Ciência dos alimentos: conheça um dos ‘pais’ da própolis vermelha, a mais cara do mundo

Por Laís Seguin |
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Junto com outras duas universidades, estudo da Esalq abriu as portas de um mercado valioso em Alagoas

Severino Matias Alencar está entre os 100 melhores cientistas da América Latina. Doutor em Ciência de Alimentos, o profissional integra o grupo de 18 professores da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) ranqueados na recém-divulgada lista Latin America Top 100 Agriculture & Forestry Scientists 2022 – o levantamento tem como base o AD Scientific Index, um sistema de classificação e análise com base no desempenho científico e no valor agregado da produtividade científica dos pesquisadores. Alencar comemora o posto no ranque e fala das dificuldades atuais em ser cientista no Brasil, destacando positivamente a afeição que a sociedade tem tido de forma geral com a área. Ele inaugura a série de entrevistas a professores TOP 100, incluindo Esalq e Cena/USP (Centro de Energia Nuclear).

“Recebi a notícia com grande alegria, pois uma das maiores honras de qualquer pesquisador é saber que seu trabalho de pesquisa está tendo impacto internacional e bem avaliado pelos seus pares. Portanto, foi muito gratificante mesmo saber que estava na lista dos 100 melhores cientistas latino-americano, e que a Esalq, por concentrar quase que 20% desses cientistas, demonstra que segue na vanguarda do conhecimento.”

No contraponto, Alencar relata que a profissão tem sofrido com problemas estruturais, como a falta de financiamento para pesquisa e burocratização da política de importação de materiais científicos. “Porém, a pesquisa, e para quem está envolvida com ela de corpo e alma, é, antes de mais nada, uma atividade prazerosa. Apesar dessas dificuldades, ainda tem sido possível fazer pesquisa de qualidade, levando o País a ganhar ao reconhecimento internacional, e cada vez uma melhor aproximação com a sociedade.”

O professor lembra que o Brasil tem sido reconhecido internacionalmente pela ciência de qualidade em diversas áreas do conhecimento, como na agricultura tropical. “A ciência feita no País tem evoluído muito tanto em termos qualitativos quanto quantitativos e perseguir os passos de grandes cientistas brasileiros que fazem ciência de altíssima qualidade, com retornos para a sociedade, é sempre um objetivo.”

PRÓPOLIS
Entre os trabalhos coordenados e desenvolvidos pelo professor Matias Alencar, os seus destaques vão para pesquisas realizadas sobre própolis, reaproveitamento resíduos agroindustriais e frutas nativas brasileiras. “São as temáticas que mais temos contribuído com a ciência.” Entre essas três frentes, o doutor em Ciência de Alimentos enfatiza a pesquisa com mais de 20 anos sobre a própolis com outras duas faculdades.

“Esse grupo de pesquisa muito profícuo, formado por mim, pelo professor Pedro L. Rosalen (FOP/Unicamp) e professor Masaharu Ikegaki (Unifal), tem feito uma pesquisa translacional de alta qualidade, a qual tem como objetivo de reduzir o distanciamento entre a produção do conhecimento nos nossos laboratórios e a devolução prática dos resultados para a sociedade. Assim, de uma forma multidisciplinar, temos explorado a biodiversidade brasileira para descoberta de novos tipos de própolis, bem como a caracterização química, biológica, produção e interação com o setor produtivo.”

Do que já foi pesquisado, Alencar conta que o caso mais emblemático é o da própolis vermelha. “Durante a coleta de material na região do Nordeste brasileiro, especificamente no Estado de Alagoas, foi encontrado um novo tipo de própolis e denominada então de própolis vermelha. Verificamos que esta própolis possuía uma composição química totalmente diferente das outras própolis brasileiras até o momento, sendo composta principalmente por isoflavonoides. Os isoflavonoides da própolis vermelha, como a formononetina e biochanina A, estão entre as isoflavonas de ocorrência natural com forte atividade estrogênica. Além disto, os isoflavonoides são de presença restrita ao reino vegetal e ocorre quase exclusivamente em leguminosas, como soja, grão de bico e lentilhas. De acordo com as evidências de que o consumo desses fitoestrogênios produzem efeitos benéficos para a saúde, a própolis vermelha se tornou um mercado potencial e promissor a ser explorado.”

Com base nos trabalhos do grupo de pesquisa publicados em revistas científicas e mídias nacionais e internacionais, a própolis vermelha começou a ter uma grande demanda pelo mercado internacional, principalmente o japonês. Atualmente, é o tipo de própolis mais cara do mundo – custa de R$ 1.500 a R$ 2.000 enquanto que a verde vale até R$ 500,00. “Todos estes acontecimentos refletiram em um impacto social muito importante, pois, várias pessoas que viviam no limite da miséria, em um dos Estados mais pobres do País, começaram a produzir própolis vermelha. Hoje esta é uma atividade econômica organizada e importante no Alagoas.”

Para contribuir com uma produção organizada e de qualidade no Alagoas, a esquipe iniciou um trabalho para a identificação da fonte botânica da própolis vermelha brasileira. Após dois anos de pesquisa, esse estudo apresentou resultados pela primeira vez sobre a origem do nobre produto: a espécie vegetal Dalbergia ecastophyllum (L.) como fonte do insumo – a planta é conhecida popularmente como rabo-de-bugio ou marmelo-do-mangue. “Este achado foi de uma importância ímpar, pois, além de tudo, propiciou a realização de atividades de proteção nas áreas onde esta espécie se desenvolve.”

Todo o conjunto de resultados foi importante para subsidiar a obtenção, junto ao Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), da IG (Indicação Geográfica) da própolis vermelha. “Esta certificação, válida internacionalmente, estabelece o Estado de Alagoas como único produtor no mundo de própolis vermelha, sendo, também, a primeira IG obtida para uma própolis. Com essa certificação, a própolis vermelha brasileira conquistou um novo patamar de competitividade no mercado nacional e internacional.”

Cristiane Bonin
cristiane.bonin@jpjornal.com.br

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