NOVA COMANDANTE

Tenente Coronel Silvia Mantoani é a primeira mulher a comandar o 10º Batalhão da PM

Por Ronaldo Castilho | ronaldo.castilho@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 8 min
Claudinho Coradini/JP
Tenente Coronel Silvia Mantoani assumiu o comando do 10º BPM/I no dia 6 de fevereiro
Tenente Coronel Silvia Mantoani assumiu o comando do 10º BPM/I no dia 6 de fevereiro

A tenente coronel Silvia Andréia Mantoani, é a primeira mulher a assumir o comando do 10ª Batalhão de Polícia Militar do Interior, em 47 anos de existência. A posse foi na segunda-feira, 6. A atual comandante já havia atuado na unidade de Piracicaba no período de 2019 a 2022, onde exerceu as funções de Coordenadora Operacional e Sub-comandante.

Nascida em Adamantina, no interior do Estado de São Paulo, Sílvia Mantoani é filha de Onofre Jesuino e Cilene Dias Mantoani. Inspirou-se em seu pai, policial militar, para ingressar na Academia de Polícia Militar do Barro branco, aos 17 anos, em 5 de janeiro de 1993. Silvia formou-se na Academia Militar em 13 de dezembro de 1996. É mestra e doutora em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública.

Atuou no 3º Batalhão de Polícia Feminina e no 9º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano, ambos na zona norte da capital paulista. Na sequência, atuou no 42º Batalhão de Polícia Militar do Interior (Presidente Venceslau), 18º Batalhão de Polícia Militar do Interior (Presidente Prudente). No ano de 2022 por razão de sua promoção, assumiu o 24º Batalhão de Polícia Milita do Interior, sediado em São João da Boa Vista, retornando ao 10º BPM/I este ano.

Ao longo de sua carreira, ela atuou no serviço operacional, em mediações de conflitos fundiários, questões envolvendo presídios e crime organizado.

É casada com o tenente coronel veterano Marlon Robert Niglia, e mãe de duas filhas: Ana Luiza, de 19 anos e Alice de 15 anos. Trabalha com evangelização de crianças desde os 14 anos e, em Piracicaba, é voluntária na Paróquia Bom Jesus do Monte, onde ministra catequese para crianças de 8 a 11 anos de idade.

Nesta entrevista ao Persona do Jornal de Piracicaba, a comandante faz um balanço da atuação da Polícia Militar, e também sobre o aumento dos casos de feminicídio, já que é especialista no assunto, e os seus planos para o batalhão da Polícia Militar em Piracicaba.

Em 2023, Piracicaba já teve dois casos de feminicídio, quais são as ações para combater essa prática? O feminicídio é um crime complexo, porque ele é um crime entre muros, ele acontece normal-mente dentro de casa, o patrulhamento da Polícia Militar é na via pública, então quando que conseguimos detectar e impedir que se aconteça um feminicídio, com as medidas protetivas, quando a mulher pede ajuda, existe por parte da Guarda Civil e da Polícia Militar uma atenção ao patrulhamento nesses endereços nos casos que temos mulheres que são vítimas de violência doméstica e já tem a medida protetiva. Mas os casos também acontecem com aquelas mulheres que ainda não procuraram ajuda. Então o que é o crime de feminicídio? É um crime que envolve sentimento, relações interpessoais muito próximas, normalmente é marido e mulher, ou irmão com irmã, a vítima sempre é a mulher, mas em relação familiar, e como envolve sentimento, aquela mulher quer sair da situação de violência, mas ela não quer se divorciar por uma série de questões, porque ama o parceiro, ou porque ela tem uma dependência financeira ou dependência psicológica. O agressor normalmente se relaciona normalmente com quem tem perfil de vítima, que se subjuga e fica naquele ciclo vicioso, se ele se divorciar dessa mulher e arruma outra com o mesmo perfil, com as mesmas características, dessa forma entramos no campo do tratamento psicológico mesmo. Então qual seria uma media eficaz para tratar do assunto? Seria uma trabalho em rede, inclusive já estamos conversando sobre isso em Piracicaba, teria que ser uma rede ágil, por que não adianta o policial fazer um atendimento prévio de uma ocorrência, ele chega no local, a mulher quer parar de ser agredida, depois daquele momento ela declina e diz que nada aconteceu, por que o objetivo dela quando acio-nou a Polícia Militar é para resolver o problema dela de imediato, parar de ser agredida, quando isso acontece, ela não quer registrar Boletim de Ocorrência, e quando isso acontece o policial não tem muita coisa para se fazer, embora seja um crime de ação pública incondicionada se a vítima não declara que ela foi agredida o policial não pode pegar a força e levar, porque ele corre o risco de ser enquadrado em abuso de autoridade. A ideia então é que mesmo que não seja registrado o Boletim de Ocorrência, esse caso chegue ao serviço de assistência social ou de proteção a mulher e que esse serviço faça uma busca reversa, o serviço procure a mulher, antes que a agressão se torne irreversível, por que a agressão ela vai evoluindo até chegar a morte.

Qual o maior erro nos casos de feminicídio? É dizer para mulher assim: separa, porque você não se separa? Quando o agressor percebe que ele vai perder o controle sobre a vítima, é quando o agressor exagera as agressões e acaba ocorrendo a morte. Então o conselho para uma mulher com suspeita de violência doméstica, procure por um serviço qualificado, em Piracicaba temos a Rede de Proteção a Mulher temos a assistência social, tem o Conselho Tutelar se os filhos também estão sendo agredidos, porque a simples presença do policial, pode inibir a ação naquele momento, mas se a mulher não denuncia, não temos o que fazer, e ela não denuncia porque não quer que o marido seja preso. Ela tem dúvidas, e se ele for preso quem vai prover a casa, no caso do marido ser o único provedor do lar, entende como é uma questão complexa. Então a estratégia é trabalhar em rede, com agilidade, não adianta o policial passar a informação, e ter que fazer ofícios, vai demorar muitos dias para chegar a ponto final, então com o trabalho em rede o trabalho é mais ágil e mais eficaz.

Como é ser a primeira mulher comandante do 10º Batalhão? É um batalhão muito importante que congrega quase que a região metropolitana de Piracicaba, são na realidade 11 municípios, é uma região importante no ponto de vista econômico, no posto de vista de estratégia no estado, além de ser bem localizado entre várias regiões importantes como Campinas, Sorocaba, Ribeirão Preto. Para mim é motivo de muito orgulho e satisfação, já tinha trabalhado em Piracicaba, por 4 anos, vim para cá por uma decisão pessoal, fui transferida, era da região de Presidente Prudente, e por uma questão realmente pessoal, nós escolhemos Piracicaba para morar, meu marido já estava vindo para Piracicaba, trabalhei por quatro anos aqui, depois tive uma pausa de nove meses devido a minha promoção, fui para São João da Boa Vista uma região fantástica, mas estou voltando para casa, porque moro em Piracicaba, então é motivo de orgulho duplamente, primeiro por estar em casa e segundo por ser a primeira mulher a comandar o batalhão. Nós temos na Polícia Militar muitas mulheres que desempenham inúmeras funções, não temos nenhuma restrição em missões, não existe missão exclusiva para homens ou para mulheres, temos mulheres que pilotam aeronaves, que trabalham em transporte médico, no choque, que fazem negociação de reféns, no Bombeiros, enfrentando as maiores riscos no resgate e incêndio. Na realidade espero que eu abra caminho para outras mulheres tanto civis como militares que elas tenham despertado o desejo de ascender na carreira e também ocupar os postos de comando. Não há competição entre homem e mulher na Polícia Militar, existe sim o complemento, é a receita de sucesso, temos que respeitar a qualidade de cada um, é isso que vou fazer no meu comando.

Muitas crianças sonham em ser policial militar, quais são as ações sociais que a PM realiza? Ser policial militar é uma vocação, é fazer pelas pessoas aquilo que ninguém faz, a gente sai de casa sem saber se vamos voltar, e não importa quem está do outro lado precisando da nossa ajuda, não importa classe social, time do coração, raça, credo, a gente sai, se preciso for vamos lutar por aquela vida, fazemos o resgate, o salvamento, uma prisão importante, sempre para resguardar a pessoa. Pra nós ver que crianças e jovens tem o desejo de ser policial militar, significa que ainda está acesa aquela chama, é como se fossemos heróis, ser referência para uma criança é uma responsabilidade enorme, ser um exemplo positivo é muito bom. Hoje em dia, nossas crianças e jovens estão carentes de boas referências, então ser uma referência é motivo de muita satisfação.

Quais são os seus planos para o 10º Batalhão? Eu fiquei fora por nove meses, então o curso do batalhão vem sendo mantido, está na direção certa, eu acredito que não temos muitas mudanças a serem feitas, no ponto de vista estratégico, nossa ideia e fazer o trabalho de integração, não só com os serviços municipal, mas com toda força de segurança do município. Já temos uma parceria, queremos agora estreitar os laços, principalmente com a Polícia Civil, a Guarda Civil de Piracicaba, a Polícia Científica, Polícia Federal, Ministério Público, Judiciário. É muito importante trabalhar integrado, somos peças muito importantes no esquema de segurança, onde o beneficiado é o cidadão, a nossa ideia é continuar trabalhando nesse sentido, lembrando que na segurança passamos por uma transição muito grande devido a pandemia. Em 2020, 2021 e até um pouco de 2022, nós tivemos uma mudança de comportamento tanto nos índices criminais, como na produtividade policial, devido ao fechamento do comércio, poucas pessoas circulando nas ruas, isso realmente fez com que os números crimi-nais caíssem. Furtos em residência tivemos poucos, porque o elemento não vai assaltar uma residência com os proprietários dentro, mas agora em 2023, a tendência é que volte os números anteriores a pandemia, e temos que ter a consciência disso, por isso nós não podemos abaixar a guarda. Sempre temos que ter a atenção redobrada, temos que estar atentos para deixar os números mais baixos possíveis.

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