Jô Soares. Adeus? Em Deus.

Por David Chagas |
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Por David Chagas

Quantos se lembrarão do que relato aqui? Quantos dos leitores se lembram quando, por cinco anos, fui Secretário Municipal de Ação Cultural, no governo Herrmann Neto, jovem visionário, idealista, excêntrico muitas vezes, inteligente, visão contemporânea de gestão pública, capaz mesmo de, em favor do sonho, juntar-se a quem efetivamente contribuiria com a cidade que governava. Assim agindo, contrariava muitos dos interesses de grupos opostos à sua forma moderna de administrar.
Lembro-me bem do grupo de auxiliares, brilhantes em sua maioria, e das reuniões varando madrugadas em que se discutiam assuntos diversos. Anos passados, vivendo fora do país, ao conhecer, em reuniões a que fui chamado, formas ideais de gestão pública, pude entender quantos anos à frente Herrmann caminhava e constatei quando aprendi com sua visão política inovadora.
Nesteperíodo - quantos se lembrarão? –entre centenas de atividades, com coragem e determinação, abri as portas do Teatro ao cancioneiro caipira. Caipira, aqui, no melhor sentido do termo para falar da música que abrange a Paulistânia, São Paulo e seu interior, grande parte de Minas, de Goiás, do Mato Grosso e por aí afora. Foi a primeira vez que evento como este frequentou espaço cultural público rompendo com tradição elitista burguesa. Hora de alargar horizontes para caipiras, povo nobre que conta e canta suas histórias como poucos sabem.
Tenho comigo comentários de compositores e cantores do gênero agradecidos e solidários comigo. Houve, sem dúvida, quem negasse minha atitude, até mesmo em Piracicaba, pessoas que, muitas vezes, rotuladas de caipiras, dançam ao som de ritmo e comportamento diverso deste.
Tenho guardados, no papel e na memória, injusta crítica de jornal local, não este, sem ter ouvido uma palavra minha em defesa do que, anos mais tarde, todo o país reconheceria como viva expressão de seu caráter para, emocionado, saber mais do sertão, motivo e razão da moda sertaneja. Agora, ocupando espaço, dominando público jamais pensado.
Três manifestações as guardei comigo e as tenho vivas, como se, de ontem ainda. Ou terão sido? Nesta terra que traz em si, por sua beleza, por suas canções e, sobretudo pelo povo bom que nela vive, fruto de uma sedimentação racial, de uma sedimentação histórica, de uma sedimentação cultural que lhe dá características próprias, deveria, não só por ter sido aluno de brilhante professor que estudara profundamente isto, mas por acreditar que, em algum momento, haveria a explosão desta manifestação, deste fenômeno cultural rejeitado por tantos e permite entender melhor o Brasil.
Ao abrir, naquele festival as portas do Teatro, mais tarde comentado de forma brilhante por revistas nacionais de informação, fazendo de Piracicaba referência para o claro entendimento da importância da cultura caipira em suas mais diferentes manifestações, encontro resposta para tanto sucesso. Remexo as lembranças para evitar esquecimento de fato quefaz parte e jamais deveria perder registro na história da cidade.
Benito Juarez, regente de Corais e Orquestras Sinfônicas, em Campinas, tantas vezes presente em Piracicaba com sua orquestra ou como maestro convidado para apresentações inesquecíveis, foi quem me trouxe o primeiro sinal de aprovação da presença caipira no Teatro. Dias depois, no Colégio Luiz de Queiroz – CLQ –onde fui professor, chamado ao telefone por Jô Soares, por quem, agora, trato de reavivar lembranças com o coração tocado por sua morte, pude saber de seu aplauso e de sua aprovação.
Jô, humorista, apresentador de televisão, instrumentista notável, escritor, deixava comigo a palavra medida para iniciativa corajosa e – disse-me à época com o que hoje concordo - profética.
Dr. Losso, diretor deste Jornal, foi outra das pessoas que permaneceu comigo, a meu lado. Jamais encontrei nas páginas deste periódico, contestação ao que fazia com cuidado, respeito e apreço, durante o tempo em que estive no governo Herrmann a quem o diretor do jornal se opunha politicamente. Com a nobreza própria dos notáveis, dr. Losso separava joio e trigo.
Tudo isso, para falar mais e mais de Jô Soares de quem me veio a mais efetiva palavra de apoio. Certa feita, em apresentação de Juca Chaves, lotações esgotadas, chamado pelo artista para conceder-lhe isenção de taxa devida aos cofres municipais, neguei em honra do cargo e da lei. Fui criado com valores morais bastante claros. Irritado com a negativa, chamou-me de caipira, entendendo com isso ofender-me.
Dias passados, num jornal local, vi estampada notícia injuriosa, falsa, sobre o assunto, Para quem, ao longo da juventude, curtiu admiração ímpar pelo cantor, saber da notícia trouxe-me profunda mágoa. Como não teria, o jornal, eu que, jornalista, sempre me pautei pela verdade, pela justiça?
Jô, citado por ele na entrevista, tão logo soube, presente com palavra justa, amiga, fez-me entender como Juca conduzia e transitava por sua vida, preocupando-se tão somente com seu próprio ego. Ajudou-me em conversa longa a ter melhor visão da vida pública. Ampliou ainda mais minha admiração por este homem inteligente, ético, correto ao expor suas preferências políticas em argumentos adequados e visão crítica irrefutável.
Resta-me, agora, ao saber deste triste passamento, dizer Adeus a Jô Soares. Quantos não estarão fazendo o mesmo? Só não imaginava ter, em algum momento, diante dele ou em sua memória,conter o riso e derramar lágrimas.

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