O Jornal de Piracicaba teve acesso ao laudo técnico emitido à Prefeitura de Piracicaba sobre as condições da pedreira do Bongue. É apontado risco de desabamento e deslizamento de blocos de rochas e, por isso, a avenida Jaime Pereira seguirá interditada.
O documento, de 39 páginas e concluído em 6 de janeiro de 2023, é assinado pelo geólogo Jehovah Nogueira Júnior, um dos sócios-proprietários da Geocor Consultoria e Projetos, de Barueri (SP).
A empresa foi contratada pelo governo municipal para emitir medidas emergenciais e outras a longo prazo e definitivas ao trecho – que frequentemente registra incidentes e, no passado, em 2015 por exemplo, foi palco de acidente grave quando uma pedra imensa deslizou da antiga pedreira e atingiu um carro.
O geólogo falou com exclusividade ao JP. “O risco da pedreira é quanto aos blocos pequenos, que podem se desprender do talude e acertar carros e pedestres. Porque o talude é irregular. Se algum bloco cai e bate nessas extremidades, é possível se estilhaçar na região da avenida Jaime Pereira”, explica o geólogo.
No entanto, ele faz uma ressalva: “a estrutura toda não tem risco, não vai cair como em uma avalanche. O problema são os blocos menores. Estes sim podem se desprender”.
ESTRUTURA
O trecho da antiga pedreira do Bongue possui cerca de 700 metros de extensão e seus taludes apresentam alturas variáveis entre 35 e 53 metros. Os taludes constituem em um paredão de rocha com inclinação geral média entre 70º e 90º e encontram-se afastados da avenida Jaime Pereira por uma faixa de terreno com cerca de 40 metros de largura totalmente tomada pela vegetação – essa distância traz certa segurança ao local.
Segundo o laudo, o topo dos taludes, ao longo de praticamente toda a sua extensão, é ocupado por árvores, que contribuem para a abertura de fraturas com liberação de blocos, pois as raízes penetram e avançam pelas fraturas, com seu crescimento exercendo forte pressão, alargando as mesmas e facilitando a infiltração de água e a alteração da rocha. “A água infiltrada é absorvida por argilas expansivas eventualmente existentes que, uma vez desconfinadas pela abertura das fraturas, sofrem expansão, promovendo ou facilitandooempastilhamento da rocha e sua degradação”, cita o documento. Por isso que em épocas de chuvas contínuas como as de agora, o alerta para os riscos é maior.
“A ação dos ventos sobre as copas das árvores transmite esforços e movimento às raízes, alargando as fraturas e provocando quebras que contribuem para o empastilhamento da rocha e podem provocar desabamentos. Outro fator que contribui para a abertura de fraturas e a degradação dos taludes é aciclagem das rochas, permanentemente expostas a ciclos e alternância de períodos de insolação e resfriamento, e umedecimento e secagem”, escreveu o geólogo no documento.
A conclusão do laudo técnico é categórica: “Dada a geometria e o estado dos taludes, esses condicionantes podem gerar quedas de blocos de dimensões variadas na forma de tombamentos; desabamentos; descalçamentos e desplacamentos, além de empastilhamento e degradação contínua das rochas. Em algumas dessas ocorrências, blocos de rocha de dimensões variadas atingiram a Avenida Jaime Pereira, pondo em risco veículos e pedestres, em especial no trecho da rua Aracaju, com cerca de 200 metros de extensão, considerado mais crítico”, concluiu o geólogo.
Sobre a rua Aracaju, Nogueira Júnior disse ao JP que a via está entre as obras emergenciais que a Prefeitura deve fazer. “Tem que desviar a água dessa rua para evitar que caia no talude como uma cachoeira. A água ajuda a soltar os blocos e as raízes das árvores também”, explicou.
BLOCOS
Além da faixa de terreno que distancia a pedreira do asfalto da avenida, a estrutura conta com uma barreira construída para a retenção das pedras –aqual o laudo aponta ser “parcialmente eficiente na retenção de blocos de maiores dimensões”.
“Os riscos maiores, no entanto, estão relacionados à queda de blocos menores a partir do topo dos taludes pois estes, após se desprender, podem ricochetear no próprio talude e ser projetados para a avenida, atingindo veículos e pedestres”.
Geólogo propõe medidas emergenciais e definitivas
A conclusão do laudo técnico produzido pela Geocor Consultoria e Projetos aponta seis medidas emergências a serem executadas na pedreira do Bongue. Algumas já estão sendo aplicadas pelo governo municipal. O prefeito Luciano Almeida se encontrou na última semana com representantes da empresa e já determinou ações imediatas de segurança ao trecho.
São elas: 1) interdição total do tráfego de veículos e trânsito de pedestres em toda a extensão do trecho da antiga pedreira; 2) construção de uma tela de alambrado com 6 metros de altura, a partir do passeio público, para contenção da projeção de pequenos blocos; 3) remoção das árvores existentes no topo da estrutura; 4) desvio das águas superficiais no topo dos taludes por meio de canaletas, direcionando-as para pontos isentos ou protegidos contra infiltração, deslocamento de blocos e erosão; 5) remoção de blocos soltos, por meio de alavanca; e 6) inspeção detalhada do topo dos taludes para verificação da ocorrência de trincas, abatimentos e segurança das casas existentes.
Já como medidas definitivasaserem aplicadas, foram recomendados: 1) construção de uma viga ao longo do topo da barreira de espera, para travamento das colunas de PVC armado, transferindo rigidez ao conjunto com vistas à absorção do impacto de grandes blocos, além de sua retenção; 2) eventual retaludamento, com a construção de novas barreiras para retenção dos blocos rochosos; 3) aplicação de chumbadores com tela, eventualmente de concreto; 4) aplicação de tirantes de contenção (ancoragem de muros) nos locais potencialmente instáveis; e 5) construção de cerca de proteção e isolamento ao longo do topo e monitoramento sistemático dos taludes.