LUISE BAUCH

Aos 71 anos, nadadora dá a dica: ‘O meu remédio é o esporte’

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 8 min
Claudinho Coradini/JP
Luise faz da natação seu estilo de vida e está em plena atividade, com a agenda cheia de competições pela frente
Luise faz da natação seu estilo de vida e está em plena atividade, com a agenda cheia de competições pela frente

A nadadora Luise Marta Bauch, 71, é uma simpática senhora e um exemplo a ser seguido. Começou a praticar esportes aos 61 anos, devido a um problema de saúde, e não parou mais. Hoje, é um exemplo de vivacidade e superação. Faz da natação seu estilo de vida e está em plena atividade, com a agenda cheia de competições pela frente.

Mãe de Simone, 42; Marcos Alexandre, 40; Tiago André, 37; e avó de Ravi e Miguel, ambos com 9 anos; Manuela, 7; e Maya 3; Luise é paulistana de nascimento e piracicabana de coração. Formada em arquitetura, também trabalhou com gerenciamento ambiental antes da aposentadoria profissional.

Após começar no esporte “por acaso”, como ela mesma diz, pegou gosto pela “coisa” e atualmente “vive” para a natação. Com centenas de provas no currículo, convocações para a Seleção Brasileira e três mundiais, ela quer muito mais. Sua especialização são provas em águas abertas, onde já passou alguns “apuros”, mas nada que a fizesse desistir. Pelo contrário: ama o esporte, que traz a ela uma qualidade de vida que seria inimaginável fora da água.

Sua última aventura foi nadar os cinco quilômetros da 1ª Prova Circuito Nacional Águas Abertas, da Mius (Madeira Island Ultra Swim), em Portugal, na Europa, onde disputou braçada a braçada com atletas com até 16 anos a menos que ela (55+), em plena rota de Cabral, no Oceano Atlântico. 

De volta à Noiva da Colina, Luise concedeu entrevista ao Persona, do Jornal de Piracicaba, na Ponte Pênsil, que corta o Rio Piracicaba. “Eu não sou piracicabana, mas eu amo esse rio”, disse a atleta, que agora tenta convencer a todos aqueles que não querem sair do sofá: “Comecem com caminhada; dê uma corridinha de um poste para o outro. Vá devagar que dá certo!”, garante.  Veja a abaixo a entrevista na íntegra.

Como a natação surgiu na sua vida? A natação surgiu por acaso. Com 61 anos, eu estava com um problema de saúde meio complicado e o médico me recomendou que eu fizesse algum esporte. Nenhum remédio, só esporte. E aí eu entrei para a corrida por que é mais fácil você colocar um tênis e um short na mochila ou na mala. Até que eu tive um probleminha no joelho e o médico disse que a única coisa que eu poderia fazer era a natação. Só que eu nunca tinha entrado em uma piscina. Nunca tinha dado uma braçada de crawl (risos).

Mas depois da avaliação médica, teve de encarar do zero... Isso. Aí eu fui para a escolinha, de tarde. Tinha três senhoras e a gente mais conversava do que nadava. Mas fui crescendo, crescendo, crescendo até que virou o que eu sou hoje. Fui do zero no esporte com 61 anos. Nunca tinha feito esporte na vida por que nunca deu tempo.

Como foi a adaptação à natação? Como foi esse processo. Tinha um dom aí guardado, não? Acho que sim. Eu nunca achei que poderia ser do esporte. Sempre achei que eu não serviria para o esporte. Mas foi indo... foi acontecendo naturalmente. Não foi fácil. Eu digo para todo o mundo; começar tarde não foi fácil.

Como começaram as competições? Eu comecei a correr com o pessoal do Sesc. Era uma turma de 45 pessoas. E eles foram me convencendo e comecei a correr uma, duas, três corridas. Foram me convencendo assim: ‘você paga só a metade’, por que já tinha mais de 60 anos; ‘ganha camiseta e se diverte o domingo inteiro com a turma... bora!’ E eu fui indo. Quando eu fui para a natação, inicialmente, eram somente dois meses, período para sarar o joelho. E eu tinha falado para o professor que eu não ia competir. Aí vai uma competição, no revezamento está faltando um; sempre tinha um motivo...

E nessa foi para o mar... Na primeira vez que eu nadei no mar, eu disse: ‘É isso o que eu quero’. Aí eu descobri o que eu quero para a minha vida. Deixei de competir piscina – só voltei no ano passado. Hoje, eu praticamente faço somente competições de águas abertas.

Quantas competições a senhora já participou? Não tenho ideia. Eu tinha 110 medalhas de pódio, que me foram roubadas. Então eu não tenho mais noção. Eu devo ter muito mais do que isso.

Conte um pouco dos três mundiais. Como foi sua experiência? O primeiro foi no Canadá, em 2017. Foi meio assim de “supetão”. Eu já nadava e corria. E um técnico de Brasília falou para mim: ‘Por que você não compete Aquathlon (um quilometro nadando e cinco quilômetros correndo)?’ Eu nunca tinha ouvido falar disso, mas disse que poderia tentar. Aí, ele disse: ‘Nós temos cinco vagas na Seleção Brasileira em sua faixa etária (que na época era 65 anos). Se conseguir o índice, você está dentro da Seleção Brasileira’. Isso foi um incentivo e tanto. Eu voltei para Piracicaba no começo de janeiro daquele ano e falei para os dois técnicos (da natação e da corrida) que eu queria. Em março fiz a homologação de tempo. E em maio chegou o uniforme da Seleção Brasileira. Eu não acreditava!

Que experiência fantástica? Servindo a Seleção! Isso. Em julho de 2017, eu fui para o primeiro mundial, no Canadá. Foi em uma lagoa com nove graus de temperatura! Depois, eu fui para a Dinamarca (2018) e depois para a Espanha, em 2019.

E recentemente a senhora foi para Portugal... Faz duas semanas que voltei de lá. Foi muito frio, muito vento. O frio fez com que eu tivesse câimbras horríveis. Praticamente, eu nadei três quilômetros com uma perna só porque a outra paralisou. Mas eu consegui terminar a prova. Competi na prova de 55+, 16 anos menos e fiquei em 3º lugar...

Essa prova foi no Oceano Atlântico. Qual foi a sua emoção? É uma coisa maravilhosa. Nadar no meio do Oceano Atlântico, em uma ilha que estava no meio da rota de Pedro Álvares Cabral quando ele vinha para o Brasil... É incrível... Fora que o mar é maravilhoso; a cor dele era um azul lindo e transparente os cinco quilômetros; você via tudo embaixo, a areia, os peixes... E a recepção também foi fantástica. Foi no meio do oceano. Lisboa, 120 quilômetros mar adentro vem a Ilha da Madeira; e 60 quilômetros a mais é a Ilha de Porto Santos. Foi demais. Foi muito bom! Fomos em um grupo de nove pessoas, mas somente três fizeram a prova de cinco quilômetros.

Durante a pandemia, a senhora teve dificuldades para treinar, não? Como fazia? Eu treinava na lagoa de Santa Rita. Lá tem 900 metros de comprimento e eu levava meu cachorro para cuidar das minhas coisas e nadava três vezes por semana. Nadava com o meu filho somente porque estava tudo fechado por conta a pandemia. Não dava para parar. Para todo atleta é ruim parar, mas, na minha faixa etária, se eu parasse um ano não voltaria.

Qual a relação que a senhora tem com o Rio Piracicaba? Já nadou aqui? Nunca nadei no Rio Piracicaba (risos). Não sei se tenho coragem. Mas eu acho ele lindo! Eu gosto demais dessa área da cidade. Eu não sou piracicabana, mas eu amo esse rio.

A senhora tem a noção de que é exemplo para muita gente por ser tão ativa no esporte? Eu morria de vergonha de subir em pódio. Essa questão de entrevista também era muito complicada. Tirar foto? Pelo amor de Deus! Mas uma coisa que me deu uma satisfação muito grande foi uma vez no varejão. Eu tinha acabado de chegar de Portugal. As pessoas do varejão, que é de periferia, do Jardim Alvorada, me reconheceram e queriam saber como era nadar no mar, os peixes, os tubarões... Deu uma satisfação muito grande mostrar para essas pessoas que não é só jogador de futebol que existe no esporte; pude mostrar que as pessoas podem fazer outras coisas. Aí, me perguntaram da piscina municipal, como funciona; como é que consegue vaga... E isso é muito importante. Mostrar para a população de 60+ que é possível; que consegue! É só ter foco e querer. É dizer: ‘Eu quero!’

E a relação com a moçada mais jovem? Tem muita admiração pela senhora? Eu me dou muito bem com os mais jovens. Não sei se tem admiração, mas me dou muito bem com eles. Na seleção, eu sou a mais idosa e convivo bem com todos eles.

A senhora nunca teve medo do mar? Tenho medo, mas a adrenalina faz você esquecer o medo. São dois esportes diferentes. A natação na piscina é completamente diferente. Já aconteceu no ano passado de um peixe de 20 centímetros grudar na minha panturrilha. Eu fiz de tudo para acabar com esse peixe... aí, dei três braçadas e ele grudou nas costas. Comecei a gritar... aí um colega que estava nadando mais ou menos perto, foi por baixo da água para ver o que estava acontecendo, viu que era um peixe e arrancou das minhas costas. Peguei também uma correnteza em 2019 que me levou embora. Vinha galho, vinha folha... A lancha nos pegou. Foram oito. Nos abraçamos e choramos muito. Foi no Canal de Ilhabela. Lá eu respeito muito.

Para finalizar, qual a dica ou conselho que a senhora dá para as pessoas saírem do sofá? Tentem! façam! Com a idade que tenho, eu não tomo nenhum remédio. O meu remédio é o esporte. Então, não sentem em uma cadeira para assistir à TV. Comecem com caminhada; deem uma corridinha de um poste para o outro. Vá devagar que dá certo!

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