Historiografia brasileira do século 19 foi crítica a passado luso: ‘herança maldita’, explica professor

Por Laís Seguin |
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Professor Armando Alexandre dos Santos, do IHGP, disse que 7 de setembro foi “virar de página”

A análise do passado, dentro do processo de independência do Brasil, é dura com Portugal. Quase toda a historiografia brasileira do século 19 tendeu a ser crítica do passado luso, segundo o professor de história e filosofia Armando Alexandre dos Santos, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba, da Academia Piracicabana de Letras e do Círculo Monárquico Barão de Rezende.

“O 7 de Setembro de 1922 marcou um virar de página na trajetória da nação brasileira. Teoricamente, todo virar de página pode se dar de duas maneiras fundamentais: ou pela continuidade ou pela ruptura. O processo de Independência do Brasil teve, é claro, elementos de ruptura em relação a Portugal, mas se deu sobretudo na linha da continuidade – continuidade na Fé, na Língua, na forma de governo, na Dinastia, na tradição unionista da Monarquia lusa”, explica.

“Em 1822, o Brasil se separou de Portugal e passou a conduzir seu próprio destino. Era um adolescente que chegava naquela fase crítica em que briga com os pais, diz uns desaforos e sai de casa, decidido a andar com as próprias pernas. Depois que o Brasil se separou de Portugal, a historiografia do período imperial tendeu a fixar em 1822 o “ano zero” da nova nação. O que vinha antes, ficava relegado a uma espécie de pré-história, e todos os erros e falhas do período imperial, todas as lacunas e carências, tudo era culpa do passado”, cita o professor.

Mas Portugal, de fato, explorou o Brasil? Tivemos todo o nosso ouro roubado? Foi impedido nosso progresso como nação? “Essa foi a linha ideológica prevalecente da chamada historiografia liberal do século 19. Já no século 20, a historiografia brasileira tendeu a ver com olhar mais compreensivo os primeiros 322 anos de nossa história, que foram, na realidade, um longo e fecundo período de gestação, de crescimento e de amadurecimento, até a emancipação. Que houve erros e injustiças na administração portuguesa, é claro que houve. Que esses erros influenciaram o desenvolvimento posterior do País, é claro que influenciaram. Mas não se pode sempre atribuir a uma espécie de herança maldita todas as culpas e mazelas de um país que há duzentos anos tem vida própria e já dispôs de tempo e de recursos mais do que suficientes para corrigir o que devia ser corrigido”, opina. E ele vai além. Cita que a perspectiva do tempo permite avaliar os males que foram evitados graças aos rumos tomados no período colonial”. “Se em vez de um sistema agrário-patriarcal e multirracial descrito por Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala e em Sobrados e Mocambos, tivéssemos sido colonizados por mercantilistas ingleses ou holandeses no espírito descrito por Max Weber, o que seria do Brasil? Existiria o ‘homem cordial’ de que falou Sérgio Buarque de Holanda? Ou viveríamos, como os Estados Unidos, nadando em riquezas, mas com uma sociedade profundamente dividida do ponto de vista racial, com ressentimentos profundos e não resolvidos, com feridas do passado não inteiramente cicatrizadas? Ou seríamos, talvez, uma imensa Guiana Holandesa? Quem sabe?”.

Por fim, o professor mostra otimismo nesses 200 anos de independência. “Nunca fomos tão ricos como os Estados Unidos, nunca exploramos nossos imensos recursos de modo tão sistemático e disciplinado como lá, mas, curiosamente, apesar dos pesares, o Brasil, já com 522 anos de existência, ainda conserva a noção de que é uma nação jovem, ainda mantém a esperança de ser, como dizia Stephan Zweig, ‘o País do futuro’”, enfatiza.

Nani Camargo
Especial para o JP

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