A incessante busca por conhecer, qualificar e aperfeiçoar a saúde pública

Por Laís Seguin |
| Tempo de leitura: 7 min

Hamilton Antonio Bonilha de Moraes é formado pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), têm residência médica no Departamento de Moléstias Infecciosas do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), onde garantiu o título de especialista em Infectologia e terapia intensiva. Foi também docente de clínica médica da faculdade de Medicina da Fundação ABC de 1987 a 1990, Presidente da Sociedade Paulista de Infectologia de 2004 a 2007, Diretor Regional de Saúde (DRS 10) de 1997 a 2020. Atualmente, trabalha nas funções de Coordenador do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) da Santa Casa e Hospital Unimed de Piracicaba e Infectologista do Instituto de Vacinação e Infectologia de Piracicaba (IVIP). Nesta entrevista, o médico infectologista fala ao Persona sobre sua carreira, trabalho com a covid-19 e avalia a saúde pública.

Qual a sua história com a cidade de Piracicaba?

Tenho muito orgulho de ser piracicabano, nascido no bairro cidade alta, ter estudado na escola estadual Sud Mennucci por onze anos e retornado após minha formação médica com o objetivo de contribuir para a saúde do município.

O senhor sempre quis ser médico? O que te motivou a escolher essa profissão e a especialidade de infectologia?

Sim, desde criança, acredito que por influências dos meus pais, que como todos naquela época, valorizavam muito esta profissão. No quarto ano da faculdade, após um estágio opcional no departamento de moléstias infecciosas da Unicamp, pude constatar a capacidade do conhecimento dos docentes, abrangência clínica da infectologia e definí-la como minha especialidade.

Como o senhor avalia a visibilidade que a sua especialidade tem conquistado ao longo dos anos?

A infectologia é uma especialidade com uma amplitude enorme de doenças causadas pelos mais diversos microrganismos responsáveis por doenças tropicais, infecções adquiridas na comunidade e no hospital. A maior visibilidade está diretamente relacionada ao surgimento de novas doenças, epidemias e pandemias. Em relação as pandemias que enfrentei como infectologista foram a Aids, Gripe Suína e recentemente a Covid-19.

Quais foram as maiores dificuldades que o senhor enfrentou no começo do trabalho na profissão?

Foi o enfrentamento da Aids, que surgiu durante o final da minha graduação. Uma doença viral implacável por muitos anos, que além de levar a morte em poucos meses provocava medo nos profissionais de saúde pelo risco de contaminação, impactando na assistência e discriminação dos doentes. As alterações físicas que ocorriam pela doença e antivirais iniciais eram facilmente reconhecidas pelas pessoas ao redor, gerando discriminação de outros pacientes em relação aos infectologistas que cuidavam desses enfermos.

Qual a maior dificuldade que o senhor enfrenta atualmente com o seu trabalho?

Com certeza é a pandemia da Covid-19. Apesar da significativa redução de casos graves decorrente do avanço da vacinação em nosso país, o que preocupa são as incertezas sobre a possibilidade de novas ondas decorrente do aparecimento de novas cepas mutantes do vírus SARS CoV-2, decorrente da baixa adesão da imunização em outros países.

O SARS CoV-2 que surgiu a princípio na China foi suficiente para acumular conhecimento prévio antes da chegada no Brasil?

O atraso de cerca de três meses do início da pandemia no Brasil em relação aos outros países foi importante para se adquirir alguns conhecimentos sobre a doença, mas não o bastante. O curto intervalo de tempo foi o suficiente apenas para algumas experiências de vida real, mas ainda sem comprovação científica, mas para quem estava na linha de frente do enfrentamento essas informações foram muito relevantes, principalmente no que se referia ao diagnóstico e manejo da doença.

O conhecimento prévio de outras epidemias ajudaram no começo desta que estamos agora?

Com certeza, a experiência adquirida de vida real das duas ondas anteriores causadas pelo SARS CoV-2, original e variante P1 de Manaus, responsáveis pela maioria dos óbitos em nosso país, associada ao embasamento científico dos estudos nacionais e internacionais tiveram influência significativa na melhoria da assistência ao paciente no âmbito ambulatorial e hospitalar.

A respeito da contaminação, no início era recomendado que apenas a pessoa com sintomas usasse máscara. O que mudou?

Quando houve a confirmação que a transmissão do vírus poderia acontecer através de pessoas assintomáticas tive a convicção de que a máscara fácil seria a forma mais importante de prevenção dessa doença. Desde então, passei a recomendar o uso obrigatório da máscara facial nos serviços que eu coordenava, estando registrada em uma ATA de reunião do dia 26 de março de 2020 em um hospital que trabalho. Portanto, a recomendação de se usar máscara apenas em pessoas com sintomas da doença nunca fez parte das minhas rotinas de prevenção. Infelizmente, nem sempre as pessoas responsáveis por normas inseridas em protocolos possuem a vivência de quem assiste os pacientes.

Quais outras informações sobre a contaminação e transmissão do vírus foram sendo estudadas e compreendidas de uma maneira melhor ao longo deste período de pandemia?

Com a evolução da pandemia verificou-se uma menor relevância na prevenção da transmissão por superfícies, mas ainda existe o reconhecimento que as pessoas podem se infectar ao tocar nos olhos, nariz ou boca após contato com objetos ou superfícies contaminadas, daí a importância de se manter a higienização das mãos e uma maior importância de que a transmissão ocorra principalmente durante o contato pessoal próximo e por meio de aerossóis em espaços mal ventilados ou lotados, reiterando o valor essencial do uso da máscara facial.

Quais perguntas ainda permanecem sem resposta sobre a infecção pelo Coronavírus?

Acredito que nunca a comunidade científica estudou tanto uma doença em tão pouco tempo minimizando as dúvidas relacionadas a ela. Após dois anos do surgimento da Covid-19 pudemos constatar um avanço tecnológico no diagnóstico e prevenção com a aprovação das vacinas, ambos acessíveis a população brasileira. Infelizmente, os tratamentos iniciais com ação antiviral e bloqueadores da entrada do SARS CoV-2 na célula evitando a replicação viral, devido ao alto custo, são inviáveis para a grande maioria das pessoas. Priorizar a adesão a imunização no Brasil e incentivar a distribuição das vacinas aos países mais pobres será a melhor maneira de minimizar os riscos de mutação viral e, consequentemente, o surgimento de novas ondas e nos aproximar do fim da pandemia.

Quais lições que aprendemos que vamos levar para o pós pandemia?

Em 37 anos atuando como infectologista nunca havia convivido com uma doença tão cruel como esta. Um vírus invisível capaz de exterminar cerca de 6 milhões de pessoas no mundo e 640 mil brasileiros em dois anos, que além do impacto que provocou na saúde pública, gerou conflitos políticos ideológicos com posicionamentos irracionais que minimizaram a importância da pandemia e se colocaram acima da ciência e, consequentemente, da vida das pessoas, através das mídias sociais e de alguns veículos de comunicação tendenciosos e negacionistas.
Se não bastasse o desgaste dos profissionais de saúde no enfrentamento da doença existe a necessidade de esclarecer constantemente as notícias falsas, principalmente sobre vacinas.
A epidemiologia da pandemia nos faz prevê que deveremos ter alguns meses sem o surgimento de uma nova onda da doença, tempo crucial para se organizar e instituir ações voltadas para evitar ou mitigar as possíveis consequências, como medidas no âmbito municipal e estadual que possam aumentar a taxa de adesão à vacinação das crianças através das sociedades médicas com envolvimento dos pediatras e secretaria da educação, e de idosos através de busca ativa em domicílio ou em casas de repouso com a finalidade de identificar aqueles que não receberam a terceira dose e sensibiliza-los da importância de completar o esquema vacinal. Do âmbito federal, além de deixar evidente a eficácia da vacinação é relevante que atitudes sejam tomadas com o intuito de incentivar a Organização Mundial da Saúde (OMS) em promover ações vinculadas aos países mais ricos em realizar uma distribuição igualitária das vacinas aos países mais pobres com o objetivo de minimizar os riscos do surgimento de novas variantes do vírus, principalmente pela evidência que a vida restritiva imposta pela pandemia não tem retorno, apesar dos receios e incertezas após a contaminação, principalmente se presenciou a perda de um ente querido.

Laís Seguin
lais.seguin@jpjornal.com.br

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