PERFIL

'Nos minutos finais eu só pensava: 'Meu Deus, o XV está sendo campeão!''

Por Erivan Monteiro | erivan.monteiro@jpjornal.com.br
| Tempo de leitura: 7 min
Alessandro Maschio/JP
A jornalista Millena Pscheidt é catarinense e desde criança ama o futebol
A jornalista Millena Pscheidt é catarinense e desde criança ama o futebol

A jornalista Millena Pscheidt, 24, é catarinense e desde criança ama o futebol. Por influência da família, se tornou são-paulina na infância, mas sua grande paixão sempre foi o jornalismo esportivo. Na oitava série, ainda adolescente, já sabia que trabalharia nesta área. "É algo inexplicável", diz. Foi para a faculdade, se formou com Comunicação Social no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, e partiu em busca do seu sonho.

Trabalhou no Marcílio Dias/SC e no Confiança/SE antes de chegar ao XV de Novembro em abril deste ano, onde viveu a emoção do seu primeiro título. "Nos minutos finais do jogo em Marília, eu só olhava para o lado e pensava: 'Meu Deus, o XV está sendo campeão!'", lembrou a jornalista, ainda emocionada.

Em meio a tantas notícias boas, Millena guarda algumas dificuldades pelas quais já passou por ser jovem e mulher em um ambiente ainda majoritariamente masculino. "Muitas vezes, você tem de se blindar e continuar fazendo o seu trabalho", conta ela, que tem como curiosidade o fato de ser trigêmea - seus irmãos são o advogado Eduardo Luiz Pscheidt e a professora Sabryna Pscheidt. Abaixo, os principais trechos a entrevista: 

Conte um pouco sobre sua trajetória profissional? Eu comecei a faculdade de Jornalismo em 2016, na Univale (Vale do Itajaí-SC) e lá eu concluí a minha faculdade em 2020, no meio da pandemia. Foi um desafio bem grande, mas eu me sai superbem, graças a Deus. No meio dessa minha formação, eu acabei me arriscando em várias coisas para eu ter umas 'cartas na manga' em termos profissionais. Eu comecei a trabalhar na área em um estágio de comunicação no Porto de Itajaí. Eu entrei sem saber nada sobre navio e saí sabendo muita coisa. Fiquei lá um ano. Depois, fui trabalhar em um jornal impresso que é um dos maiores da região do Itajaí. 

Mas o seu sonho mesmo era trabalhar com esportes? Eu comecei no Jornalismo para trabalhar com o futebol. Eu sempre tive esse objetivo. Desde pequena, com meus cinco, seis anos, eu comecei a gostar de futebol. É algo inexplicável. Quando eu estava na oitava série eu já sabia que ia fazer Jornalismo e iria trabalhar com esporte. Não sabia como iria fazer, mas o meu sonho era esse.

E ao finalizar a faculdade, você foi atrás do seu objetivo... Sim. No começo, eu trabalhei como voluntária mesmo - em sites e no Futebol nas quatro linhas (canal no youtube) - para ter uma oportunidade. Nisso, consegui entrevistar jogadores como David Neres, Zé Roberto, D'Alessandro, Gustavo Scarpa...Eu fui ganhando a minha experiência dessa forma. Depois, surgiu uma oportunidade de um estágio no Marcílio Dias (clube de Itajaí). Eu fiquei como estagiária até ser contratada. Depois, eu fui indicada para o Confiança (clube de Sergipe), no ano passado. Foi muito importante eu ter mudado de estado, de região. Foi uma mudança muito grande, para o outro lado do país. Eu fiquei até abril deste ano, quando surgiu a oportunidade para eu vir para cá. 

E como foi o convite para trabalhar no XV? Eu já conhecia o XV porque eu acompanho muito o futebol paulista. E como eu estava trabalhando com o futebol, havia muitos jogadores que trabalharam comigo e estavam aqui na época ou que já tinham passado por aqui. Então, o Marco Gama (ex-gestor de Futebol) me indicou. Desde então, eu estou aqui.

Como você se vê trabalhando em um ambiente ainda majoritariamente masculino. Foi muito complicado para você? Quando eu era só torcedora, eu naturamente já via que a maioria dos torcedores são homens. Mas internamente, no clube, eu fui descobrindo no dia a dia mesmo. Na verdade, a gente tem de ter a mesma cabeça que o jogador quando está em campo, que não deve se influenciar pelo que vem de fora. Lá no Confiança, por exemplo, nos jogos no interior, a torcida começava a falar muitas coisas... Entre aspas elogios, que na verdade não são elogios. Coisinhas e piadinhas até mesmo do banco de reservas do time adversário. Mas você tem de fingir que nada está acontecendo. Muitas vezes, você tem de se blindar contra isso e continuar fazendo o seu trabalho.

É muito complicado isso... Como conseguiu superar? No começo, você chega a duvidar de sua capacidade. Eu comecei nova, com 20 anos e hoje eu tenho 24 e já estou no meu terceiro clube. São várias coisas que você tem de provar. Muitos diziam: 'De onde veio essa aí' ou 'O que essa está fazendo aqui'. Enfim, tem de mostrar para as pessoas por que eu estou aqui. Eu sei que o meu trabalho está sendo visto e muitas pessoas sabem o que eu faço. Mas foi difícil chegar até aqui.

Você já teve de se impor para que as pessoas a respeitassem como profissional? No Marcílio Dias sim. Lá, muita gente acessa o campo pela sala de imprensa. Aí, em um treino à tarde, uma pessoa entrou e foi querendo passar para o campo. Só que nesse dia não podia. Eu expliquei que estava tendo treino e não podia entrar. Ele ergueu a voz comigo e disse 'você não sabe com quem está falando, eu sou fulano...'. 

Você acha que, pelo fato de ser mulher e jovem, ajudou essa pessoa a querer passar por cima de todas as determinações do clube? Com certeza. Porque na época, na comunicação do Marcílio Dias tinha mais dois meninos. Um que era um pouco mais velho e outro que era mais ou menos da minha idade. Se fosse um dos dois, eu tenho certeza de que ele não iria erguer a voz como ele ergueu comigo. Eu sempre tento  tratar as pessoas com a maior educação e simpatia possivel porque é o meu jeito. Mas, vamos com calma porque tudo tem um limite.       

Apesar de tudo isso, o seu trabalho tem sido reconhecido. Como é isso para você? Acho que pelo fato de ser muito comunicativa, proativa, de estar sempre inovando, de ter conteúdo todos os dias. O jeito que eu trabalho acaba tendo resultado positivo no que todo mundo está vendo por ai, tanto pela imprensa da região, quanto pelos os clubes que acabam falando comigo. Eu acho que é mais fruto disso.

Diante dessa sua experiência, qual o conselho que você daria para as meninas que estão começando no jornalismo esportivo? O recado que eu dou é que fácil não é. Eu não posso dizer que é um conto de fadas por que não é.  Há os momentos muito bons, quando você ganha um título, quando você tem uma vitória muito legal, mas no dia a dia é muito difícil, tem muitas barreiras e você tem de construir a sua caminhada encima de muito estudo, de muito interesse e tem que correr atrás. Eu comecei cedo por isso que estou aqui no XV.

Agora, voltando ao XV, você chegou aqui em abril e, em sua primeira competição, já ganha um título. Você é 'pé quente!' Como foi essa emoção? Nos minutos finais do jogo em Marília, eu só olhava para o lado e pensava: 'Meu Deus, o XV está sendo campeão!'. E para mim, isso era um sonho também. Com o Marcílio Dias, eu fui vice-campeã da Copa Santa Catarina. Mas você ser campeão é coroar o trabalho que foi feito. E você vendo o dia a dia, todo muito estava desempenhando muito bem. O Douglas, o Cléber, o Juninho, os meninos em campo... Virou meio que uma família. Aqui no treino, eles brincando comigo que queriam foto... E por eles serem praticamente da minha idade e com uma trajetória parecida, a gente acabou sendo muito amigo, muito família. Então, a gente estava sonhando muito com isso. Assim, como foi o meu primeiro título, foi o primeiro título da maioria deles. A gente tinha muito de um ajudar ao outro.

E para o ano que vem? Como estão os planos para o XV na área da comunicação? Eu assumi a assessoria no meio da competição. Mas no ano que vem, eu vou conseguir fazer um trabalho desde o começo. Eu quero mudar algumas coisas. Vamos desenvolver a "XVTV" porque eu gosto muito dessa proposta. Eu comecei a fazer alguma coisa, mas depois com a saída do Tuchê (antigo assessor) eu não consegui mais fazer. Mas para 2023, a TV vai voltar. 

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