Em meio ao cenário de guerra ‘anjos’ aparecem, atendem por João e Gisele e moram na Eslováquia

Por Laís Seguin |
| Tempo de leitura: 4 min

Casal de brasileiros que mora no Leste Europeu ajuda a salvar jogadores piracicabanos da guerra

“Sobre o João e a Gisele, não tem nem o que falar… são simplesmente dois anjos que Deus enviou para a nossa vida nesse momento tão difícil. Pessoas maravilhosas que disponibilizaram tudo de bom e do melhor para a gente. Muita gratidão a eles do fundo do meu coração”. O depoimento emocionado do jogador piracicabano Gabriel Patreze, 22, à reportagem do Jornal de Piracicaba resume bem o que esse casal representou para ele e seus amigos, jogadores do Volchansk, da Ucrânia, durante o longo processo de fuga da guerra e volta para o Brasil.

O drama de Patreze e dos seus quatro amigos, entre eles, o também piracicabano Victor Adame, 20, e mais os atletas Wendel, de Limeira; Luan, do Rio de Janeiro; e Joanderson, de Recife, só não foi maior devido ao bom coração de João Paulo Barbosa Araújo, 29, e Gisele Chamorra, 34. João Paulo é de Piracicaba – morava no Jardim Brasília - e Gisele é natural de Santa Bárbara d´Oeste. Eles se casaram em 2018, no mesmo ano que foram para a cidade de Kosice, na Eslováquia, pois Gisele recebeu uma proposta de emprego para ser coordenadora de RH em uma empresa que fica nesse pequeno país de 4,5 milhões de habitantes no Leste Europeu. Quando ficaram sabendo da situação dos cinco jovens brasileiros, não tiveram dúvidas: fizeram o “impossível” para levá-los para casa deles.

Com a ajuda da Embaixada do Brasil e de muitas pessoas – brasileiros, ucranianos, eslovacos e de outras nacionalidades –, eles conseguiram dar todo o suporte necessário aos atletas piracicabanos e ainda a Wendel, de Limeira; Joanderson, de Recife; e Luan, do Rio de Janeiro. Durante cerca de duas semanas, o casal dormiu pouco e trabalhou muito para cuidar dos rapazes e também para tentar solucionar toda a burocracia para que eles pudessem voltar ao Brasil com segurança e o mais rápido possível. Nesse período, João Paulo praticamente parou de trabalhar – é analista de dados – para cuidar da situação dos atletas do Volchansk, time da Segunda Divisão da Ucrânia.

“Eu já conhecia a família do Victor Adame. Quando soube que eles estavam aqui (na Ucrânia, também na Europa), a gente entrou em contato com eles. Até então, o conflito não havia começado, mas nós já estávamos interessados em ajudar”, conta João Paulo. “No momento em que o conflito estourou, eu fiquei em contato quase que diário com o pai do Victor, ou padrasto, não sei direito, de nome Jefferson. Aí começamos a oferecer ajuda, pois sabíamos que era uma possibilidade essa travessia pela Eslováquia. E com o tempo essa possibilidade aumentando e deu certo.”

João Paulo conta que, quando a situação ficou insustentável, eles tiveram “de entrar de cabeça” na situação. “Aí foi uma correria. Pega informação na Embaixada, com a polícia, com todo muito… Inclusive, alguns ucranianos nos ajudaram com algumas informações. Foi quando nós tivemos a definição de que teria mais sentido e seria mais tranquilo essa vinda por aqui (Eslováquia)”, narra João Paulo, que, após a pandemia, vem trabalhando em casa, o que ajudou também, pois teve mais tempo para dedicar-se aos cinco jogadores brasileiros que estavam literalmente no “fogo cruzado” na Ucrânia.

E assim foi feito. O grupo viajou mais de 24 horas em um trem cedido pela Embaixada Brasileira de Kharkiv, onde estavam, até a cidade de Lviv, próximo à fronteira. Depois isso, pegaram mais um trem de sete horas, além de terem de ficar mais nove horas na fronteira para fazer a travessia. “Nesse tempo, a gente articulou aqui com a Embaixada e muita gente ajudou, não somente o eslovaco, mas também outros estrangeiros que estavam aqui. Foi legal sentir isso: muita gente preocupada. Muita gente oferecendo ajuda”.

João Paulo lembrou ainda que, “o cônsul honorário, de nome Daniel, ofereceu um carro para fazer a acolhida dos meninos a partir do momento que eles atravessaram a fronteira”. “Quando eles chegaram, já trouxemos eles para o nosso apartamento”, explicou.

Salvos da guerra, eles ficaram cerca de uma semana hospedados na casa de João Paulo e Gisele. Durante esse período, o piracicabano e a esposa mostraram aos cinco visitantes as belezas do simpático país europeu para deixá-los bem à vontade, mais calmos e felizes. “Eles gostaram tanto daqui que até falaram que, se conseguissem um emprego, não voltariam mais”, revelou João Paulo, em tom de brincadeira.

Mas chegou a hora de voltar. No dia 3 de março, eles pegaram o voo de regresso, passando pela Hungria e Alemanha, antes de pousar no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, na Região Metropolitana, ainda na madrugada da última sexta-feira, dia 4. Final feliz para cinco jovens que sonhavam com o sucesso no futebol europeu, mas encontraram a guerra na Ucrânia e o verdadeiro espírito humanitário na Eslováquia, através de um piracicabano e de uma barbarense.

Erivan Monteiro
erivan.monteiro@jpjornal.com.br

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