Em um Brasil prestes a realizar eleições majoritárias, o bicentenário da Independência divide opiniões. “Cabe profunda reflexão sobre os erros que impediram a construção de um país mais próspero. As causas são múltiplas, sintetizadas nos itens que compõem o Custo Brasil. Mas, há um fator com grande peso: a falta de uma política eficaz para o fomento da indústria. Regredimos nos últimos 40 anos. O setor, que chegou a representar quase um quarto do PIB, participa hoje com 11,3%, embora sua carga tributária seja um terço do total”, diz Rafael Cervone, empresário e presidente do Ciesp. José Machado, ex-prefeito de Piracicaba, cita “desindustrialização” ao analisar se o Brasil é mesmo soberano e independente. “Nossa elite dominante se comporta a partir dos seus interesses exclusivos, pouco importando se esses interesses estão subalternizados à hegemonia estrangeira e à lógica do mercado, em detrimento dos interesses genuinamente nacionais. A desindustrialização do País e o retorno gradativo do predomínio primário exportador representa o abandono de qualquer projeto nacional digno desse nome. Por outro lado, nossa diplomacia precisa fazer jus ao seu reconhecido profissionalismo e independência e voltar a exibir uma postura altiva e ativa no contexto internacional”, diz.
Em artigo enviado ao JP, o empresário questiona: “Independência ou sorte?”. “Temos sorte, pois possuímos um dos maiores territórios do mundo, fartos recursos naturais e terras agricultáveis, a maior reserva hídrica, biodiversidade, petrpóleo e gás, ótimo clima e uma grande população, resiliente e disposta a enfrentar desafios. A fortuna, porém, não baterá sempre na porta e não é suficiente para a conquista do desenvolvimento. Por isso, para gerar mais empregos, inclusão e renda, precisamos de uma política industrial subsidiada pelo fomento de P&D, com linhas especiais de crédito, incentivos à produção e regime tributário indutor de investimentos”, cita.
Já Machado vê poucos motivos a se comemorar hoje. “O Brasil é um País que exibe uma das maiores desigualdades sociais do planeta e isso nos envergonha. Em dois séculos de independência não fomos capazes de extinguir a fome e a miséria e diminuir a distância entre ricos e pobres. E, de quebra, convivemos com um odioso racismo estrutural que nos divide como sociedade e outras iniquidades pavorosas”. Cervone, na sua área, aponta o caminho para uma “independência plena”. “Significa melhor educação, cultura e saúde, moradias dignas, saneamento básico, renda elevada e mais bem distribuída, bem-estar social e autonomia científico-tecnológica”.
O bicentenário da Independência abre um caminho para discutir a manutenção na nossa jovem democracia? Machado responde. “Esse é um dos maiores desafios. Há a necessidade imperiosa da criação de um polo democrático amplo, que vai da esquerda à direita civilizada”.
Nani Camargo
Especial para o JP
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