Para civilização mais antiga, o ovo era um símbolo de força, vitalidade e fertilidade. Em diversas festividades, principalmente em alusão à primavera, era comum presentear ovos de galinha desenhados ou enfeitados para os amigos. No entanto, a cultura se tornou uma prática menos comum após a comercialização dos ovos de chocolate. Mas, acredite, essa tradição ainda existe em Piracicaba!
Em Santa Olímpia, bairro rural e tirolês do município, a tradição veio junto com os primeiros imigrantes da cidade de Trento no final do século 19, e se mantém viva até hoje por seus moradores. A comunidade realiza uma oficina de tingimento dos ovos de Páscoa todos os anos.
Ivan Correr, organizador da oficina, explica que a atividade é para os visitantes que desejam conhecer a colônia. “Desde o início da quaresma, aos sábados e domingos, realizados o tingimento de ovos. Os visitantes recebem o kit, tingem os ovos e levam para a casa”, conta.
Há 10 anos em ação, o tingimento em Santa Olímpia é feito de forma natural com casca de cebola, marsala, losna, capim, cravo de anjo, pétalas de rosas e demais plantas, também com o suporte do papel alumínio para facilitar a montagem.
“Nesta oficina, também fazemos um extra com ovos de isopor. No tempo que o ovo verdadeiro está cozinhando, fazemos o tingimento com tinta para simbolizar a árvore da páscoa que é uma tradição em nossa região. Depois trazemos os ovos, colocamos uma etiqueta em cada e levávamos para os nonos (avós) escolherem três ovos”, diz.
Os antigos costumavam usar tecidos ao invés das plantas, mas há uma regra que deve ser seguida: não pode usar nada que seja artificial. E um dos elementos essenciais é a criatividade e como nenhum ovo nunca sai igual, sendo totalmente uma surpresa. Depois que o processo é finalizado e passada cola branca para preservar, criando um verniz, impedindo que o oxigênio entre e não estrague os ovos. “Tenho ovo guardado na minha casa há 10 anos”, comenta Correr.
Correr também explica que na Europa cada região tem a sua própria tradição, a forma como os italianos fazem é diferente das dos alemães e russos, por exemplo. “Na maioria dos ovos tingidos são tirado a parte interna, furado o ovo cru e tirado a parte de dentro para serem colocados amendoins. Já o nosso nunca tiramos, é o ovo cru mesmo”, relata.
“Na época de nossos avós, era montado uma mesa grande, onde toda a família se reunia. Todos montavam os ovos, depois abríamos e ganhávamos de Páscoa. A tradição se preservou por um tempo, mas foi se perdendo um pouco devido aos ovos de chocolate. Algumas famílias junto com a Associação decidiram fazer o Dia do Ovo de Páscoa”, explica. “Nós, moradores, ficamos mais felizes que os próprios visitantes porque sabemos que a nossa tradição está sendo reverberada”, enfatiza.
Na família de Geraldo Stênico, de 88 anos, a tradição já vem desde 1878, quando os primeiros tiroleses vieram para o Brasil e, em seguida, compraram a fazenda Santa Olímpia, entre eles, seus pais. “Desde de pequeno eu me preocupava em fazer o melhor ovo e o mais bonito”, relembra ele. Agora, os pais também fazem questão de repassar esses ensinamentos para os filhos.
Além de ovos: aprendizado que supera as limitações
Com a forma de trazer um novo significado da Páscoa, como a alegria, a conexão e a paz, o Centro Dia Passo a Passo, entidade que atende pessoas com deficiência intelectual e múltipla, em parceria com a comunidade de Santa Olímpia, levou seus assistidos para explorar a criatividade e entender novas culturas, por meio do tingimento de ovos de galinhas.
Thais Acosta Batistella, coordenadora do Centro Dia Passo a Passo, contou que esta foi a primeira vez que os assistidos tiveram contato com a atividade. “Foi uma oficina bem inclusiva. Eles não tiveram dificuldade de executar. Com o apoio, eles conseguiram trabalhar de uma forma bem tranquila. Cada um ao seu momento, no seu tempo e respeitando o processo”, conta.
Romário Luiz de Oliveira, um dos assistidos, ficou animado com a nova atividade. Ele comentou que achou muito legal e diferente. “É a primeira vez e agora irei comer o ovo”, disse.
“A partir do momento que tivemos a oportunidade de nos conhecer, e por sermos uma entidade que trabalha com pessoas com deficiência, também queríamos trazer a cultura para eles. Para nós é uma grande atividade que proporciona um desenvolvimento na autonomia porque eles estão aprendendo a manusear, criar e a fazer. Eles tiveram a oportunidade de serem protagonistas”, ressalta a coordenadora.
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