Professora-pesquisadora tem a ‘receita’ para o fim do uso de fertilizantes industriais ou agrotóxicos

Por Laís Seguin |
| Tempo de leitura: 5 min

Especialista da Esalq em fungos e bactérias para crescimento das plantas e defende agro sustentável

Elke Jurandy Bran Nogueira está entre os 100 melhores cientistas da América Latina. Pós doutora em Microbiologia do Solo, a profissional integra o grupo de 18 professores da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) ranqueados na recém-divulgada lista Latin America Top 100 Agriculture & Forestry Scientists 2022 – o levantamento tem como base o AD Scientific Index, um sistema de classificação e análise com base no desempenho científico e no valor agregado da produtividade científica dos cientistas. Apaixonada pela Esalq, a professora da pós-graduação conta que recebeu com felicidade a nomeação e conta sobre sua satisfação no relacionamento com os estudante e ex-alunos. Joia rara em um ambiente quase que dominado pelo sexo masculino, Elke se tornou especialista em fungos e bactérias para crescimento das plantas com redução drástica de fertilizantes industriais ou agrotóxicos. Outra grande da professora Top 100 foi a descoberta, dentro de um grupo de pesquisa, do Pinheiro do Paraná, uma planta em perigo de extinção no Brasil.

Sobre os desafios para fazer pesquisa no Brasil, Elke Nogueira conta que já recebeu recusa de um professor para ser orientador apenas por ser mulher. Também enfrentou um departamento que sempre se recusava em ter uma profissional do sexo feminino no seu quadro – e passou a integrá-lo, desafiando a praxe. Enfrentou situações duras, mas mantém seu carinho pelo ensino. “Amo a Esalq e fico muito feliz com qualquer referência positiva a seu respeito. Várias vezes também fui homenageada por alunos e ex-alunos, o que sempre me deu grande satisfação.” Ao receber a notícia que seu nome estava no ranque da América Latina, a professora desconfiou de algum problema em seu computador. “Mas, quando comecei a admitir que meu nome poderia estar na relação de fato, fiquei feliz com este reconhecimento internacional.”

Aos 80 anos de idade, ela começou na Esalq há mais de 50 anos. Fez doutorado nos Estados Unidos e pós-doutorado na Alemanha. “Já fui aposentada por lei porque não podemos ficar além dos 70 anos. Entretanto, o conselho do departamento me convidou para permanecer como professora da pós-graduação, na função honorária de professora titular sênior, sem remuneração extra. Aceitei imediatamente porque sempre me senti à vontade entre os alunos de graduação ou de pós-graduação, os quais me respeitavam e com os quais tenho um ambiente de companheirismo e confiança, trabalhando todos juntos com muito empenho e sentindo a ventura de novas descobertas.”

SUSTENTABILIDADE
Ao resumir sua carreira, a professora Elke Jurandy Bran Nogueira destaca seu interesse pelo tema sustentabilidade. Pesquisadora da área de Microbiologia do Solo e Ambiental, ela desafia, no campo científico, a tese de que o agronegócio não pode sobreviver sem o uso de produtos químicos. E mais: com produtividade acima das práticas tradicionais com o manejo de solo. Dona de uma carreira de décadas, ela tem a ‘receita’ para mudar o cultivo no Brasil.

Tudo começou com o estudo de fungos micorrízicos arbusculares. “[Esses fungos] são de grande importância agrícola, ecológica e econômica porque formam uma simbiose com mais de 80% das plantas agrícolas ou outras [espécies vegetais], auxiliando as raízes a obter mais água e nutrientes para seu desenvolvimento. Tornei-me especialista em fungos e bactérias que promovem o crescimento das plantas, como as bactérias fixadoras de nitrogênio atmosférico que conseguem buscar este nutriente, fundamental para os vegetais, as bactérias solubilizadoras de fosfatos e muitas outras.”

Dentro destas pesquisas, a pesquisadora e professora fala, do alto do seu conhecimento acumulado, sobre o Pinheiro do Paraná, sob perigo de extinção da espécie e uma planta importante para formação desse fungo essencial à agricultura. “[O pinheiro] forma em suas raízes as micorrizas arbusculares, além de muitos outros microrganismos e a fauna do solo que favorecem seu crescimento e produtividade para grande número de plantas agrícolas, como a soja, o milho, os capins, as leguminosas, e outras, todas elas envolvidas em sistemas ecossistêmicos fornecidos gratuitamente ao agricultor.”

O trabalho científico de Elke comprovou a possibilidade de uma agricultura mais limpa. “Algum tempo atrás, pesquisando, por anos, as várias metodologias de manejo agrícola, constatamos que um solo saudável, com inclusão de material orgânico adequado e praticamente sem necessidade de fertilizantes industriais ou agrotóxicos, podem ter igual ou maior produtividade do que os manejos tradicionais do agronegócio, [setor] que diz não poder sobreviver sem quantidades astronômicas desses adubos. Os adubos em excesso podem deixar os solos mais tóxicos aos seres vivos, além de contaminar rios e lagos, causando grande poluição. E os agrotóxicos, principalmente quando aplicados sem um controle rigoroso, podem deixar nossos alimentos envenenados. E esta tendência de liberação geral está virando lei no nosso País”, destaca.

Ela dá toda a razão aos consumidores que exigem alimentos saudáveis. “Mas, para isso, é preciso termos solos saudáveis, não os solos degradados e intoxicados que vêm resultando no manejo tradicional da agricultura e, mais ainda, nos pastos com sobrepastejo e sem cuidados.” Como o assunto é técnico e como toda excelente professora, Elke faz uma analogia do meio ambiente com o corpo humano.

“Para explicar melhor todo este processo, eu gostaria de divagar por um momento para a saúde do ser humano. A maioria já ouviu falar que cada um de nós, seres humanos, está associado a centenas de milhares ou milhões de bactérias que convivem conosco nas superfícies e no interior de nosso corpo, chamado de microbioma. Pois bem, estes organismos úteis nos defendem contra os patógenos invasores que causam doenças, na pele e nas mucosas e, principalmente, nos intestinos, sendo responsáveis pelo controle de muitos dos nossos processos metabólicos e, indiretamente, por nossa saúde. A saúde depende basicamente destes organismos e de nossa alimentação saudável e natural, o menos processada possível. Pois as plantas também têm o seu microbioma, mas que depende de solos saudáveis e biologicamente ativos.”

Cristiane Bonin
cristiane.bonin@jpjornal.com.br

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