EDUCAÇÃO

Acesso à educação e informação são essenciais para a qualidade para pessoas com autismo

Por Roberto Gardinalli | roberto.gardinalli@jpjornal.com.br
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Um dos principais focos do instituto está no fomento à educação inclusiva
Um dos principais focos do instituto está no fomento à educação inclusiva

Mesmo sendo um tema que, com o passar dos anos, se tornou mais presente na rotina do brasileiro, a luta pela inclusão das pessoas com TEA (Transtorno do Espectro Autista) em atividades corriqueiras ainda tem um longo caminho a ser percorrido. Há seis anos, uma instituição foi fundada pela psicopedagoga Eliana Saliba para lutar pela inclusão e pela informação sobre o autismo.

Fundado em 2017, o IAP (Instituto Autista de Piracicaba) veio da necessidade de Eliana em compreender as necessidades do filho, que foi diagnosticado com TEA aos 10 anos de idade, após a família perceber algumas características, como a dificuldade em manter contato visual, não suportar barulhos altos e não brincar com brinquedos de maneira funcional. “Em 2017, tinham pouquíssimos profissionais especializados”, contou Eliane. “Eu não conseguia profissionais para atender o meu filho. O IAP foi de grande contribuição principalmente porque tem muitas terapias e programas oferecidos para crianças”, comentou.

Além das dificuldades com as crianças, Eliana percebeu que a inclusão de adolescentes na sociedade também era complicada. “Não tem espaço para eles. Eles se tornam invisíveis na sociedade. O IAP veio nesse sentido, de atender crianças, com especialidade em um modelo diferente, que é na linha desenvolvimentista, e abarcou esse público de adolescentes e jovens”, completou.

O Instituto, hoje, oferece atendimento terapêutico especializado com profissionais de educação física, fisioterapeutas, psicólogos, psicopedagogia, entre outros. “A gente leva a bandeira para a inclusão do autista na sociedade, na escola, no trabalho e, também, na capacitação profissional. Nós sempre trazemos profissionais renomados para palestras, workshops e cursos”, comentou.

EDUCAÇÃO
Um dos principais focos do IAP está no fomento à educação inclusiva. Guilherme de Almeida, mestre e doutorando em Educação sob a perspectiva da Educação Inclusiva, foi diagnosticado com TEA aos 37 anos, depois de concluir a graduação em Direito. Em visita ao IAP, onde deu uma palestra sobre o diagnóstico tardio, falou sobre as dificuldades que teve. “A graduação em si foi muito traumática. Eu prometi para mim mesmo que nunca mais pisaria numa universidade”, disse. Enquanto trabalhava na Secretaria de Educação de Jundiaí, ele foi convidado a assistir uma aula de pós-doutorado na Unicamp. “Na primeira aula, eu entendi que existiam outras formas de educar. Comecei a frequentar como aluno ouvinte até que propus um projeto de mestrado em Educação e Direitos Humanos”, comentou o especialista, que também é o único pesquisador brasileiro sobre educação na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. “A educação é muito além da questão técnica e curricular. A educação diz respeito aos processos de humanização”, afirmou.

Almeida cita que um dos problemas na educação no Brasil é o olhar para a deficiência, e não nas potencialidades da pessoa. “Em vez de focar no que não consegue, deve-se focar no que se consegue”, disse. “Eu posso dirigir essa energia para outras coisas que façam muito mais sentido”, disse. “Uma coisa que atrapalha muito é o capacitismo, que é a ideia de que as pessoas com deficiência são inferiores. Esse é um grande preconceito”, afirmou, também, Eliana.

A diretora do IAP diz que, mesmo com as dificuldades, enxerga que a sociedade vem tendo um progresso. “O autismo está sendo muito falado e comentado. Os autistas estão se colocando nas redes sociais para levar o conhecimento”, comentou. “Eu acho que há mais aceitação do neurodiverso. Mas, ainda temos muito chão pela frente”, finalizou.

Diagnóstico pode ajudar pessoas com estratégias
Movimento importante na vida de uma pessoa autista, o diagnóstico, por vezes, acaba não acontecendo nos momentos iniciais da vida, algo que gera questionamentos e, às vezes, revolta. Guilherme de Almeida, bacharel em Direito, mestre e doutorando em Educação sob a perspectiva da Educação Inclusiva pela Unicamp, recebeu o diagnóstico tardiamente, aos 37 anos.

QUALIDADE DE VIDA
Guilherme conta que, no caso dele, passou a traçar estratégias para se proporcionar uma melhor qualidade de vida. “Um traço muito presente é a hipersensibilidade. Por exemplo, eu preciso ir ao mercado fazer compras. O barulho do carrinho do mercado, a música, o falatório, o cheiro, vira um turbilhão de emoções e isso faz mal”, disse. “A partir do momento que entendi que estou suscetível e que esse tipo de coisa, desenvolvi estratégias. Por exemplo, eu vou ao supermercado mais no final da noite, ou uso um protetor auricular para ter menos barulho”, disse.

Mas, Almeida reforça que apesar considerar positivo o diagnóstico para a pessoa poder se compreender, ainda há o preconceito. “A questão social ainda tem que trabalhar muito para que seja normalizado. Assim como não basta ser contra o racismo, tem que ser antirracista, não basta ser contra o capacitismo, tem que ser anti capacitista”, completou.“Se fala muito que o autista gosta de se isolar, de ser sozinho. Ninguém gosta de ser sozinho. A gente pode ter uma necessidade maior de momentos de mais quietude. A solidão não é uma coisa que alguém almeja. A necessidade afetiva de troca existe para todo ser humano”, finalizou.

Para ele, ter o resultado em mãos foi um passo relevante na vida pessoal. “Foi um movimento muito importante. Mas, mesmo assim, depois de um tempo e mesmo tudo passando a fazer sentido, a gente começa a se sentir uma fraude”, disse. “Eu fui buscar uma segunda opinião, refiz a avaliação com outro profissional, para confirmar”, comentou. “A partir do momento em que você tem a desconfiança, é importantíssimo que a pessoa passe por um profissional de absoluta confiança, que sinta tranquilidade e que entenda que ele é capacitado e experiente para aquilo”, disse.

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