Jogador piracicabano conta seu drama na Ucrânia

Por Laís Seguin |
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‘Teve tanque passando por cima de carro com pessoa dentro’ relata o jogador à reportagem do JP

O sonho de se tornar um jogador de futebol profissional na Europa por enquanto é um pesadelo, um sofrimento que parece não ter fim para o atacante Victor Adame, 22. Piracicabano e revelado pelo XV de Piracicaba, o jovem atacante desembarcou na pequena Volchansk, uma cidade de menos de 20 mil habitantes da Ucrânia, há cerca de duas semanas, para jogar no time do mesmo nome. Ainda estava conhecendo seus companheiros de clube, quando a Rússia invadiu o país e a guerra explodiu.

“Estou bem graças a Deus, mas o clima é bem tenso aqui. Agora deu uma acalmada. Mas há cerca de 1h30 teve uns ataques intensos aqui”, disse o jogador por volta das 20 horas de sexta-feira, 25, no horário de Brasília, quando conversou com a reportagem do JP. “Está muito tenso. Agora, estamos em um apartamento da cidade de Kharkiv”, contou o piracicabano, que tem a companhia de mais quatro brasileiros, companheiros de time - Gabriel, Joanderson, Luan e Wendel.

Diferente da pequena Volchansk, Khakiv (que ainda pode ser grafado como Kharcov ou Carcóvia) é a segunda maior cidade da Ucrânia, com quase 1,5 milhão de habitantes. O quinteto brasileiro está sob os cuidados do clube, que vem dando todo o suporte necessário, na medida do possível. E o governo brasileiro também, testemunha o jogador. “Mas estão de ‘mãos atadas’ por conta dos ataques constantes. Eles (funcionários da Embaixada Brasileira) só orientam a gente sobre como agir”, disse.

A agitação da segunda maior cidade da Ucrânia contrasta com a situação vivida nos últimos dias. Quase não há pessoas circulando nas ruas; e as pouquíssimas que se aventuram a fazer alguma coisa fora de casa, só a fazem em casos de extrema urgência. Resultado: Khakiv vive um silêncio que chega a dar pânico. “A cidade, que costumava ser movimentada, está bem parada”, constata o piracicabano.

Apesar do medo, o jogador sente-se mais tranquilo nos últimos dias por saber que está relativamente protegido no apartamento de Khakiv, um local com boa estrutura para essas situações de conflitos. “Mas a qualquer barulho que escutamos, descemos e ficamos no bunker do prédio, onde é mais seguro em casos de bombardeios”, disse. O “bunker”, citado por ele, é um abrigo subterrâneo fortificado e blindado, construído para dar proteção em situações de guerra e de projéteis.

TREM
A Embaixada Brasileira anunciou na tarde desta sexta-feira, 25, que um trem partiria de Kiev com destino à cidade de Chernivtsi, no oeste do país, próximo à divisa com a Romênia, onde os brasileiros iriam ficar. Mas não serviria para os jogadores brasileiros do Volchansk. Victor Adame e seus amigos estão em Kharkiv, bem distante da capital. “Para pegar esse trem teríamos de ir a Kiev. Mas é um risco muito grande. Dá umas cinco horas de carro. E tem muito conflito na rodovia. Teve tanque passando por cima de carro com pessoa dentro”, contou, visivelmente assustado.

O jovem piracicabano iniciou a carreira no XV de Piracicaba, onde jogou inicialmente dos 12 aos 13 anos, entre 2012 e 2013. Anos depois, em 2018, no Sub-20, voltou ao Barão e ficou até o final de 2020. Atuou ainda pelo Costa Rica, do Mato Grosso do Sul, e pelo Patrocinense, de Minas Gerais, antes de partir para o Leste Europeu.

Quando chegou para ser o novo meia do Volchansk, time da Segunda Divisão da Ucrânia, Victor Adame tinha sonhos e planos. Hoje, seu único objetivo é torcer para que tudo isso acabe logo e, se possível, com a volta para casa. O campeonato local iria começar no final de março, mas, com esse caos, não há mais previsão alguma. A única previsão, agora, é a luta pela vida.

Erivan Monteiro
erivan.monteiro@jpjornal.com.br

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