Às quintas-feiras ganharam novas cores para os moradores em situação de rua, dependentes químicos e trecheiros que passam pelo Centro Pop (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua), serviço da Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de Piracicaba). O projeto “Bem-Te-Vi” oferece oficinas de pintura e narrativa, além de um novo significado para os dependentes químicos, que representa o pássaro da manhã, que com seu canto, lembra a todos que o dia está nascendo.
O projeto voluntário surgiu a partir de duas histórias de superação como uma recuperação mútua com o encontro de dois ex-adictos, os artistas Rafael Gonzaga e Jefferson Margutti, no Núcleo de Acolhimento Califórnia, conhecido como casa de passagem.
Irmanados nos Narcóticos Anônimos e como um dos temas do programa da entidade é “se doar como parte da recuperação”, ambos pensaram que, como parte de suas recuperações, poderiam levar à arte para as pessoas que estavam sofrendo com adicção ativa, dependência química e excesso com bebidas alcoólicas.
“Nesse processo de estarmos limpos e sóbrios, pensamos que seria interessante para a nossa própria recuperação levar o nosso conhecimento da arte para as pessoas em situação de rua porque é uma via de mão de dupla. Ao mesmo tempo em que eu estou alimentando eles espiritualmente com a arte, eles também me alimentam com a arte. É uma terapia conjunta”, conta Gonzaga.
“Aqui em Piracicaba encontramos pessoas extremamente capazes de construir imagens, coisas bonitas, fazer pinturas com potências artísticas. Às vezes a pessoa que olha o seu carro na rua tem uma sensibilidade artística que você nem imagina”, completa.
Durante as oficinas, os participantes ficam livres para pintar as telas de papelão e recebem a oportunidade de expressarem as suas narrativas e as obras têm tido trabalhos surpreendentes. “Temos uma estratégia de perguntar como está o dia deles e é neste momento que eles narram o cotiado na pintura. Isso faz com que eles possam encontrar a sua identidade”, explica Rafael.
As tintas e os pincéis são doações dos próprios ministrantes, mas como os resultados têm se tornando muito bons, Rafael conta que a intenção é buscar apoio para emoldurar as obras e, posteriormente, doá-las para o próprio Centro Pop e realizar exposições para que o público piracicabano possa prestigiar.
Ricardo Rodrigues da Silva Filho, de 39 anos, é um exemplo disso. Teve contato com a arte desde os seus 10 anos, mas afirma que no momento, a arte foi como um livramento para ele porque as pessoas o admiram e passou a ter prazer de fazer o trabalho. “A arte faz as pessoas refletirem, pensarem onde elas estão e para onde irão. Eu tenho isso comigo”, relata.
Sua inspiração para desenhar é a situação triste em ver outras pessoas na rua. “Eu já fui morador de rua. Hoje eu tenho o meu cantinho e às vezes sou falho também, eu observo e consigo ver que sai de lá e eu gostaria de inspirar alguém por meio da arte”, completa ele.
O artista fez uma obra do próprio Rafael Gonzaga. “Eu simpatizei com ele e fiz o desenho. Ele me abraçou e ficou muito feliz”, finalizou.
Aos 20 anos, Lucas Velasco após um problema familiar, resolveu seguir a vida no aprendizado e vem se descobrindo com a pintura. “Eu já tinha feito algo antes, mas não de pintura. Estou começando aqui e estão me ensinando”, comenta o jovem. “Minha obra é basicamente tudo, o universo, tudo o que passou na minha história, é praticamente um estudo que eu tenho a caminhar”, relata.
O Lucas não se limita apenas à arte de pintar, mas da poesia também. “Eu faço muita poesia e ainda gosto de filosofia”, disse.