Ciranda e destino. A vida a rodar.

Por David Chagas |
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Por David Chagas

Passados tantos anos, ainda me pergunto a origem de minha paixão por vias férreas e trens. Admiro, ainda que desativadas, as estações que encontro, sem entender o descuido de tão rico patrimônio e o porquê do país ter caminhadocontra seu próprio destino. Dimensões continentais exigem transporte seguro, mais econômico,em busca das mais distantes fronteiras, em horizontes que, juntos, poderiam fazer parte da ciranda.
Naqueles anos,havia enorme expectativa no futuro. Impossível imaginar a esperança traída pelo destino.Era um tempo em que havia trens de qualidade e estaçõescom topologia arquitetônica características das décadas iniciais do século XX.
Em São Paulo, condução segura para gente e carga, avançava pelos corredores, entre serras, sobre rios, sob luar e sol, como serpente de prata, descobrindo novos e distintos lugares, onde deixava rastro de progresso e de riqueza.
Onde vivia, “casa entre bananeiras/ mulheres entre laranjeiras/ pomar amor cantar”. Tudo muito devagar, silêncio demorado, bendito. Evidente, o cantar dos pássaros e as borboletas fazendo cor ao visitar flores do campo. Barulho, só o do aceno do trem, obrigando, com sua presença, a olhar o sol e medir o tempo.Se o tempo devido terminava, ia ao meio ou no seu começo, a incidência da luz determinava.
Britânicos no horário e, na origem das máquinas, penso eu, os trens paulistas daqueles anos, pelos trilhos, sinalizavam tempo,despertavam sonhos. Para onde vão? Quem segue neles? Que carga levam?
Quantos não escreveram, a partir destas vivências, sua história. De Araraquara, Ignácio de Loyola Brandão, adiante de mim na idade e na vida, hoje acadêmico, vez por outra, em suas crônicas, revisitava a cidade natal e, de um modo ou de outro,narrava sua relação com a vida ferroviária nas terras do sol nascente.Adulto, me deixava entreter lendo estas e outras de diferentes escritores acariciando memórias recheadas de fatos idênticos.
Jamais soube de criançaem lugarejo do interior, despedindo-se da mãe, em busca de aprimorar-se em estudos, que ia para outra cidade, num tempo em que tudo era distante e difícil. Ah… não fora o trem!!…Mal começava o dia, o mesmo ritual, todas as manhãs. No ninho, uma vez mais, juntos, como os pássaros, só no despontar da noite.
Pela manhã, em trem que servia o lugarejo (eram poucos) viajava a cidadezinha próxima, para voltar pelo mesmo caminho, em outro, agora, rápido, para chegar ao centro estudantil onde terminaria seusestudos.
O menino, a postos, assistia à saída e ficavana expectativa do trem, armando, no tempo, ciranda e destino. Ali, no pátio da estação, sob o olhar carinhoso e atento do pai, despediam-se da figura amada. Só os dois adultos, naqueles longes, conheciam a razão daquilo tudo. A cada dia, adeus, sem imaginar, penso, quanto estas cenas ficariam gravadas para sempre no inconscientede todos.
Nestas aldeias, como esta, a sensação de vida besta, igual à revelada pelo poeta ao falar de uma cidadezinha qualquer. Um dia, conversamos sobre isto. Sofremos juntos, cada qual a seu modo. Ele, apreciando minha história, louvando o sacrifício materno em favor dos filhos e a cooperação inestimável do pai, apoiando a esposa e cuidando, para além de seu trabalho, das crias.
Na conversa nossa, o poeta, diante da coleção de obras na parede do apartamento em que vivia, todas elas belíssimas, mostrou a foto de Itabira, a sua terra, e confessou ter, na infância a certeza de que a vida seguiria,para sempre, em igual ritmo.
Lá de trás, vívida lembrança do conjunto de trilhos assentados sobre dormentes, os desvios para manobras, o faiscar de luz na incidência do sol fazendo rebrilhar a linha férrea, como se tudo aquilo fora o mundo em seu limitado contorno.
Nos dormentes, os trilhos do trem. Caminhando neles,aprendi a contar. Bracinho curto, mãos estendidas ao encontro das mãos de dona Ignez, professora da escola rural, distante do lugarejo onde vivia, juntos, os dois, pelo caminho de ferro, caminhávamos para juntarmo-nos a outras criançasa espera da professora. Fui, aos três de idade, por um ano, sua companhia. E soube amá-la pela vida toda.
Juntos, dona Ignez e eu cantarolávamos números sob as ordens dela. Ouço dizer-me: Vamos Zezinho, força – um, dois, três…somando uma a uma as peças de madeira sobre o leito da estrada.
Todos quatro todasas manhãs,na esplanada da pequenina estação, à espera do comboio que vinha, ligeiro pelo caminho de ferro, com ela, a mãe, num dos bancos do vagão de passageiros pronta para ver uma vez mais os filhos, acenar emocionada. Atônito, o menino chorava, sem entender na idade que contava, a razão da cena.
Quando, na boca da noite, de regresso outra vez àquele lugar, coração menos oprimido, voltava à plataforma, tristeza diluída ao longo do dia, trocada pela esperança da chegada, como se há anos não a visse.
Isso tudo acabou ao fim de sua jornada acadêmica, com brilhantismo e galhardia. Até hoje, há, ainda, quem se recorde do fato com apreço único. Um convite desua formatura, enviado que me foi por uma sua colega de banco escolar, quase centenária, me obrigou a revisitar a história e dividir com meus leitores, como se refizesse a velha ciranda desenhando outra vez igual destino.

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