Mestre em karatê, faixa preta na modalidade desde os 15 anos, gestor esportivo e coordenador-técnico da Seleção Brasileira, o piracicabano Diego Spigolon é um vencedor no esporte que herdou de seu pai, Otávio José Spigolon. Filho de dona Antonia Maria Gomes Spigolon e casado com a ex-atleta da Seleção Brasileira e atual técnica, Natalia Brozulatto, ele tem dois filhos (Nicolas, 7 anos, e Betina, 5) e centenas de pupilos, nos quais ensina diariamente essa tão famosa e importante arte marcial.
Formado em Educação Física, com especializações em Fisiologia do Exercício; em Atividade Física Adaptada e Saúde; e em Treinamento Desportivo, além de mestrado na mesma área, ele fez estágios na Europa e defendeu Piracicaba, o Estado e a Seleção Brasileira, com muitas conquistas. Entre elas, estão os Jogos Abertos, Jogos Regionais e Campeonatos Paulistas.
Parou de competir aos 28 anos, época em que iniciou a trabalhar como professor e gestor. Atualmente, ele está à disposição de nossa cidade e de nosso país, “garimpando” novos talentos para o esporte, e, acima de tudo, segue na busca da formação de futuros cidadãos.
Nesta entrevista ao Persona, Diego Spigolon fala como começou, suas inspirações, suas batalhas para vencer no esporte e o trabalho como dirigente, no comando do karatê brasileiro e também a gestão de projetos na cidade. Além disso, o ex-atleta é empresário e mantém em funcionamento a Academia Sport Way, no bairro 1º de Maio, onde dá aulas e onde acontece boa parte de seus projetos. Veja abaixo, os principais trechos da entrevista.
A sua história no karatê começa por conta de seu pai. Como foi isso?
O meu pai foi um dos precursores do karatê em Piracicaba, juntamente com Miguel Carvalho, professor Mantelato, que hoje está no Cristóvão; professor Julinho; professor Vlamir... Foi a primeira geração do karatê piracicabano. Ele começou o karatê aqui em 1968, com um antigo professor que teve uma passagem aqui por Piracicaba. Ele treinou por um período e depois esse professor foi embora. Então, desde que eu me entendo por gente eu estou no meio do tatame, competições, campeonatos por conta do meu pai. Aí, eu comecei a treinar com cinco anos de idade.
Ou seja, você herdou o DNA dele e agora comanda o karatê na cidade...
O meu pai deu aula durante muitos anos no antigo Clube de Regatas Palmeiras, que ficava ali no Bairro Alto. E foi onde eu comecei, inclusive. Quando eu comecei a minha faculdade, em 2001, em Educação Física, foi um momento em que a gente estava em uma transição, tirando o karatê de dentro do clube Palmeiras e iniciando aqui uma nova história do karatê aqui na nova sede, na Sport Way. Claro que em uma estrutura um pouco melhor na época. E nesse processo de migrar para cá, houve toda uma reformulação e alguns alunos, principalmente os mais antigos que são muito fieis a meu pai e a minha família, como o professor Evanildo de Souza Lima, que é um grande parceiro, ficaram junto com a gente. Dentro dessa reformulação, o meu pai foi aos poucos ‘tirando o pé’ e deixando para eu assumir. Claro que meu pai ainda é responsável pelos exames de graduação; faço questão de mantê-lo nessa condição.
Você competiu como atleta, mas foi como técnico que sua carreira decolou, não?
Logo que eu entrei na faculdade, já estava dando aula de karatê, nesse processo de assumir de forma titular do karatê. E nesse processo, eu tinha as minhas aulas, mas eu já via a importância de ter um trabalho para aqueles atletas ou aspirantes a atletas que estavam querendo se dedicar mais à questão competitiva. Desde então, eu sempre tive esse momento com esses atletas, pensando no alto rendimento. Eu competia ainda. Os Jogos Abertos de 2012 foram a minha última competição como atleta, em um momento que esses alunos passaram a gerar bons frutos, em nível estadual, em nível nacional. Atletas, inclusive, de fora de cidade, se mudaram para Piracicaba. Eu tive atleta até de Goiânia. Atletas de Campinas que vinham para cá durante anos. Por isso, foi em 2012 que eu resolvi finalizar a minha carreira de atleta para me dedicar para ser o melhor técnico.
Com todo esse destaque na preparação de atletas, você chega à Seleção Brasileira...
Em 2014, que eu tive o primeiro convite da Confederação Brasileira de Karatê por conta desse ‘barulho’ todo... Os atletas vinham e tinham bons resultados. Eu também estava viajando para fora do país e foi que a Confederação me chamou; o diretor técnico, professor Willian Cardoso, que hoje é um grande parceiro, um grande amigo; um dos mais competentes do karatê brasileiro. Ele me chamou durante uma seletiva nacional em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Foi quando ele me fez o convite para ingressar na comissão técnica da Seleção Brasileira de Karatê. No primeiro campeonato que aconteceu naquele ano de 2014, o Pan Adulto, eu já fui chamado para compor a comissão técnica nesse evento. Foi no Peru, em Lima. Aí que eu debutei como um dos técnicos da seleção.
Depois disso, só houve crescimento e hoje você é coordenador da Seleção Brasileira?
Em 2017, eu tive um novo convite, desta vez para assumir como coordenador-técnico da Seleção Brasileira Feminina Adulta. Tivemos os Jogos Mundiais com atletas medalhista, em 2017, na Polônia, com uma das melhores apresentações do karatê. Medalha de ouro com a Valéria Kumizaki; medalha de bronze com a Isabela Santos e outro bronze com o Hernani Veríssimo. Então, foi um trabalho muito bem feito. Isso alavancou e os resultados começaram a vir. Em 2020, eu tive o convite para estar à frente da Seleção Brasileira Adulta no masculino e feminino. Então, hoje eu agrego na coordenação da seleção adulta principal como um todo.
Como você vê o nível do karatê brasileiro atualmente em relação às maiores potências?
O karatê brasileiro vence há anos o Campeonato Sul-Americano no geral. O Brasil é hoje a maior potência do continente sul-americano em relação aos resultados apresentados. Falando sobre o continente pan-americano, a gente tem uma diferença quando a gente fala sobre base e a seleção sênior. Porque o Sul-Americano engloba todas as categorias. Então, a gente tem: a sub-12, sub-14 e assim por diante. No Pan, é dividido o Pan-Americano da base, que é a partir da categoria sub-14. Já o Pan-Americano adulto acontece em momento separado. Nós temos no Pan-Americano adulto, de uns anos para cá, uma divisão dos resultados entre o Brasil, os EUA, que é muito forte no kata; eles já saem na frente por conta disso. No kumitê, a gente chega mais forte que eles. Mas, tem a Venezuela, que no adulto tem atletas que, hoje, nem vivem na Venezuela, que são muito bons. E nesse ano, o Chile, em específico, que será o país-sede dos Jogos Pan-Americanos, está investindo bastante. Então, no adulto, há um equilíbrio muito grande entre Chile, Brasil, EUA e Venezuela. Na esfera mundial, o sarrafo aumenta muito. A gente tem hoje, uma divisão muito grande de medalhas: Turquia, Irã, Japão, Itália, França, Kazaquistão, Azerbaijão...
O karatê, infelizmente, saiu do programa olímpico. É uma pena para o Brasil, não?
Infelizmente, nos Jogos Olímpicos de Paris, o karatê saiu fora. Só teve uma vez (Jogos de Tóquio-2020, que foi realizado em 2021, devido à pandemia). O ‘breakdance’ entrou e karatê saiu. Agora, está tendo umas tratativas muito fortes para que tenha o karatê em Los Angeles, em 2028. Está tendo um looby muito forte, mas isso ainda não é certo. A gente torce para que isso dê certo.
Voltando à nossa realidade, gostaríamos que você falasse dos projetos que o karatê tem na cidade...
Eu costumo dizer que, para que a gente tenha atletas chegando no alto rendimento de forma positiva, é importante que a gente tenha uma base com qualidade e também em quantidade. Não à toa, o Brasil, o país do futebol, tudo que é bairro tem um campinho de futebol e até pela quantidade a gente encontra talentos. Mas a gente gosta do alto rendimento e a gente entende que ter alunos no alto rendimento também faz com que gere uma visibilidade para outros jovens. Hoje, nós já temos um garoto, Nicolas Verrenge, que começou no projeto e esse ano foi campeão paulista e campeão brasileiro. Além disso, temos atletas que estão no nosso trabalho de alto rendimento. Temos atletas, como a Barbara Borges, que já chegaram à Seleção Brasileira. Vinicius Tamura, que também está na seleção. Então, a base está sendo muito bem-feita. A gente está com o karatê no Santa Rosa; temos no Jardim Primavera; temos aqui em nossas aulas e também o karatê de alto rendimento.
Quantas crianças são assistidas por vocês hoje?
Hoje, nós temos cerca de umas 300 crianças ao todo, contando todos os projetos que a gente faz. Esse projeto só é uma realidade pela parceria que temos com a Selam (Secretaria de Esportes, Lazer e Atividades Motoras). Isso proporciona profissionais da mais alta qualidade, como o Hernani (Veríssimo), Natália (Brozulatto), que tiveram dentro a Seleção Brasileira de Karatê por muitos anos, formados em educação física e com uma vivência esportiva de ter treinado em várias partes do mundo, com grandes títulos. Tem gente que vem de fora do Estado para treinar com a gente. E essa garotada tem tudo isso de ‘mão beijada’, vamos dizer assim. Então, eles têm tudo para trilhar um caminho muito bonito no karatê. E a gente espera ampliar e fazer alguns trabalhos de lei de incentivo ao esporte para aumentar o nosso atendimento.
Você já se aventurou em uma outra arte marcial ou só ficou no karatê mesmo?
Em 2012, mais ou menos, em um momento em que estava no final da minha carreira no karatê, eu comecei a treinar outras modalidades. Eu treinei jiu-jitsu durante muito tempo; o meu mestre era o professor Felipe Vidal, aqui de Piracicaba. Cheguei à faixa roxa de jiu-jitsu; treinei boxe com professor Marquinhos. Eu tive essas experiências. Tive algumas lutas de MMA lá atrás também. Eu tenho essas experiências, mas hoje o meu foco é 100% karatê.
E para finalizar, qual o recado que você daria para as pessoas a respeito desse esporte tão importante que é o karatê?
A arte marcial, quando bem orientada, quando bem assistida por um bom profissional, ela pode ser uma ferramenta muito bacana sob diversos pontos de vista. Às vezes, está um pouquinho mais velho e acha que não dá. Não está não, participe. A arte marcial pode trazer grandes benefícios para a saúde, para a mente. É algo sensacional com relação a isso. E para as crianças, auxilia na formação da cidadania, do caráter. Então, os pais devem incentivar os filhos. Nada na vida é impossível quando a gente se dedica ao esporte.
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Comentários
1 Comentários
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Ivonilda Neves Ezquerro Spigolon 13/08/2023Diego, parabéns pelo trabalho! Como é bonito a gente ver alguém tendo belas conquistas, sabendo que é fruto de seu esforço no dia a dia, de seu trabalho, do respeito e caráter que se tem. Grandes conquistas para você !