'A SOMBRA'

Piracicabano marca Pelé em sua despedida do Santos, em 1974: 'Ele foi feito por Deus'

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 4 min
Arquivo pessoal
Pauli (número 5) na histórica noite com Pelé: 'Deveria ter pedido a camisa dele. Hoje valeria meio milhão'
Pauli (número 5) na histórica noite com Pelé: 'Deveria ter pedido a camisa dele. Hoje valeria meio milhão'

Foram apenas 20 minutos, mas o suficente para o volante José Pauli, um piracicabano que atuava na Ponte Preta, entrar para a história. Então com apenas 18 anos, o volante do time campineiro recebeu a missão de acompanhar "como uma sombra" o maior do futebol naquela noite de 2 de outubro de 1974, dia em que Pelé se despedia do Santos, em jogo válido pelo Campeonato Paulista daquele ano.  

Quando o jogo parou, aos 20 minutos do primeiro tempo, o eterno camisa 10 do Alvinegro Praiano se ajoelhou no meio-de-campo, a poucos metros de seu marcador, que, assim, "saiu na foto e nas imagens" da imprensa do mundo inteiro. "Eu joguei contra o Pelé só essa partida. Eu estava com 18 anos e o Pelé com 34. Foi uma festa naquele dia; parou o estádio... Ele era acima da média", diz Pauli.

"Nosso time era bom, mas ficou meio 'abobado' com tudo aquilo. Joguei só 20 minutos contra ele. Deveria ter pedido a camisa dele. Hoje valeria meio milhão. Mas nem tive essa ideia, era muito inocente, estava começando. Mas tive a honra de marcar o Pelé. Ele foi feito por Deus. Tinha um dom especial", testemunha.

Pauli revela a conversa que o rei teve com ele durante o jogo. "Ele me chamou de lado e disse: 'garoto, hoje é minha despedida, mas eu não vou te humilhar; só vou fazer duas ou três jogadas para poder sair. E se vocês ganharem a partida, eu vou torcer por vocês na final'. A Ponte precisava de um empate para chegar à decisão contra o Palmeiras, mas a gente perdeu do Santos por 2 a 0", recorda.

INÍCIO

José Pauli, atualmente com 68 anos, nasceu em Salmorão, cidade paulista que fica na região de Osvaldo Cruz, mas veio para Piracicaba com apenas sete anos. Começou a jogar bola no colégio Dom Bosco, junto com Gatãozinho e Paulinho Massariol, meninos que viriam, anos mais tarde, a se tornar (assim como o próprio Pauli) jogadores do XV de Novembro.

Aos 14 anos, o volante foi treinar no Corinthians, onde ficou apenas por um ano. Depois, desembarcou no Palmeiras, aos 16, onde também ficou somente por uma temporada, antes de chegar ao XV de Novembro. "Eu joguei no XV de Piracicaba em 1973, com 17 anos, com o presidente Rípoli. Eu joguei umas cinco partidas somente. O passe era meu e meu pai me levou para a Ponte Preta. A partir daí, segui a minha carreira" narra. Foi logo após o Alvinegro, na Macaca Campineira, onde em 1974 ele jogou contra o Santos de Pelé.

Pauli passou ainda por Saad, Portuguesa, São Bento, Blumenal e Pinhalense, onde parou precocemente, aos 30 anos. "Não queria mais jogar bola. Tinha chance de jogar em time grande, mas não consegui; desanimei. Futebol tem de ter um pouco de sorte também", conta. "Era difícil ter chance em time grande por que tinha muito volante bom: Dudu no Palmeiras, Chicão no São Paulo...", enumera.

Ele não teve nenhuma conquista na carreira futebolística, mas levou o prêmio de melhor volante do Campeonato Paulista de 1974. "Não ganhei nenhum título; fui duas vezes vice-campeão; a minha estrela não brilhou", brinca. "Mas também nunca caí para a segunda divisão", finaliza.

ONTEM E HOJE
O ex-volante José Pauli lembra com paixão esse período do esporte brasileiro. E faz um paralelo com o que é praticado agora. "A diferença do futebol antigo para o atual que é antigamente se jogava para frente. Não tinha essa de tocar para o goleiro. Hoje, os volantes só marcam e não tem mais meia-esquerda no Brasil", critica.

Apesar de não ter passado por times de muita torcida, ele não lamenta. Pelo contrário: "Peguei a época mais importante do futebol brasileiro, época do Ademir da Guia, do Pelé, do Rivelino, ZIco, Sócrates... época de ouro. Marquei todos esses jogadores...", conta, com orgulho.

Pauli - que é formado em educação física, mas não exerce a profissão -  também aproveitou para dar um "pitaco" na Seleção Brasileira e  detonou o técnico Tite. "Não serve para a seleção. Faz média com a CBF. Levou (para a Copa-22) um jogador de 38 anos (Daniel Alves) para passear na Europa. Ele 'tá' de brincadeira", reclama.

Atualmente aos 68 anos, o ex-jogador de futebol ainda trabalha - como vendedor -, mas afirma que já cumpriu sua principal missão: criar e formar seus quatro filhos: "Um filho é professor da Unicamp (José Pauli), outra é formada na USP em Enfermagem (Maria Cristina), a outra farmacêutica (Cibelle) e a outra é engenheira ambiental (Mirella). Todos estão muito tranquilos. Não precisam mais de mim", finaliza. 

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