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Lenda viva do XV, ex-goleiro encarou Pelé: ‘Nunca vão falar tudo sobre ele’

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 8 min
Claudinho Coradini/JP
O ex-goleiro Orlando: 'Não queria saber do profissional de maneira nenhuma'
O ex-goleiro Orlando: 'Não queria saber do profissional de maneira nenhuma'
O ex-goleiro quinzista Antônio Orlando da Costa, ou simplesmente Orlando, é uma enciclopédia viva do Alvinegro Piracicabano. Aos 86 anos e com uma memória admirável, o ex-goleiro do Nhô Quim chegou ao clube em 1955, já com 18 anos de idade, e fez uma trajetória de sucesso com a camisa zebrada. Foram 10 temporadas ‘guardando’ a meta quinzista, sempre com muita competência. 
Piracicabano, o pai do também ex-goleiro Nilton Orlando da Costa, 60 anos, ex-Santos; e da caçula Nilvia Andrea, 56 anos, começou a carreira na várzea, ainda adolescente, no extinto Vasquinho. Depois, passou pelo União Porto e pelo Jaraguá, antes de chegar ao Alvinegro, onde se profissionalizou. Lá, usou a camisa número 1, aliado ao trabalho de mecânico. Depois, aos 28 anos, foi jogar no União Bandeirantes-PR, onde pendurou as luvas aos 32.
 
Orlando não conquistou títulos durante a carreira, mas viveu a fase de ouro do XV de Piracicaba e do próprio futebol brasileiro. Excursionou com o clube na década de 1960 pela Europa – passando por Rússia, Ucrânia, Polônia e Alemanha, entre outros – e encarou cinco vezes Pelé durante embates do Nhô Quim contra o Santos pelo Campeonato Paulista. “Perdi todas para ele”, admite o ex-goleiro, que guarda com carinho as lembranças do atleta do século. “Nunca vão falar tudo sobre ele”, disse o ex-atleta, que atualmente curte sua aposentadoria vivendo tranquilamente no bairro Alto, na região central de Piracicaba. Nesta entrevista ao Persona, a lenda viva quinzista fala muito mais sobre sua carreira de 14 anos no esporte. Confira: 
     
Como o senhor começou no futebol? Comecei no campeonato varzeano. Comecei no infantil. Sempre no gol. O varzeano da cidade era muito concorrido na época. Então, eu participava com 14, 15 anos. Eu iniciei em um time que formamos na região central da cidade, o Vasquinho, em homenagem ao Vasco da Gama, do Rio de Janeiro. Inclusive, um diretor nosso mandou uma carta para o Vasco e eles mandavam o uniforme para nós.   
 
Hoje não tem mais esse time? Ah, não! Não tem mais... morreu todo mundo (risos). O Cardinalli, antigo beque do XV, também jogou neste time. Nós crescemos todos juntos ali perto do antigo campo do XV (no final da Rua Governador, onde hoje é um hipermercado). Naquele tempo, a cidade era muito diferente.
 
Além do Vasquinho, o senhor também passou por outros times amadores da cidade, não? A gente, moleque, só pensava em jogar bola. Eu joguei no Vasquinho e depois fui para outros times da cidade, como o União Porto. Morava perto da Rua do Porto e fui jogar lá. O pessoal até ficava preocupado por que a gente, tudo ‘molecão’, pegava o pessoal mais velho... Mas a gente tinha uma certa habilidade e dava certo. Todo mundo se conhecia. Também passei pelo Jaraguá.
 
E como apareceu a oportunidade de ir para o XV? Quando fui para o XV eu já estava com 18 anos. Eu estava fazendo o Tiro de Guerra, ainda. Um senhor chamado Áureo, que trabalhava com a criançada, me levou no XV. Eu nem queria não. Na época, não era como hoje, que todos vivem na ânsia de ser profissional. Naquele tempo, desculpe a expressão, mas jogador era considerado ‘vagabundo’. Eu trabalhava em uma oficina mecânica desde molequinho e então não queria saber do profissional de maneira nenhuma. Mas acabei indo para o XV (no ano de 1955), com 18 para 19 anos, mas não gostava muito. Naquele tempo, a gente preferia a várzea mesmo.
 
Por que o senhor relutou em ir para o XV? Era por que o futebol, naquele tempo, não dava muito dinheiro? Eu comecei a ganhar dinheiro no XV de Piracicaba porque não tinha muito goleiro, mas também por qualidade minha. Mesmo na várzea eu já ganhava. Quando atuava no Jaraguá, depois do jogo, uns trocados sempre saíam para nós. E foi assim... E esse Áureo (funcionário do XV) tinha muita amizade com o meu tio e disse para ele: ‘Deixa o menino ir para o XV’. ‘Não, ele não quer, ele não gosta’... Mas depois, disso, meu tio levou. Foi aí que eu comecei no XV.
 
Pelo XV, o senhor teve o privilégio de atuar na fase de ouro do futebol brasileiro, no final dos anos de 1950 e nos anos de 1960, e atuou contra grandes craques. Como foi essa experiência? Foi muito importante e o XV também tinha muitos jogadores de qualidade. Tinha o Idiarte, um senhor central; o meio-de-campo era muito bom também; Gatão era o meio-esquerda; Biguá o volante, excelente jogador. Só o Biguá que era de fora. O resto era tudo daqui. Aliás, tinha também o Fernandes, que veio do São Paulo. Casou-se e ficou o resto da vida aqui. O XV tinha um ataque razoável também. 
 
O senhor chegou a ter oportunidade de ir para algum time grande? A gente era ‘preso’ no XV. Não vendia ninguém, não emprestava; não fazia negócio nenhum... Eu tive oportunidade de ir para o Santos. Quem me indicou foi o Gilmar (dos Santos Neves), ex-goleiro, para ficar na reserva dele. Não fui. Já o meu filho (Nilton) foi para o Santos. Na época (década de 80), o técnico era o Coutinho (piracicabano), e foi quem recebeu ele no Santos. Foi reserva do Rodolfo Rodrigues. 
 
E como foi a experiência de jogar contra o Pelé? As pessoas falam, fazem comentários, mas nunca vão falar tudo sobre o que foi Pelé. Pelé foi uma pessoa maravilhosa. Quando eu me casei, nós fomos para Santos e ficamos 10 dias no Gonzaga. Aí, eu encontrei com o Pelé. Encontrei não, ele me encontrou! Estava passeando na praia, foi quando ele me viu e gritou. Quando me viu, parou o carro no meio da pista e me abraçou, me cumprimentou, riu...
 
Bem simpático... Simpático? Ele falava que seria meu padrinho, mas não sabia que eu tinha me casado. Depois, me mandou um buquê de flores. Depois do jogo, somos iguais a todo muito, com amizade, e a vida continua... 
 
E o senhor ganhou mais dele ou ele ganhou mais do senhor? Só perdi dele. Devo ter jogado umas cinco partidas contra ele (Pelé). Só perdi (risos). 
 
O senhor, inclusive, foi o goleiro que levou o primeiro gol que o Pelé fez no interior do Estado, em um jogo do Campeonato Paulista. Como foi essa história? Começou o jogo, eles deram a saída e Coutinho já saiu na cara do gol. Eu saí para abafar e ele ainda me pegou minha canela. Na hora sangrou. Queriam que eu saísse, mas eu disse: ‘Enfaixa aí’. E fiquei. O Coutinho fez o gol. O Pelé fez o outro gol. O Coutinho foi criado neste bairro aqui (região do Bairro Alto) e jogou na várzea também. Jogou pequeno, com 12, 13 anos. Aliás, ele nunca cresceu...   
 
Além do XV, o senhor atuou por mais algum time? Atuei no XV por uns 10 anos e depois fui para o União Bandeirantes-PR, com 28 anos. Lá encerrei minha carreira com 32 anos. Houve um mal-entendido no Bandeirantes e eu terminei a minha carreira. Na verdade, aprontaram para mim lá. Eu fiquei tão revoltado que abandonei a carreira. Veio um time de Curitiba, que tinha se formado há pouco tempo na época, e o técnico me conhecia. Então, ele foi no Bandeirantes e queria me levar. Acho que se chamava São João esse time. Eu já estava com 30 anos. Eles (União Bandeirantes-PR) não me liberaram e disseram: ‘ele vai morrer aqui’. Mas fiquei lá três anos. Eu tinha condições de continuar, mas decidi parar.
 
Com o XV, o senhor viajou bastante para fazer amistosos pela Europa? Sim. Fomos para vários países: Alemanha, França, Polônia, Ucrânia, Rússia, entre outros. Rodamos bastante na década de 1960. Já teve algumas vezes que ficamos três meses. Naquela região, onde está tudo destruído, nós passamos por lá (Ucrânia). Foi na época do Ripoli. [NOTA DA REDAÇÃO - Romeu Italo Ripoli é considerado o maior presidente da história do XV; comandou clube durante 17 anos, em dois períodos: entre 1959 e 1966 e depois entre 1973 e 1983. Em 1964, o ex-presidente levou o XV em excursão pela Europa e pela Ásia. Naquela época, o Brasil já era bicampeão mundial e apenas o Santos e o Botafogo faziam esse tipo de viagem. O time jogou na Suécia, na Polônia, na Alemanha (Ocidental e Oriental, divisão da época), na Dinamarca e, no auge da Guerra Fria, nas então repúblicas soviéticas da Rússia, Moldávia, Ucrânia, Casaquistão e Usbequistão.]   
 
Alguma situação curiosa nestas excursões? Tinha muito pouco negro na Europa, pelo menos naquela época. Então, quando eu saía do campo, do gol, depois do jogo, para chegar no vestiário era uma demora muito grande (pela curiosidade das pessoas). Dei sorte e fui muito bem recebido e bem tratado. Quando chegava no vestiário, todo mundo já tinha tomado banho e trocado de roupa. Aí, eles ficavam tirando um ‘sarro’ de mim (risos). ‘Até que enfim a ‘boneca’ chegou’, diziam.  
 
Senhor Orlando, para terminar, qual a comparação que o senhor faz do futebol jogado naquela época com o que é jogado atualmente? Houve uma evolução muito grande. O futebol de hoje é mais agressivo, mas antigamente era melhor tecnicamente. Hoje é mais velocidade, tem muito mais treinamento em relação ao que era jogado antigamente.    
 

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