ARTIGO

Sigo a viagem...

Por David Chagas |
| Tempo de leitura: 4 min

“Talvez tenham razão.

Talvez em cada coisa uma coisa oculta more.”

Te deste conta? Quanto de alma carregas em ti? Nada? Sabes bem do que não vês e em ti existe?

Nisto tenho pensado desde sempre, não nego, ao tentar entender melhor não visto, mas o que não vejo. O céu, por exemplo. Por trás do azul, que azul existirá?

Na árvore, quanto verde além do verde visto? Em tantas cores de flor, quantas mais estarão? Quanto segredo no sibilar dos pássaros? Entre um trilar e outro que notas emitem, quantas alternarão? Que contam entre si nesta emissão de vozes?

Imaginas quanta beleza escondem no trinar sonoro do amanhecer ou ao cair da tarde? Entendes seu encantamento ao levantar do sol quando cantam e cantam festejando o dia?

Ou divisas tão somente o que vês? Nada além disso? Quem na verdade são? O que guardam? O que dizem?  Quem pode garantir, ao observar tanta beleza na emissão do canto, no voo livre ensinando caminho e liberdade?

O ir e vir de formigas nos caminhos? O incessante trabalho das abelhas? Os peixes! Ah, os peixes! Que me ouçam, ao menos, ao saber do quanto os quero, em especial quando ouviram a Antônio, o Santo, lembrado por Vieira, o padre, em Sermão pregado há trezentos e setenta anos que faz eco ainda hoje, com igual evidência no que revela.

Mais que a beleza deles, eles nos rios, nos mares. Seu alvoroço ao poderem, no fantástico acontecimento  mostrar-se num turbilhão de espumas para ouvir o Santo provando estarem moucos os homens.

Quanta vida pulsando de um lado, de outro, escondida entre vidas ou o que se sabe delas. Por que tão alheios ao verdadeiro espetáculo? Quem nos priva de saber do escondido em nós e em tudo o que, exterior, também é nosso, mas não se mostra?

Era o que desejava contar, mal conseguindo.

Madrugada de anteontem, esbranquiçada e fria. Cerração pesada sobre os campos e cidades. Não era possível ver. A névoa encobria, mas não desperdiçava a oportunidade de provar que por dentro do nevoeiro intenso, havia muito a saber e descobrir, escondido por trás do véu vestindo a natureza.

Chamo por Cecília Meireles no silêncio da madrugada. Quero que saiba por mim que encontrei, por fim, a cidade feita de giz, sem que nela houvesse a tal felicidade certa. Senti, é claro, porque vou além do que os olhos encontram e a vista alcança.

Pedi, também, que contasse a Mário de Andrade ter visto o homem pela calçada. Branco. Branco? “Só bem perto fica negro. Passa e torna a ficar branco.”

“Um pobre vem vindo.! É rico?/ Só bem perto fica pobre. Passa e torna a ficar rico!”

O poeta há de perdoar-me. Altero a pontuação, sem tirar-lhe forma e sentido no desenho que faço. Só mesmo a alvorada permitirá ver e a alma, o que é, não se mostra, mas se sente.

Me entendes – ou não? - no que desejo e quero? Ou permaneces buscando tão somente o que a visão te mostra?

Prossigo. Vem comigo na viagem que faço.

Ver é bom. Mas, no olhar, há sempre alguma cerração e névoa. Por isso, sentir.

 Foi genial professor de literatura portuguesa quem me ensinou a ver melhor. Ledor de Fernando Pessoa, sempre que falávamos sobre, em demoradas conversas, com ele me sentia a vontade para revelar meu intenso amor por Caeiro, um dos muitos Fernando Pessoa, o mestre. Ele, em acentuado sotaque português, celebrava Álvaro de Campos, seu preferido.

Entre Caeiro e Pessoa, Ricardo Reis e Pessoa, Álvaro de Campos, Pessoa, Fernando Pessoa, a quem não conheci ou conhecera mais do que possas imaginar. Tomara saibas quem é e o tenhas lido. O poeta fingidor. Este mesmo que repetes sem cessar quando desejas provar que tudo vale a pena e afirmas: se a alma não é pequena!

Dia destes, ao chegar ao edifício onde vivo descobri, no escaninho entre paredes, surpresa boa à espera. Se sei a razão disto? De que importa? Sei o que senti. Me basta!

À entrada, num recanto, em lugar a mim reservado, pacote, com bilhete, garantindo-me presente rico e inesperado. Em texto bem escrito, a razão do gesto. O que agrada viceja mais na alma que no coração, sobretudo quando o gesto faz lembrar vida que persiste, mesmo na ausência, em igual, permanente e vibrante emoção.

No pacote, herança que jamais supus merecer. O Poeta Fingidor, edição primorosa, e A poesia completa de Alberto Caeiro, para mim o mestre querido, “coração do meu corpo intelectual e inteiro”.

Bilhete lido, pacote aberto, riqueza exposta. Jamais sonhara herança igual autenticada em testamento assinado por dona Cibele, dando-me direito sucessor e justificando em texto emocionado a razão disto.

Cibele Leitão, viúva de Manoel Correia Leitão, meu saudoso mestre, com quem descobri muitos dos escritores portugueses que conheço. De sua invejável biblioteca, dentre tantas obras, estas. Já as tinha em diferentes edições. Lidas e relidas. Estas, no entanto, com uma e outra quase invisível anotação dele, vieram ter comigo, ensinando-me a ser mais e melhor.

A memória repassa estes encontros. Estudante, eu entre tantos. O mestre, ele, singular, único. Eu, sol em declínio, deixo de lado o peso da vida, as dores, a expectativa do fim e estanco o tempo. Quero estar mais neste momento.

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