RESPEITO À ARTE

‘É como perder uma pessoa’, diz artista sobre obra depredada de Di Cavalcanti

Por Fernanda Rizzi | fernanda.rizzi@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 3 min
Claudinho Coradini/JP
Episódio ocorrido no Palácio do Planalto também deixou artistas indignados com estragos feitos às obras de arte
Episódio ocorrido no Palácio do Planalto também deixou artistas indignados com estragos feitos às obras de arte

A pintura “As Mulatas” é uma das mais valiosas e importantes obras que marcam o legado do artista modernista Di Cavalcanti, que também foi desenhista, ilustrador, muralista e caricaturista brasileiro, a partir da década de 1920. Na época, a sua arte foi um diferencial de outros movimentos artísticos, reconhecida pelas suas cores e características culturais e cotidianas do povo brasileiro.

No dia 8 de janeiro, a obra foi depredada com sete perfurações no local onde se situava: no Palácio do Planalto, considerada a peça principal do Salão Nobre, onde foi incorporada pelo presidente Collor, em 1991. Segundo o governo federal, a peça é estimada no valor de R$ 8 milhões e pode atingir até cinco vezes mais em leilões devido à sua dimensão histórica, além de ser uma peça pertencente ao patrimônio público e fora do mercado.

Além dessa obra, outras como: “Bandeira do Brasil”, de Jorge Eduardo; “O Flautista”, de Bruno Giorgi; “Galhos e Sombras”, de Frans Krajcberg; “Bailarina”, de Victor Brecheret e “Maria, Maria”, de Sônia Ebling também foram marcadas pelo ato de violência e terrorismo

O Jornal de Piracicaba procurou artistas piracicabanos e presentes na cidade para conversar sobre a necessidade de preservação à arte e o legado que os artistas deixam dentro do contexto cultural e histórico do país, muitas vezes, sem o reconhecimento da população.

“Di Cavalcante é um dos maiores pintores brasileiros e deixa um legado modernista para arte brasileira. Ele foi o artista que ilustrou o cartaz e o catálogo da Semana de Arte Moderna de 1922”, relata Bruna Caritá, coordenadora da Bauhaus Brasil e curadora das exposições artísticas que passam pelo espaço. “Em suas obras é muito comum as figuras femininas retratadas em formas cilíndricas e sensuais. O artista utiliza de uma profusão de cores com referências com a realidade de nosso povo, explorando o samba, a sensualidade da mulher eaboemia”, comenta ela.

A curadora enfatiza que a necessidade da preservação das obras vem da ampliação do conceito de patrimônio cultural garantida pela Constituição Federal de 1988, que fez com que as políticas públicas do setor cultural, a partir das últimas duas décadas do século 20, se adequassem às novas visões de preservação do conjunto de bens culturais materiais e imateriais no país, especialmente em referência às identidades coletivas do nosso povo.

Bruna também diz que há dois tipos de visões para a preservação eorestauro das obras de arte: “uma visão mais conservadora no sentido de manter, preservar e facilitar o acesso, e a visão de projetos desenvolvimentistas, de modernizar, transformar e valorizar a obra de arte no contexto do seu tempo atual. Independente dessas duas visões distintas,o restauro é uma atividade que requer muito preparo técnico a partir de um forte conhecimento teórico e histórico”, explica.

Para o artista plástico Natal Gonçalves, professor da Esalq/USP e membro da diretoria da Apap (Associação Piracicabana dos Artistas Plásticos), é uma situação que dói ver a obra de outros artistas sendo depredadas. “Ele gastou horas e a vida inteira para a sua criação, é um resumo de sua vida. Então, para nós artistas, é como uma dor muito forte. É como a perda de uma pessoa”, disse.

Gonçalves explica que a situação é agravante, por mais que a obra possa ser restaurada jamais será como era, podendo perder a sua essência. “Na época, o tecido mais usado era linho e começa a existir o problema do suporte da tela. Na idade média usava muito madeira, então as pinturas eram feitas na madeira e já havia a preocupação de isolar a pintura. No caso das obras de Di Cavalcanti, dá para trabalhar se os buracos forem resolvidos. Teria que ser realizado uma trama por trás para poder isolar e pintar em cima. Essa é a dificuldade. Isso também faz com que o valor da obra caia, pois houve interferências”, explica ele sobre a possibilidade de restauração.

“Para mim, foi muito importante conhecer as obras de Di Cavalcanti. As pessoas podem falar de Picasso ou outros artistas, mas o Di Cavalcanti manteve a sua identidade brasileira, pode ter tido alguma influência, mas se manteve”, finaliza Gonçalves.

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