Quando diversidade é o debate, ideologias causam conflitos

Por Laís Seguin |
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Em seu terceiro mandato como vereador e na segunda gestão como presidente do Poder Legislativo de Piracicaba, Gilmar Rotta, 54, tem enfrentado desafios típicos do parlamento. A pandemia do novo coronavírus em 2020 mudou a ordem e dinâmica de todos os setores da sociedade e o público não ficou impune. Mudança na rotina e suspensão do trabalho presencial sem deixar a máquina estagnar, exigiram dos dirigentes algo além do cumprimento dos decretos dos governos e dos protocolos das autoridades em saúde. Foi preciso criatividade, sensibilidade e determinação de quem está à frente da máquina.

Nessa situação, Rotta avalia ter lançado mão de recursos previstos para investimentos e adiado projetos em razão do enfrentamento da covid-19. Além da pandemia, a presidência esteve às voltas com a condenação de vereador por porte de arma de fogo, denúncia por quebra de decoro na Comissão de Ética da Casa. Situações que o presidente avalia como da ‘natureza do Legislativo’, mas invoca a garantia à diversidade de ideias. Neste Persona, o parlamentar fala dos desafios da presidência, da abertura da Casa para a participação popular e da suas pretensões políticas.

O senhor caminha para a última etapa da sua gestão frente a presidência da Câmara Municipal de Piracicaba. Dos planos que fez, o que conseguiu realizar e que destaca como marca da sua gestão?

Acredito que foi estabelecer e aprofundar a relação com os servidores que, antes era fria ou pouco técnica, deixada nas mãos de que quem não entendia que ouvir é uma forma de trazer benefícios à população em longo prazo. E exemplifico: temos servidores comprometidos com a inclusão das pessoas com deficiência. Quando criamos o Câmara Inclusiva, não foi uma decisão aleatória. Foi por ouvir estes servidores quanto a necessidade de adequar os prédios para receber as pessoas
com deficiência.

O que não foi possível fazer e por quê?

Não foi possível viabilizar que a Câmara deixasse os dois prédios que hoje ocupa e que gera um alto custo de manutenção, pela idade das construções, e iniciar a execução de etapas de um projeto que resultasse numa nova sede. Conseguimos eliminar muitos custos operacionais como substituir o refeitório que gerava cerca de 100 licitações/ano pelo tíquete alimentação, substituir contratos terceirizados que envolviam tecnologia de informação pela contratação de novos servidores via concurso que elaboraram os programas necessários. Mas a pandemia nos exigiu abrir mão de recursos previstos para investimentos e adiou este projeto.

Quais foram e têm sido as maiores dificuldades à frente da presidência?

A dificuldade foi gerir uma Câmara, que envolve mais de 300 pessoas entre funcionários diretos e indiretos, durante a pandemia. A Casa se transformou, tudo aquilo que eu conhecia desde os anos 80 quando fui estagiário aqui, passando por outras funções administrativas e de assessoria parlamentar, mudou. O exercício da política exige a troca, a conversa, a convivência e neste período reaprendemos a como fazer isso para atingir os mesmos objetivos. Foi um grande desafio mas acredito que, como um todo, a Câmara devolveu à sociedade o máximo que pode, votando recursos para o enfrentamento da pandemia que vieram dos governos, e também destinando seus próprios recursos para isso. Não ter a população dentro da Casa, tenho certeza, foi a maior frustração. Em abril, acreditávamos ter a total normalidade, mas agora estamos lidando com a greve dos servidores que deverá alterar a rotina. Mas estamos preparados para, da mesma forma, minimizar os impactos.

Nos últimos meses, foram registradas situações negativas envolvendo vereadores. Primeiro a condenação do vereador Laércio Trevisan Jr. (PL) por porte ilegal de arma e mais recente, a representação da vereadora Raí de Almeida (PT) contra o patriota Fabrício Polezi. Em sua avaliação, essas ocorrências, além da imagem do parlamentar, arranham a Câmara Municipal de alguma forma, enquanto instituição? E como o senhor se posiciona enquanto presidente?

Por mais que desejássemos que não acontecessem, são da natureza do Poder Legislativo. A Câmara é uma Casa política, só existe justamente pela nossa democracia – graças a Deus – garantir a diversidade das ideias. Vereadores representam parte da sociedade que entendeu que refletia seus anseios. Quando a diversidade é posta no ambiente de debate e discussões, as ideologias se sobressaem e acabam por causar conflitos, que devem ficar no campo político. Se isso se extrapola, temos o Regimento Interno, a Lei Orgânica e a Constituição Federal que nos rege. Não acredito que afete a imagem da instituição. Do contrário, se não houvessem debates e a Casa fosse ‘morna’, o sentido de um parlamento se perderia. As críticas externas acontecem – e são naturais – pelas pessoas que pensam como um vereador em detrimento a outro e vice-versa. É da política.

Com 290 mil eleitores, Piracicaba não elege um deputado federal desde 2018, ficando, portanto, sem representação em Brasília. O que a cidade perde, em sua opinião?

Se Piracicaba hoje está sem interlocução junto ao Governo Federal para buscar recursos e projetos, à exceção é Limeira, imagine a dificuldade das demais 22 cidades, principalmente de pequeno porte? Além de buscar recursos, estar atento aos movimentos e projetos do Governo Federal, um deputado pode ir muito além. Quem se lembra da movimentação de João Herrmann pelo mercado do biocombustível? Era pela nossa matriz energética local e regional. Mendes Thame foi o autor da lei do MEI (Microempreendedor Individual), beneficiando milhões de brasileiros. José Machado foi autor da lei que criou a Política Nacional de Conservação e Uso Racional de Energia Elétrica. Ou seja, ações com olhares para o perfil da nossa cidade e região e se projetaram em benefício do País.

O Parlamento Metropolitano de Piracicaba, o qual o senhor preside, tem atingido os objetivos propostos? Quais são eles?

Os primeiros objetivos foram integração e visibilidade. Não só para Piracicaba, mas para as demais 23 cidades que envolvem a Região Metropolitana. O Parlamento está dando visibilidade a temáticas importantes, como o fomento à economia de baixo carbono, os planos diretores, o transporte urbano, a gestão da saúde e conseguindo chegar às autoridades e empresas que prestam serviços públicos para buscar soluções.

Beto Silva
beto.silva@jpjornal.com.br

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