TRANSFORMAÇÃO

Oficina de pintura ajuda moradores em situação de rua a descobrir sua identidade

Por Fernanda Rizzi | Jornal de Piracicaba
| Tempo de leitura: 3 min
Alessandro Maschio/JP
Participantes se expressam por meio das pinturas
Participantes se expressam por meio das pinturas

Às quintas-feiras ganharam novas cores para os moradores em situação de rua, dependentes químicos e trecheiros que passam pelo Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua), serviço da Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de Piracicaba). O projeto “Bem-Te-Vi” oferece oficinas de pintura e narrativa, além de um novo significado para os dependentes químicos, que representa o pássaro da manhã, que com seu canto, lembra a todos que o dia está nascendo.

O projeto voluntário surgiu a partir de duas histórias de superação como uma recuperação mútua com o encontro de dois ex-adictos, os artistas Rafael Gonzaga e Jefferson Margutti, no Núcleo de Acolhimento Califórnia, conhecido como casa de passagem.

Irmanados nos Narcóticos Anônimos e como um dos temas do programa da entidade é “se doar como parte da recuperação”, ambos pensaram que, como parte de suas recuperações, poderiam levar à arte para as pessoas que estavam sofrendo com adicção ativa, dependência química e excesso com bebidas alcoólicas.

“Nesse processo de estarmos limpos e sóbrios, pensamos que seria interessante para a nossa própria recuperação levar o nosso conhecimento da arte para as pessoas em situação de rua porque é uma via de mão de dupla. Ao mesmo tempo em que eu estou alimentando eles espiritualmente com a arte, eles também me alimentam com a arte. É uma terapia conjunta”, conta Gonzaga.

“Aqui em Piracicaba encontramos pessoas extremamente capazes de construir imagens, coisas bonitas, fazer pinturas com potências artísticas. Às vezes a pessoa que olha o seu carro na rua tem uma sensibilidade artística que você nem imagina”, completa.

Durante as oficinas, os participantes ficam livres para pintar as telas de papelão e recebem a oportunidade de expressarem as suas narrativas e as obras têm tido trabalhos surpreendentes. “Temos uma estratégia de perguntar como está o dia deles e é neste momento que eles narram o cotiado na pintura. Isso faz com que eles possam encontrar a sua identidade”, explica Rafael.

As tintas e os pincéis são doações dos próprios ministrantes, mas como os resultados têm se tornando muito bons, Rafael conta que a intenção é buscar apoio para emoldurar as obras e, posteriormente, doá-las para o próprio Centro Pop e realizar exposições para que o público piracicabano possa prestigiar.

Ricardo Rodrigues da Silva Filho, de 39 anos, é um exemplo disso. Teve contato com a arte desde os seus 10 anos, mas afirma que no momento, a arte foi como um livramento para ele porque as pessoas o admiram e passou a ter prazer de fazer o trabalho. “A arte faz as pessoas refletirem, pensarem onde elas estão e para onde irão. Eu tenho isso comigo”, relata.

Sua inspiração para desenhar é a situação triste em ver outras pessoas na rua. “Eu já fui morador de rua. Hoje eu tenho o meu cantinho e às vezes sou falho também, eu observo e consigo ver que sai de lá e eu gostaria de inspirar alguém por meio da arte”, completa ele.

O artista fez uma obra do próprio Rafael Gonzaga. “Eu simpatizei com ele e fiz o desenho. Ele me abraçou e ficou muito feliz”, finalizou.

Aos 20 anos, Lucas Velasco após um problema familiar, resolveu seguir a vida no aprendizado e vem se descobrindo com a pintura. “Eu já tinha feito algo antes, mas não de pintura. Estou começando aqui e estão me ensinando”, comenta o jovem. “Minha obra é basicamente tudo, o universo, tudo o que passou na minha história, é praticamente um estudo que eu tenho a caminhar”, relata.

O Lucas não se limita apenas à arte de pintar, mas da poesia também. “Eu faço muita poesia e ainda gosto de filosofia”, disse.

Lucas Velasco focado em produzir sua obra
Lucas Velasco focado em produzir sua obra
Obras feitas pelos participantes da oficina
Obras feitas pelos participantes da oficina
Rafael Gonzaga, um dos idealizadores do projeto
Rafael Gonzaga, um dos idealizadores do projeto "Bem-Te-Vi"

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