Carnaval

Por José Faganello |
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“O carnaval entre nós deixa de ser… a festa pagã que o cristianismo não estragou de todo e em que resta alguma vivacidade e algumas alegrias dionisíacas para ser mais do que tudo isso: uma tradição venerável, uma festividade adorada, um hábito da sociedade que tem significação de um desafogo na existência ávida do brasileiro, que vive sem dinheiro, sem orgulho, sem heroísmo, sem coisa nenhuma”. (Gilberto Amado 1887-1969, A Chave de Salomão)

Em termos de duração, o carnaval é o maior período de festas disponíveis em nosso calendário. Não se esquecer daqueles que, para ele, começam a se preparar desde as vésperas do Natal, retornando ao trabalho após o carnaval, muitas vezes na segunda-feira seguinte à quarta-feira de cinzas. Os festejos momescos oferecem a oportunidade esperada para uma exacerbação no uso de bebidas, na prática da luxúria em todas suas nuances, pois eles servem como justificativa sacramentada pelo tempo e pela aceitação, praticamente geral. Há noivos e casados que buscam conseguir seu alvará, para cair na folia, citando Paulo Apóstolo, em epístola aos romanos, 12,15, “Alegrai-vos com os que se alegram, e chorai com os que choram”. Necessitamos de festas de confraternizações coletivas. A vida moderna concede-nos poucas oportunidades para elas. O carnaval, incluído no calendário de festas nacionais, arraigou-se em nossa cultura a ponto de, assim como o futebol, ser considerado o maior espetáculo da terra, quer em número de participantes, como no esplendor de seus desfiles. Tanto o carnaval carioca, como o paulistano que promete não ficar atrás, transformaram-se em gigantescos espetáculos, cada vez mais sofisticado, mas com o senão, de excluir de sua participação ativa, grande parte da massa popular, sem condições de competirem com os mais endinheirados. Há, fora do Brasil, carnavais famosos como os de Paris, Veneza, Munique, Roma, Nápoles, Florença, Montevidéu e Buenos Aires; nenhum deles rivaliza com o nosso, que para chegar ao atual estágio, sofreu lenta, mas contínua mudança. No Brasil Colonial havia festanças acompanhadas de brincadeiras grosseiras, como atirar água suja e farinha nos passantes. Foi no Rio de Janeiro, a partir de 1930, que o carnaval começou apresentar uma feição civilizada, tornando-se aos poucos uma atração internacional. Seus grupos de ranchos carnavalescos e de escolas de samba aprimoraram-se, até chegarem ao que assistimos atualmente. Em muitas cidades, o carnaval de rua, genuinamente popular, cedeu lugar para os bailes nos clubes sociais. Nestes últimos anos, no entanto, na maioria destes carnavais de salão, não se vê a animação de outrora. Os foliões, antes animados por marchinhas, de todos conhecidas e até agora lembradas, como: Eu Vou Beber, Linda Morena, Fita Amarela, Cidade Maravilhosa, As Lágrimas Vão Rolar, Não Tenho Lágrimas, Jardineira, Aurora, Barracão, Máscara Negra, Trem Das Onze e outras muitas, hoje se vêm salões de baile de adultos, tomados por adolescentes que desconhecem as letras antigas, e não sabem as novas, essas de nenhum valor poético e musical. Sempre houve, desde Gilberto Amado, aquele que vê no carnaval, não uma manifestação espontânea de alegria, mas um desafogo. Seja como for, tanto aqueles que concordam com o Eclesiastes de que há tempo para tudo e afirmam que o carnaval é tempo para beber, dançar e amar, como aqueles que necessitam de um desafogo, para as mágoas causadas pelas mazelas nacionais, com os ‘mensalões’, desvios bilionários de verbas públicas, nepotismo, impunidades indefensáveis, devem aproveitar o conselho de São Paulo: alegrar-se com os que se alegram e deixar para quarta-feira de cinzas para chorar com os que choram e, talvez, ter de implorar: “Ei! Você aí, me dê um dinheiro aí”; para quitar as contas das esbórnias.

Atualmente estamos vendo um Carnaval pequeno mas fazendo relembrar os antigos.

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