ARTIGO

Ainda a vida. Sem mistificação.

Por David Chagas |
| Tempo de leitura: 4 min

Trago da infância tantas histórias. Faltou-me, no entanto, e sempre reclamei disso, o irmão pequeno dormindo. Quanto esperei. De resto, tudo o que circunscreveu o círculo familiar foi completo, singelo, bom. Minhas irmãs. Eu, sozinho, com Faísca, a égua altiva, que me permitia galopar, sem jamais cansar-se, sobre seus dorso; Catito, presença fulgurante naquela infância rural. Quantos demorados e longos passeios em bicicleta. No quintal, entre mangueiras e outras árvores, companheiras, solidárias, amigas, a vida escorregava, sem pressa alguma.

A mãe professora, cobrava (que sorte a nossa!) tarefas e leituras, fazendo entender o valor disso tudo! Bem-posta, elegante na aparência e na alma, de volta de seu ofício professoral, em casa, sentada à máquina de costura, cosia à perfeição para suas meninas e, depois, em pé, cozia as delícias que, juntos, saboreávamos. Bolos, biscoitinhos saborosos, quitandas várias. O café da tarde. O jantar.

A mim, neste tempo, só me faltou mesmo o irmão pequeno. Como teria sido minha mãe determinando silêncio em meio à falação dos crescidos correndo pelo quintal e pela casa, para dar ao pequeno repouso necessário, sem o enfado dos maiores, em traquinagens próprias da idade que contavam?

Havia quintais naquele tempo, diferentes do que hoje se conhece. Para lá, íamos. Não havia cimentado nem pisos. Grama. Terra e pedriscos. E a vida besta levando em curso, pela estrada, numa lentidão aparente, os burros, e no contar das horas, os dias, os meses, o ano.

Até o relógio, resistindo bravamente, mais que centenário, soava distinto e pouco reclamava se lhe faltasse corda.

Era mesmo o quintal que nos acolhia. Uma pequena quinta, de um lado, com horta bem traçada, cuidada com rigor e apreço, oferecendo, com beleza e cor, a graça de alimentos, verduras, legumes, frutos e, do outro, árvores, balanços, gangorras, trepadeiras, algumas com flores, outras com frutos.

No interior da casa, o alegre convite das histórias infantis, páginas chamando para leituras, desvendando contos, despertando sonhos.

A proximidade do inverno, em dia chuvoso e frio como estes, traz à memória lembranças assim, num rebuliço de histórias, contentando a alma. Outras tantas, uma saudade doída, sugerindo perguntas sem resposta, como se o tempo que a tudo engoliu vorazmente pudesse responder e, não podendo, se responsabilizasse por ter acabado com o prazer do instante.

Em meio a tramas enredadas num liame sem fim, me pergunto se o que une deveras um lio a outro, aconteceu, ou pode misturar-se a sonhos? Tanto pior, terá surgido com a idade a tricotar retalhos reminiscentes sem distinguir, no que desenha a memória, fato e sonho?

Pense como quiser. Se me imagina decrépito, informo não estar. Caduco, tampouco. Revivo, com discernimento. A lembrança me permite revisitar momentos felizes.

Sempre que faço estes passeios desperto a memória de sua paz e trago, num alvoroço incrível, a todos e a tudo e os convido a estar de volta ao jardim ou à sala. Observo, como se os pusesse à luz do lampião que iluminou tão bem as noites pueris, e traço sua face e seu olhar, por trás da luz difusa. Os contornos, como convém à cena, pouco nítidos. Provam, no entanto, não estarem. Foram.

 Assim ajo. Com tudo. Para aclarar, trago a esta conversa a figura querida de minha juventude, Sophia Loren. Se me agita a memória tão boa lembrança, trato de encontrar filme e a vejo plena de beleza, exuberante. Se desejo sabê-la, agora, procuro por foto atual e observo. Aos noventa anos, preserva elegância, encantamento e graça. Apesar de nostálgico, brota com generosa luminância. Celebro.

“Cada dia que passa incorporo mais esta verdade, de que eles não vivem senão em nós / e por isso vivem tão pouco; tão intervalado; tão débil. / Fora de nós é que talvez deixaram de viver, para o que se chama tempo.”

Recorro ao poeta para ajudar-me a dar ao leitor a percepção que desejo desta relação que existe entre mim e os seres que por mim passaram de modo intenso fazendo-me descobrir a essência da vida. Se os sinto comigo, se os recupero na lembrança, resisto um pouco mais e sorrio de novo com igual prazer.

Estes tempos nossos e novos andam por demais arrogantes. As pessoas se apressam e, apressadas, deixam cair ao chão a vida, não a vida como acreditam ser, mas a que é.

Demorei a perceber – que pena! – quanto vale ter a franciscana clareza do que importa, de quem importa.

Se amanhã, por um motivo qualquer, perder de vista o sol a armar o dia, ou deixar escapar na metade dele o instante em que se encher de luz iluminando tudo, recupere antes que o cair da tarde chegue e o corar da terra sugira tristeza e solidão. Faz-se isso com a memória, sagaz em trazer de volta o bom e o bem de ter vivido muito, mesmo que possa parecer pouco.

Estar vivo permite recobrar o que se perdeu e tecer, com igual ternura, o tido, o ido, o visto, o consumido, o consumado.

Comentários

Comentários