Até que a chama se apague

Por Marisa Bueloni |
| Tempo de leitura: 3 min

Viver é um ato de heroísmo, vou repetir sempre. Num dia estamos bem, dispostos e animados, prontos para podar o jardim, arrumar armários e cozinhar. No outro, sem motivo algum, acordamos cansados, com dores no corpo, debilitados. Ontem, seríamos capazes de subir uma montanha; hoje, um abatimento mortal nos prostra o corpo e a alma.

Não entendemos que distúrbio é esse a nos jogar nesta alternância, sem uma causa conhecida. Nos dias de alto-astral, temos de aproveitar e fazer o impensável, pois no dia seguinte poderemos não estar com o mesmo pique.

E assim será até que a chama se apague. Dia após dia, cumprindo a vida e suas solicitações, de forma amorosa, gentil e generosa. Ou de modo um tanto contrariado, sem vontade de fazer determinadas coisas, mas fazendo-as por obrigação, dever e necessidade.

Tenho uma atitude culinária de ordem pessoal. Quando percebo que estou com a corda toda, aproveito para cozinhar. Faço as minhas sopas detox, também aquele molho vermelho com manjericão, ponho em vários potes e congelo. Fica prático para a massa no meio da semana. Só pede o parmesão ralado.

Lemos por aí que a maioria de nós apenas “existe”, e poucos “vivem”. Sim, existir é diferente de viver. Uma pedra existe e é inanimada. Uma pedra não possui alma, não reage, não sente. Os seres vivos são sensíveis ao ambiente em que vivem. Nós, seres humanos, carregamos a capacidade vital e biológica de sentir, de reagir, de amar, de construir uma vida cheia de interesses e descobertas.

De todas as descobertas, a mais bela é o amor. Descobrir o amor, e que este amor é dirigido a alguém ou a alguma área de nosso interesse é algo sublime. Ter paixão pelo que se faz: eis a fórmula da felicidade nesta terra. Amar e ser amado: a mais maravilhosa das dádivas concedidas a uma pessoa neste mundo.

E assim será até que a chama se apague. Uma multidão procurando pelo amor, sem o encontrar, e alguns privilegiados dando de cara com ele, sem a sofreguidão da procura. A vida tem suas sinuosidades, seus mistérios e surpresas. Mas tem também as agruras, os dissabores e, sobretudo, os desencontros.

Triste é desencontrar-se nesta vida. Principalmente depois que se encontrou. Triste é perder a mão da pessoa amada no meio do baile, quando a luz se apagou e a vista escureceu. Nada pode ser mais sombrio do que a tristeza de quem perdeu o amor.

Há amores tristes, há quem diga que “amar é sofrer”. Há amores platônicos, vividos na solidão do imaginário, na sofrida aventura de nada esperar, de nada desejar, a não ser a morte, para acabar com o sofrimento do amor. Já ouvi confissões dolorosas a respeito.

Vinícius de Moraes disse que “o câncer é a tristeza das células”. Sim, quando nossas células se entristecem demais, é perigoso. Ninguém deveria sofrer desta tristeza cruel, a ponto de adoecer. Um luto pode ser fatal. Uma perda importante pode matar uma pessoa saudável, de tanto desgosto e amargura.

E até que a chama se apague será assim. Perdas e ganhos. Vitórias e fracassos. Entusiasmo e incerteza. Saúde e doença. Dias de muita energia e vontade, mesclados com momentos de prostração e desesperança. Minha mãe repetia sem cessar o tal “não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe”. Citei corretamente? Note que os substantivos “bem” e “mal” podem ser invertidos e a frase continua com seu insofismável sentido.

Até que a chama se apague viveremos entre a cruz e a espada, entre a rosa e o espinho. Deus nos dê o devido discernimento, a preciosa lucidez para escolher e decidir. Para a chama se apagar com poesia, doçura e dignidade.

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