Rua Santa Cruz, n. 1155: ad perpetuam rei memoriam

Por Editorial JP | 30/08/2022 | Tempo de leitura: 5 min

Às vésperas de seus 70 anos, o histórico prédio que abriga a Escola de Música “Maestro Ernst Mahle”, novo nome da conhecida “Escola de Música de Piracicaba”, sucessora da antiga “Escola Livre de Música Pró-Arte de Piracicaba”, está sob grave ameaça de perder sua casa, sua histórica morada. E, por conta disso, está em vias de perecer a própria continuidade da instituição de ensino musical de Piracicaba, uma das mais tradicionais do Brasil.
Essa história remonta ao dia 09 de março de 1953, quando dois alemães e um grupo de piracicabanos resolveram criar uma escola livre de ensino musical. Foram eles: o Professor Hans Joachim Koellreutter; o maestro Ernst Mahle; os médicos Dr. Nelson Meirelles e esposa (Livica Meirelles); Dr. Caio Carneiro e esposa (Wanda Carneiro) e Dr. Fortunato Losso Netto (também diretor deste jornal); o agrônomo Frederico Brieger e esposa (Annelise Brieger); o artista plástico Archimedes Dutra e esposa (Zoraide Dutra) e as musicistas Maria Dirce de Almeida Camargo e Cidinha Pinto Mahle. Nasceu assim uma instituição que educou e formou milhares de musicistas, hoje espalhados pelo mundo, glorificando o nome de Piracicaba.
O prédio com sua notável sala de concertos veio a ser arquitetado e construído especialmente para abrigar uma escola de música por Walter Naime e inaugurado em 30 de outubro de 1965, com discurso de Fortunato Losso Netto, apresentação do Coro e da Orquestra Sinfônica da própria escola de música sob a regência dos maestros Armando Belardi e Ernst Mahle. Esse mesmo prédio, com seus extensos jardins, salas de aula e sala de concerto está sujeito a ser alienado em ação judicial, mas cujo destino será desconhecido.
Em setembro de 1998, o casal Ernst e Cidinha Mahle repassou o prédio para o IEP – Instituto de Ensino Piracicabano, cujo diretor na época era o renomado Professor Almir de Souza Maia, doando todo o acervo de partituras musicais (o maior acervo do Brasil na época, antes do advento do mundo digital) e todos os instrumentos musicais (também o maior acervo do Brasil), incluindo vários pianos de cauda e o antigo piano de Magdalena Tagliaferro que lá se encontra até hoje. Havia um compromisso do IEP de manter a tradição do ensino da música naquele prédio, honrando o que o casal Mahle havia iniciado décadas antes.
Porém, o futuro e a economia recessiva do país reservam surpresas que fogem a qualquer previsão. O professor Almir de Souza Maia não se manteve como Diretor do IEP e a UNIMEP tomou outros rumos. A quase septuagenária Escola de Música sofreu seus abalos e mudanças, mas continuou existindo, não obstante às várias trocas de sua Diretoria e ao abalo de relacionamento com o casal Mahle. Mas agora uma nova ameaça concreta paira sobre a Escola de Música: sua extinção por completo.
Um adendo explicativo se faz necessário quanto ao prédio que abriga a Escola de Música: Walter Naime o projetou para essa finalidade apenas: uma sala de concertos com uma acústica perfeita e salas para aulas de música teórica e prática. Quase todas as salas de aula possuem um piano, além dos pianos de cauda, cravo barroco e um órgão de tubos que foi importado da Alemanha e montado na sala principal de concertos da Escola de Música. Para quem não sabe, apenas dois ou três palcos de concerto no Brasil possuem um órgão de tubos, fora de Igreja. Os alunos iniciantes que não possuem instrumento para começar a estudar podem se valer do acervo de instrumentos musicais que a Escola de Música dispõe. Todos eles doados ao IEP pelo casal Mahle.
Se houver a venda do prédio da Rua Santa Cruz, n. 1155 para onde irão todos esses instrumentos musicais? E o acervo de partituras, continuará a ser disponibilizado aos estudantes. Não é só um bem imóvel que corre risco de ser demolido ou desviada sua finalidade. Há todo um conjunto de bens móveis que resguardam e sustentam o ensino musical dessa escola que também estão ameaçados por falta de abrigo.
Mas não é só isso: a Escola de Música que funcionou (e funciona até hoje) nesse endereço histórico foi palco de apresentação de grandes artistas nacionais e internacionais; milhares de alunos (como aquele que escreve essas linhas) passaram por ela; alguns deles dotados de talento suficiente para tocar nas grandes orquestras pelo mundo afora. Tudo isso foi possível graças a três fatores: (i) a esse local (o prédio em si) que foi a casa desses alunos talentosos; (ii) por conta dos meios que possibilitaram estudar música: instrumentos cedidos e acesso às partituras musicais; e, por fim (iii) pelo conjunto imaterial da tradição e do ambiente musical que se estabeleceu em torno no casal Ernst e Cidinha Mahle.
O embaixador Vasco Mariz foi muito assertivo quando disse: “Mahle colocou o nome de Piracicaba no mapa musical do Brasil”, será que agora estamos a ponto de toda essa história ser legada ao lixo comum das crises econômicas?
Esta é uma carta aberta ao Conselho de Patrimônio Histórico de Piracicaba (CODEPAC), na pessoa de seu Presidente, o escritor e poeta Ésio Pezzato. Mas é também um apelo à razão (e ao coração) de todos os piracicabanos, em especial aos ex-alunos dessa grande Escola de Música: deverá ela perecer ao julgo das circunstâncias impiedosas da economia?
Nos termos do artigo 216, da Constituição da República do Brasil, o qual agora invoco, qualquer cidadão poderá solicitar o tombamento de bens culturais e pode ser parte legítima para provocar a instauração do processo de tombamento de bem imóvel e bens móveis, bem como de bens imateriais. O processo de venda não pode ser impedido ou tolhido, mas a memória histórica e as nossas tradições artístico-musicais devem ser preservadas ad perpetuam rei memoria: em honra à memória eterna.
Que este editorial sirva como carta de apelo ao Codepac e a seus conselheiros: o prédio da Rua Santa Cruz, n. 1155, guarnecido com o conjunto de seu acervo de partituras e instrumentos musicais seja tombado para a perpetuação da história e da memória do povo piracicabano. Que o prédio, gloriosa obra arquitetônica de Walter Naime, suas salas de concerto, salas de aula e jardins sejam considerados bens do patrimônio cultural de Piracicaba e ainda, que a tradição do ensino musical em Piracicaba venha a ser declarada bem imaterial, devidamente protegidos pelo artigo 216 da Constituição Federal.
Pedimos a todos que endossem e concordem com esse pleito, que o subscrevam e dirijam esse requerimento ao Codepac.

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