Casa da sogra e da mãe Joana

Por Cecílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min

Já na infância, a curiosidade incendiava-me o cérebro. Era constante – quando começávamos a fazer bagunça – ouvir de minha mãe ou de meu pai: “Aqui, não é a casa da sogra.” E eu tentava entender: ora, a sogra de cada um deles era minha avó. Tinha que ser. Mas ambas as avós tinham morrido e, portanto, não mais tinham casa. Sogra de quem? – matutava eu. Ao mesmo tempo, meus pais também nos advertiam: “Vão fazer baderna lá na casa da Mãe Joana!” E, ela, a Mãe Joana, quem era?
Na adolescência, fui seduzido pelo maravilhoso universo das artes, em especial da música e da literatura. E descobri, entre muitos, o admirável Câmara Cascudo no seu enciclopédico conhecimento do folclore. A “casa da sogra” estava lá. E era a casa da sogra do apóstolo Pedro, onde Jesus e seus amigos se reuniam. Estava de portas abertas a quem chegasse. Imagino lá entrassem, pois, pecadores, beatos, prostitutas, sábios. Talvez – quem sabe? – acontecesse de pessoas perguntarem por Jesus e fossem orientadas: “Está lá, na casa da sogra.” Ou seja: na casa da mãe da mulher de Pedro. Pois é: São Pedro, se tinha sogra, era homem casado.
Quanto à casa da Mãe Joana, o mesmo Câmara Cascudo informa ter-se tratado de uma rainha de Nápoles, Joana – lá pelos 1.300, veja só! – que regulamentou os bordéis. Segundo ela, os prostíbulos deveriam ter apenas uma porta por onde entrasse quem quisesse. Não havia controle, disciplina, na bagunça geral. Era o Paço da Mãe Joana. De Nápoles, a grande farra foi levada para Portugal. E, de lá, obviamente para cá. Bordel e casa de Mãe Joana passaram, com o tempo, a ser sinônimos de desordem, de descontrole. Até hoje.
Conforme o ângulo pelo qual se observe, o Brasil ora se mostra uma casa da sogra, ora a casa da Mãe Joana. A bagunça é total. Crianças querem orientar os pais; alunos zombam de professores; a sociedade civil é governada por militares; capitão dá ordens para generais e, mais triste ainda, generais obedecem submissamente. Na desordem, as consequências já se vão tornando cada vez mais claras: explosão popular. Ora, o que mais resta ao povo – diante da fome, do desabrigo, da ignorância institucionalizada, diante da desesperança – o que mais lhe resta senão a reação irracional? Ou ninguém percebeu o número crescente de assaltos, de roubos, de furtos, de violência? Os acomodados e indiferentes dirão tratar-se de bandidagem e, portanto, caso de polícia. Esse egoísmo, porém, é suicida. Não são bandidos, são desesperados.
O ainda mais desanimador – no entender deste escriba – é constatar a quase anestesia espiritual das novas gerações. Insisto no plural, gerações, pois constata-se – diante da velocidade do conhecimento – que a cada 10 anos forma-se uma outra. Há poucas décadas, ainda, perguntava-se o que desejavam, o que ambicionavam os jovens. A lassidão da juventude leva-nos à indagação mais preocupante: por que parecem nada ambicionar?
O que o acidental dito presidente da República tem feito para o Brasil não somente causa indignação. Pois, está fomentando a revolta, talvez animado por viúvas da ditadura militar, que ele próprio se encarregou de conduzir a Brasília. Ao que parece, porém, é ser exatamente o que ele pretende: tumultuar para golpear. O incrível é saber que, ainda, há os que não se dão conta – ou fingem não se dar – da grande farsa que se desenrola no país.
Ainda estamos vivos muitos dos que já vimos isso antes acontecer. Inventaram o Brasil fosse a casa da sogra e da Mãe Joana e, em seguida, fizeram, delas, caserna e quartel. E se acostumaram. Querem ficar.

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