COM A BOLA TODA

‘Dou instruções para o meu time e muita gente diz que eu tenho espírito de liderança'

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 5 min
Alessandro Maschio/JP
As meninas treinam no campo do Jaraguá em busca de um futuro brilhante no futebol
As meninas treinam no campo do Jaraguá em busca de um futuro brilhante no futebol

“Percebo que imponho autoridade em campo. Dou instruções para o meu time, falo o que tem de fazer e muita gente diz que eu tenho espírito de liderança. Por eu ser forte e alta, já um certo espírito de liderança”.

A frase acima poderia ser perfeitamente de um jogador de seleção ou com passagens por grandes clubes. Mas é da pequena Julia, zagueira de apenas 12 anos, que impressiona nas palavras e sabe o que quer quando está dentro das quatro linhas. 

Ela é uma das cerca de 50 meninas que participam do projeto do time feminino do Caldeirão, que, em parceria com a Selam (Secretaria de Esportes, Lazer e Atividades Motoras), procura meninas talentosas com a bola no pé no campo do Jaraguá.  

Julia conta que começou a dar os primeiros passos no futebol junto com o período de alfabetização escolar, entre os seis e sete anos. “Eu comecei brincando no campinho de areia. Aí, eu comecei a pegar paixão pelo futebol. E meu primo já jogava futebol. Acho que peguei essa paixão por ele.”

O espírito de liderança da pré-adolescente vem da própria personalidade forte que tem, mas também de seu grande ídolo, o zagueiro Thiago Silva, do PSG e da Seleção Brasileira. “Ele ajuda muito o time e sempre está atento às jogadas”, elogia. 

A menina já tem traçada a próxima meta, depois de deixar o Caldeirão e o campo irregular do Jaraguá. “Se Deus permitir, eu me vejo jogando profissionalmente, fora ou dentro do país mesmo”, projeta. E se o futebol não der certo?: “Tem de ter segundo plano, claro!”, responde Julia, que também pretende fazer faculdade de Educação Física.

GÊMEAS

As irmãs gêmeas Janaína (zagueira) e Jaqueline (meia), 16 anos, estão há cerca de sete meses no projeto e amam jogar futebol. Ambas - como quase a totalidade das meninas do projeto - sonham ser profissionais da bola um dia. “Eu consigo marcar bem e driblar também”, diz a tímida Janaína, que já procura mostrar suas qualidades. 

Mais à vontade, Jaqueline vê evolução após iniciar os treinos no Jaraguá. “Meu futebol está melhorando bastante”, contou a meia, que é fã de carteirinha do atacante Endrick, do Palmeiras. “Ele tem a mesma idade que eu tenho e já joga no profissional. É muito esforçado”, conta a meia, admirada.

A também zagueira Isabelli quer, como mesma diz, “realizar meus sonhos e jogar em times de fora, ganhar meu dinheiro e aprender mais sobre o futebol”. “Minha marcação é boa e ajudo muito minhas parceiras com passes”, conta a menina, que aprecia o trabalho do Cristiano Ronaldo e da Tamires, do Corinthians.

MARTA E FORMIGA

Durante sua estada no projeto, a atacante Beatriz espera aprender mais e mais o ofício de fazer a rede balançar. “Estou fazendo bastante gols. Não está naquele nível, mas melhorei bastante. Atacante é complicado, vive de gol; se não faz vai para o banco; tem de ter muito bom posicionamento”, falou.

Beatriz tem como ídolos a craque Marta, a ex-jogadora Formiga e a Beatriz Silva, da Seleção Brasileira. “Sonho conhecê-las e, literalmente, jogar com elas. Será um sonho muito alegre se eu conseguir”, revela.   

GOLEIROS

O projeto social do Caldeirão no futebol feminino foi retomado no final do ano passado, após superado o pico da pandemia da covid-19. Esse trabalho é feito há cerca de 10 anos, mas agora tem tudo para se consolidar. O fato de o futebol feminino ter mais visibilidade e ter maior apoio dos grandes clubes justifica maior interesse das meninas. 

No Caldeirão, o trabalho é desenvolvido pelos professores João Salles de Barros, Rodrigo Dias, Leandro Silva, que pretendem colocar neste ano o time nas principais competições da FPF (Federação Paulista de Futebol). “Está previsto um festival Sub-12 e Sub-14; depois tem o Paulista Sub-15, Paulista Sub-17, Campeonato Paulista Sub-20 e o Campeonato Paulista Adulto Livre”, enumera Leandro Silva.

Além desse calendário extenso para as meninas, elas ainda deverão também representar Piracicaba nos Jogos Regionais. 

No final do ano passado, a equipe do Caldeirão participou do Campeonato Paulista da Divisão Especial da FPF. O time não passou da primeira fase, mas fez bons jogos e representou a cidade em duelos contra a Francana, SKA Brasil, Mauaense, Pindamonhangaba e Independente de Limeira.  

E O FUTURO?

O futuro do futebol feminino é promissor. Pelo menos é essa a opinião do professor João Salles de Barros. “É um trabalho a longo prazo que já está sendo feito, principalmente com a vinda da (técnica) Pia (Sundhage), essa sueca que conhece muito o futebol feminino. Ela mudou a cara da Seleção Brasileira, dando chance para as meninas que jogam no Brasil”, opina.

O fato de as grandes equipes serem agora obrigadas a ter uma equipe feminina ajuda bastante também. “Por isso, o futebol feminino cresceu muito no Brasil nos últimos três, quatro anos; e a tendência profissionalizar cada vez”, prevê Salles. 

Apesar do bom momento do futebol feminino, uma posição, em especial, ainda preocupa Salles: a de goleiro. Segundo ele, as meninas ainda são reticentes em escolher o posto de guarda-metas. “A gente está buscando goleira e está difícil. É a posição mais complicada para se revelar atletas”, reconhece.  

 

SERVIÇO        

NÚCLEO 1 – Campo do Jaraguá (Avenida Professor Demóstenes Santos Correia, s/n) – treinos às terças, quintas e sábados, das 14h às 17h, e aos sábados, das 8h às 11h. 

NÚCLEO 2 – Campo do Jardim Tóquio (Rua Lins, número 288) – treinos às segundas e quartas, das 14h às 17h.  

INSCRIÇÕES – Abertas. Só procurar os técnicos nos dias de treino com os pais ou responsável.

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