Varíola dos macacos em crianças: o que devemos saber sobre contágio, sintomas e tratamento

Por edicao_jp |
| Tempo de leitura: 4 min

JP conversou com a alergologista e imunologista pediátrica Juliana Poli para esclarecer dúvidas

Dos 4.000 casos confirmados de varíola dos macacos no país, ao menos 34 são em crianças de zero a nove anos. Os primeiros casos em bebês foram reportados tanto em Piracicaba no dia 08 de agosto, quanto ao longo desta semana, em uma criança de dez meses que vive em São Paulo, e outra de dois meses, que vive em Conceição do Jacuípe (BA). Apesar de ser uma pequena porcentagem do número de pessoas infectadas, a doença em crianças pede maior atenção por poder causar mais danos nos pequenos, em gestantes e em pessoas com imunodeficiências.

O Jornal de Piracicaba conversou com a alergologista e imunologista pediátrica, Juliana Letícia Poli, sobre a varíola dos macacos em crianças e adolescentes. A médica esclarece dúvidas sobre o contágio, sintomas e tratamento.

Qual o risco de uma criança ser contaminada por varíola dos macacos? As formas de contágio são as mesmas dos adultos?

O risco de uma criança ser acometida pela doença ainda não é considerado elevado devido ao número de casos existentes. No entanto, crianças, sobretudo as menores, frequentemente ficam em contato próximo umas das outras, havendo maior risco de contágio através das lesões de pele, que correspondem à principal forma de contaminação. A maior preocupação nas crianças é que a doença pode vir a ser mais grave devido ao sistema imunológico ainda imaturo, o que predispõe a infecções bacterianas secundárias, levando a complicações. As vias de contágio são as mesmas dos adultos, através do contato próximo com lesões de pele ou gotículas respiratórias de pessoas contaminadas. Há evidências de que a transmissão também possa ocorrer diante do compartilhamento de objetos contaminados.

Quais são os sinais de que uma criança possa estar contaminada com a varíola dos macacos e como protegê-las?

A maneira mais eficaz de proteger uma criança da doença é evitar o contato com pessoas que apresentem lesões de pele suspeitas ou em casos confirmados, limitar o contato até que se obtenha a cicatrização completa das lesões. A suspeita da contaminação em geral ocorre quando a criança apresenta um quadro inicial de febre, dor de cabeça, dor no corpo e aumento dos gânglios no corpo (as chamadas “ínguas”). Após esse período aparecem as lesões de pele, que começam como máculas (manchas vermelhas lisas) e pápulas (semelhante a picadas) e evoluem para vesículas (contendo líquido no interior), pústulas (contendo pus) e crostas, começando na face e estendendo para os membros, mãos, pés, além de genitália e mucosas (boca e olhos).

Quais são as diferenças dos sintomas e das lesões da varíola dos macacos em relação à catapora (varicela)?

As lesões da varicela geralmente se iniciam no tronco, apresentam progressão mais rápida e encontram-se em diferentes estágios de desenvolvimento (pode haver pápulas, vesículas e crostas simultaneamente, diferente das lesões da varíola que encontram-se geralmente no mesmo estágio de evolução durante a progressão da doença). Além disso, os pacientes geralmente não apresentam aumento dos gânglios e as palmas e plantas dos pés são menos acometidas do que na varíola dos macacos.

Quais são as diferenças e semelhanças entre a varíola dos macacos e a Covid-19?

A varíola dos macacos pode inicialmente se apresentar com um quadro respiratório, como tosse, coriza, obstrução nasal e febre, mas na sequência evolui com as lesões de pele descritas acima, o que não ocorre na covid-19. Além disso, uma característica da varíola, diferente da covid-19, é o aparecimento dos gânglios, como as “ínguas” no pescoço, nas axilas e nas virilhas. Uma outra questão importante é que o vírus Monkeypox, causador da varíola dos macacos, é um vírus de DNA, cuja capacidade de mutação é menor do que o vírus de RNA do Sars-Cov-2, o que reflete em uma menor chance de provocar disseminação em massa. Aliado a isso, o vírus da varíola é considerado menos transmissível e o contágio também se dá através do contato com lesões de pele e objetos contaminados.

Como tratar e prevenir a varíola dos macacos nas crianças? Há algum medicamento?

O tratamento basicamente é feito com o uso de sintomáticos, como medicamentos para dor, febre e prurido (uma vez que as lesões de pele podem coçar), além de hidratação, dieta adequada, repouso e isolamento para evitar a disseminação do vírus. As crianças infectadas devem ser monitoradas para tratar possíveis complicações precocemente, como as infecções secundárias. Até o momento não dispomos de medicações antivirais específicas no Brasil para o tratamento da varíola dos macacos. Os casos confirmados devem ficar isolados até a cicatrização completa das lesões (o tempo pode variar de 7 dias até 21 dias) e a prevenção maior é evitar o contato com pessoas que apresentem lesões suspeitas, ou seja, evitar aglomerações, fazer a higiene correta das mãos e evitar compartilhar objetos e roupas. O mais importante para evitar o contágio, sobretudo nas escolas, é a atenção dos pais no quadro clínico da criança, devendo afastá-la da escola e dos ambientes de convívio social em caso de quaisquer lesões de pele que sejam suspeitas e procurar imediatamente o pediatra para avaliação e conduta adequada.

Laís Seguin
lais.seguin@jpjornal.com.br

LEIA MAIS

Comentários

Comentários