um esporte amador. O que caracteriza a gente ser um nadador profissional é quando a gente tem um salário para isso. Então, por 10 anos eu tive o esporte como o meu sustento.
Quais os clubes que você defendeu? Eu nadei em Indaiatuba, um ano por São Roque e depois eu vim para Piracicaba. Isso nessa fase profissional. Mas eu tive passagem pelo Corinthians, em São Paulo, os clubes de Limeira, o Nosso Clube, o Gran São João.
E nessa fase profissional você chegou a nadar em Piracicaba por qual clube? Nos últimos quatro anos sim, pelo Clube de Campo, em paralelo com a prefeitura. A gente tinha o salário pela prefeitura, só que a gente precisava ser federado por algum clube. Então, o Cube de Campo era por quem eu competia.
Quais as principais conquistas em sua carreira? Enquanto nadadora profissional, eu tive participação em campeonatos brasileiros absolutos que a gente chama; que é o campeonato principal. Fui finalista nestes campeonatos. Tive participação em Copa do Mundo, defendendo a Seleção Brasileira, em 2010, no Rio de Janeiro. E ainda como profissional, mais em campeonatos másters fui para campeonato sul-americano, recordista sul-americana, campeã brasileira, paulista e sul-americana.
Qual que é a sua prova preferida na natação? Eu sou velocista, então eu nado provas curtas, rápidas. 100 m é a mais longa que eu nado. Hoje, as minhas especialidades são o 50 m e 100 m livre. Mas eu nado os 50 m borboleta e 50 m costas também.
E essa experiência no Campeonato Mundial no Japão? Como foi? Olha, o Mundial foi uma experiência única, ímpar. Foi realmente a realização de um sonho poder participar de um campeonato mundial máster, não mais profissional. Na natação, a gente tem do 20 aos 24 que é o pré-máster, e em campeonatos sul-americanos e mundiais a partir dos 25. E as categorias são divididas de cinco em cinco anos. Mas foi uma experiência muito legal; poder vivenciar toda essa estrutura da “World Aquatics” (Federação Internacional de Natação) que os nadadores profissionais.
Vocês ficaram na competição quanto tempo? Ficamos (ela e o marido, Marcos Fraccaro, também nadador) lá por 20 dias. O Mundial Máster, diferente do profissional, ele aconteceu em duas piscinas simultâneas lá em Fukuoka para otimizar o tempo e tudo mais. Tem a piscina de competição e a piscina de apoio para aquecer.
Foram cinco medalhas no Mundial? Foram cinco medalhas. Uma medalha de prova individual, que foi o bronze nos 50 livre. E quatro medalhas nos revezamentos: fui campeã mundial com as meninas (Carol Morelli, Jovana Nakagaki e Mariana Nakagaki) no 4x50 m livre; vice-campeã mundial no 4x50 medley feminino e no 4x50 medley misto; e bronze no 4x50 livre misto.
A grande surpresa foi a medalha no individual, por que o revezamento já era competitivo, não? Foi isso mesmo. O revezamento a gente já vem nadando há um tempo, nos campeonatos paulistas, brasileiros. Somos cada uma de um lugar, mas somos amigas e toda competição a gente nada junto e tem esse entrosamento. Por isso, a gente já estava ranqueada bem mundialmente. Agora, as provas individuais, o melhor ranqueamento que eu tinha era o sexto lugar. Então, eu fiquei com o bronze no 50 livre, com o quarto nos 100 m livre e nos 50 m costas e oitavo lugar no 50 m borboleta que eu estava ranqueada em décimo.
E o futuro? Como está a agenda para as próximas competições? O Mundial acontece de dois em dois anos. Vai ter um agora, em 2024, em Doha (Catar), mas é em decorrência da pandemia. Esse a gente não vai, é muito encima até para preparação; não somente física como financeira; é uma competição extremamente cara, não somente por conta de viagem, mas inscrições, estrutura, porque a gente não tem auxilio nenhum. O próximo será daqui a dois anos (2025), em Cingapura. É um ano gastando e outro cobrindo o rombo. Mas é o esporte que a gente gosta de fazer. Tem também o Sul-Americano, em Lima (Peru), que ainda não sabemos se iremos ou não.
Além de tudo isso, você ainda é professora de natação. Como conciliar tudo isso? Sou professora de natação e a gente tem a MF Assessoria Aquática, que ministra as aulas em grupos de treinamentos, aulas personalizadas, através de planilha e ainda sou professora particular de matemática. Fui professora em escola por 15 anos; parei em 2021, mas ainda sigo com aulas particulares.
E como é o perfil dos nadadores que você presta assessoria. São nadadores que competem ou que apenas estão em busca de manter a saúde? A gente trabalha com todos os perfis. A maioria deles ainda compete, tanto em águas abertas e também temos muito triatletas, que fazem “iron man” e tem alguns atletas que só querem manter a condição física, o bem-estar. Mas 80% dos nossos atletas ou fazem maratona aquática ou triátlon ou competem na piscina também. (além dela e do esposo Marcos Fraccaro, também atua na empresa o professor Santiago Búfalo).
Para terminar, a olimpíada vem aí e como você vê o nível do Brasil? Eu vejo uma evolução muito grande na natação feminina, coisa que o Brasil não tem muita tradição. Tanto que as únicas medalhas na natação feminina são em águas abertas, com a Poliana Okimoto e da Ana Marcela. Mas eu vejo as meninas evoluindo muito, acredito em muitas finais femininas – acredito que até mais que os homens. As meninas estão vindo muito vem, principalmente as fundistas. É uma nova geração. Da nossa geração, acima dos 30, são poucos que estarão na olimpíada nadando.
Podemos sonhar com medalhas em Paris? O Brasil tem muito a evoluir na questão de investimento. A gente se pergunta por que os EUA andam e o Brasil não anda; a Austrália anda e o Brasil não anda? Porque são grandes quanto o Brasil e rico quanto o Brasil. Está no olhar de quem está lá encima olhando. No Brasil, o esporte e a educação não caminham juntos, coisa que acontece nesses outros países. Eu acho difícil uma medalha (na Olimpíada). Espero estar enganada. O Cachorrão (Guilherme Costa) é um cara que pode chegar bem próximo de uma medalha. O Fernando Sheffer, que foi medalhista na última olimpíada nos 200 m livre, também. Mas ao meu ver, somente essas duas possibilidades.