ARTIGO

Renova-se a esperança

Por David Chagas | 04/07/2023 | Tempo de leitura: 4 min

Ao entardecer me envolvo, emocionado, da beleza do céu na variação de tons que coram a Terra. Traz-me, por algum motivo, nostalgia e saudade. Não pergunte de quê. Antes que o sentir exceda, escrevo. A alma pede, o coração atende, o espírito dita.

Nunca soube a razão de juntar-se em mim, emoção tanta, com alguma tristeza, não nego. Hoje, motivos meus, mais e maiores. Bastante para despertar melancolia. Concordo com Caetano Veloso quando afirma: “fim da tarde, a terra cora e a gente chora, porque finda a tarde”.

Tenho estado, nos últimos tempos, em busca da esperança e rogo para um bendito qualquer me visitar. Bastaria sua presença e reviveria o conto de Clarice Lispector, em conversa com o filho, obrigando-me a sentir, com igual alegria, as muitas histórias de meus meninos, pequenos, tatibitateando, contando histórias só deles. Se de noite, chamando pela lua ou procurando luciérnagas nas árvores ao redor da casa. Ao amanhecer, espantando a passarada que visitava o jardim ou pedindo a borboletas que se acomodassem em seus ombros pueris.

Para quem não sabe, luciérnagas, pirilampos. Encantados com o pisca-piscar verde da esperança, diziam num tatibitate espanholado, que as tivesse à mão para brincarem.

Hoje, sem a sabedoria das crianças, envelhecido, tenho-me encantado com uma joaninha atrevida que me visita. Pudesse ao menos trazer com ela, para esvoaçar pelo escritório, a esperança?

Não suponha desgostar do inseto com seu corpinho atartarugado, sete pontos bem demarcados, três a três em cada lado e um no centro, todo sanguíneo na cor. Simpático, adeja, assenta, e sai outra vez esvoaçando, como se burlasse do meu encantamento.

Será sempre a mesma joaninha a visitar-me quase todo começo de noite? Por certo não. Geralmente não vem só e alcança, com vivaz rapidez, o pavimento onde vivo, como se festejasse o encontro.

Por vezes, traz uma, duas, três mais companheiras esvoejando por toda parte. Há sempre uma - parece entender - postada numa belíssima gravura que tenho, retrato de Fernando Pessoa, obra de Pomar, genial artista português, desenho em traços, perfeição absoluta. A danada pousa na ponta do nariz como se desejasse provocar o poeta. Ou desejaria dar ao branco e preto da obra de seu brilho e de sua cor?

Como me encantaria, neste momento, tê-la, agora, esvoaçando por toda a casa, em companhia da Esperança, a que pousou na cadeira de Clarice Lispector e provocou seu menino misturando nele ilusão e desejo?!

Quando menino, minha mãe, no seu jeito de ser, ensinou-nos a tratar a esperança com reverência igual à demonstrada naturalmente pelo nome com que a chamávamos. Quando nos acercávamos, encantados com seu talhe, o verde da cor e sua gentil forma de ser, apoiando patinhas traseiras sobre as dianteiras levantadas, em constante oração, num alarido sem fim, próprio da infância, avisávamos: louva-a-Deus!

Gostava de aproximar-me para ver o inseto, genuflexo, agradecer ou ensinar como proceder em relação a quem, num gesto de humildade, prestava culto. Na rua, outras crianças o tratavam cavalinho de Deus, ignorando a louvação. Bendito, Cavalinho de Deus, Louva-a-Deus, Bota-mesa, Esperança, que tanto entusiasmou o filho da escritora, parece sempre, na postura e no gesto, indicar a quem se deve respeito.

Havia quem, vendo aproximar-se o horário do almoço, tratava de chamá-lo bota-mesa, para depois da refeição, com emoção, agradecer o pão do dia, acreditando ser obra dele, o Bendito.

Veja se, repetindo os diferentes nomes que recebe, não dou ao conto o desejo de agradecer a quantos me fazem renascer a esperança,  brotada do louvor a Deus?

A infância é mesmo uma coleção de memórias. Não há como esquecer. Como ignorá-las? Tudo tão terno, tão verdadeiro e sincero, sobretudo não havendo interferência adulta ferindo o sentimento.

Um poeta nosso, em crônica publicada nos setenta do século passado, insistia que a criança deveria educar o adulto. Brilhante escritor moçambicano lembra que as crianças, “sem falar, nos ensinam as razões para viver. Elas não têm saberes a transmitir. No entanto, sabem o essencial da vida”.

Por sorte Clarice captou isso ao sentir que o filho, com a visita da Esperança, unia, no tom da voz, na expressão do olhar, na incontida emoção, as duas esperanças. Adulto, esquecido da verdade da infância, permito-me crer, que esperança é mesmo coisa secreta, ocupada em tecer, dentro de cada um o desejo, o sonho, a realização do impossível. Neste momento, quanto espero seja assim.

Agora, aqui, costurando o tempo que, por vezes, deixa escapar o ponto dado, vou compondo a vida. Cada dia, nova peça a juntar-se ao punho ou à gola feitas, dando-lhe brilho novo. A diferença é que, na infância, me sobrava tempo para admirar tudo, sem imaginar momento que torne baço o ouro do céu, a pérola do dia.

Na infância, tudo fulgura, surpreende e encanta.

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Hoje, vestido de esperança, agradeço ao leitor, tanto bem me faz. Por razões de saúde, me afasto por período, espero, seja breve e passe. Deus concederá!

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