TRADIÇÕES

Dia 21 de março se torna mais uma data importante para a comunidade negra

Por Fernanda Rizzi | Jornal de Piracicaba
| Tempo de leitura: 3 min
Claudinho Coradini/JP
No exterior, a data já é uma conquista em alusão ao Massacre de Shaperville; agora ganha significado no Brasil
No exterior, a data já é uma conquista em alusão ao Massacre de Shaperville; agora ganha significado no Brasil

Na última sexta-feira (6), foi publicado no Diário Oficial da União, a aprovação da Lei nº 14.519 pela Câmara dos Deputados e encaminhada à sanção presidencial, no qual institui o dia 21 de março como o Dia Nacional das Tradições das Raízes de Matrizes Africanas e Nações do Candomblé.

A lei sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi escolhida para a mesma data referente ao Dia Internacional contra a Discriminação Racial, marco estabelecido pelas ONU (Nações Unidas), em alusão ao conhecido Massacre de Shaperville, ocorrido em 1960, na África do Sul. A ação reuniu cerca de 20 mil sul-africanos em protesto contra a determinação de limitar os locais onde a população negra poderia circular. Em resposta à manifestação que era considerada pacífica, militares atuaram violentamente, no qual 69 pessoas foram assassinadas e 186 feridas, considerado o ato racista mais violento da história. Com essa nova data estabelecida para a conscientização negra, o Jornal de Piracicaba conversou com representantes da comunidade negra em Piracicaba para falar sobre a iniciativa.

Elaine Teotonio, idealizadora do Instituto Afropira, explica que as datas são muito importantes para o aproveito de trazer a conscientização. “Eu sempre costumo dizer que nós celebramos, que também é uma conquista, como também são datas para trazermos reflexões”, conta ela. “A data escolhida é muito importante, também Dia Internacional contra a Discriminação Racial, que pessoas estavam em um protesto pacífico, onde queriam acabar com o apartheid (cartão que mostrava onde os negros poderiam circular), e foram recebidos de forma brutal”, conclui.

“O Afropira já realiza ações na data paraocombate à discriminação e, agora, com essa nova pauta teremos novidades”, comenta Elaine.

Pai Ronaldo Almeida, sacerdote da comunidade de Umbanda – religião de origens africanas – diz que para o povo de santo é importante. “É esse poder de fala que precisamos ter para bater os nossos tambores e cultuar os nossos orixás. Isso é uma porta aberta para diminuir o preconceito e acabarmos com a discriminação religiosa, que a cada dia, nós ouvimos dizer que terreiros de Umbanda e do Candomblé são invadidos, apedrejados ou saqueados. Em Piracicaba estaremos nas ruas comemorando essa Lei para mostrar para a sociedade piracicabana que conviver com diversas religiões é possível”, enfatiza o pai de santo.

Júnior Filogenio, historiador e membro do Batuque de Umbigada – tradição afro-brasileira típica do Oeste Paulista – comenta que essa proposta é muito necessária porque valoriza e reconhece uma contribuição da cultura afro-brasileira para a religiosidade e marca o reconhecimento nacional para a cultura, tecnologia e a ciência no Brasil. “Também esperamos que essa data auxilie no combate ao preconceito religioso, lugar que ainda temos muitos fenômenos de intolerância religiosa e que são marcados pelo racismo. Lembrando que a própria noção da espiritualidade, que compõe as crenças resistentes no ocidente, também tem as suas origens e passagem significativa em solo africano. O próprio cristianismo tem formas muito antigas na África, como a presença do próprio Santo Augustinho, que foi um grande filosofo e teólogo africano. Boa parte da teologia cristã tem fundamento de pessoas que estiveram no continente africano”, realça.

“O Candomblé traz legados culturais antigos e que são preservados de uma maneira muito consistente e, que, permitiram outras formas de religiosidade recriadas no Brasil, que são as chamadas de afro-brasileiras”, finaliza.

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