O maestro dos novos horizontes

Por Laís Seguin |
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Desde 1998, o maestro Knut Andreas, de 43 anos, e? regente titular da Orquestra Sinfônica Collegium Musicum Potsdam (OSCMP), sua cidade-natal, e desde 2014 é regente titular da Orquestra Sinfo?nica Jovem de Berlim (OSJB), ambas na Alemanha. Andreas atua como professor honorário de história da música e gestão musical na Universidade de Potsdam. Com a OSCMP, criou programas de educação musical para crianças e jovens. Também elaborou um projeto de concertos voltados para pessoas idosas que vivem em asilos, com o objetivo de conectar o público de qualquer idade com a música erudita. Há dez anos desenvolve o projeto de intercâmbio cultural Brandenburgo-Brasil. Em turnês, regeu a OSJB na Albânia, Franc?a, no Brasil, em Taiwan e na Itália.

Como regente convidado tem atuado em diversas orquestras, entre elas a Orquestra Sinfo?nica da Ra?dio e TV da Eslove?nia e a “Deutsches Filmorchester Babelsberg”, em Potsdam. Foi convidado a reger nos festivais de música antiga e de o?pera de Potsdam e no Festival de Viena. Regeu a o?pera ‘3 Bilho?es Irma?s’ na Volksbu?hne Berlin, peça premiada como Melhor O?pera da Última Temporada, em Berlim.

No Brasil, Andreas trabalhou com as orquestras de Campinas, Americana e Ribeira?o Preto, com a Orquestra da Unicamp e com a Orquestra de Ca?mara Opus (em Belo Horizonte). Ele foi premiado Melhor Regente no Festival Internacional Michelangelo (Firenze) e pela Academia de Letras e Artes de Paranapua?, Rio de Janeiro, com a medalha Austrege?silo de Athayde.

Em dezembro de 2021, foi anunciado como diretor artístico e regente titular da OSP (Orquestra Sinfônica de Piracicaba). No último dia 5 de fevereiro, na Catedral Santo Antônio, fez sua estreia oficial à frente do conjunto sinfônico, considerado Patrimônio Cultural e Imaterial do Município de Piracicaba e com 122 anos de trajetória artística.

Em que momento e oportunidade da sua vida conheceu o Brasil e como chegou a Piracicaba?
Viajei ao Brasil pela primeira vez em dezembro de 2006, a Manaus. Passei seis semanas lá, na casa de um amigo, que foi meu primeiro professor de português. Confesso que, durante essas semanas, entendi pouquíssimo das conversas. Gostei muito do calor de Manaus, da comida, da natureza com cachoeiras lindas. Alguns anos depois, o maestro Parcival Módolo, que reside em Santa Bárbara d'Oeste, me mostrou pela primeira vez a cidade de Piracicaba. Fizemos o belo passeio no rio e almoçamos peixe na Rua do Porto. Inesquecível, além de muito delicioso!

O que representa na sua profissão reger a OSP? E qual é o sentimento quando está no palco, na frente de inúmeros músicos?
É uma honra reger a Orquestra Sinfônica de Piracicaba. Desde o primeiro concerto que eu regi no Brasil, me encanto pela dedicação dos músicos às obras e pela alegria e vontade com qual eles estão trabalhando. Fico muito feliz pela oportunidade de intensificar esse trabalho, agora em Piracicaba, e levar os frutos desse trabalho ao palco, lugar que me sinto sempre em casa.

Quais suas ideias ou projetos para o conjunto musical e como isso é discutido com o todo o grupo?
Estamos finalizando o programa para a Temporada 2022, que elaboramos incluindo muitos desejos, tanto dos músicos quanto do nosso público, em sintonia com o diretor artístico associado da OSP, André Micheletti, e com o maestro emérito Jamil Maluf. Queremos mostrar a ampla variedade de música (não só clássica), que se toca com orquestras, até abrindo alguns novos horizontes.

O que a música representa para você atualmente e como foi seu primeiro contato com esta arte?
Felizmente, desde muitos anos, a música está no centro da minha vida, seja isso ouvindo música, falando sobre ela, ensaiando e tocando. É um presente na vida de qualquer músico poder ganhar dinheiro com essa profissão e por meio dela transmitir a alegria e muitos outros sentimentos musicais ao público. Os primeiros contatos com a música clássica eu tive em concertos em uma pequeníssima igreja no norte da Alemanha, no Mar Báltico, e na ópera de Potsdam.

Como popularizar a música erudita entre a sociedade e, também, nas periferias brasileiras?
Programas chamados “cross-over”, que juntam música clássica com música pop ou rock, por exemplo, podem ser uma boa opção para chamar a atenção de um amplo público de interesses musicais diferentes. Também é importante que a orquestra, de vez em quando, saia do seu lugar tradicional e apresente-se em vários lugares das cidades.

O que o maestro ouve atualmente e quais são seus artistas preferidos na música? Prefere o fone de ouvido ou a caixa de som para apreciar um som?
Dependendo do lugar onde eu escuto música, uso tanto o fone quanto a caixa, mas sempre preferindo um concerto ao vivo. Nesse momento, respondendo às perguntas, estou ouvindo trilhas sonoras do fantástico compositor italiano Ennio Morricone. Entre os meus artistas preferidos, encontra-se a incrível cantora e maestrina Nathalie Stutzmann, o regente Eliahu Inbal e o violinista italiano Fabio Biondi.

Como avalia a promoção da cultura no Brasil? Quais são os pontos positivos e negativos?
Cada vez mais no Brasil eu fico impressionado com a quantidade de orquestras em várias cidades do Estado de São Paulo. E a cultura é muito mais do que o erudito. Eu percebo muito mais música tocada ao vivo do que na Alemanha, seja isso em bares, restaurantes ou casas de shows. Para desenvolver e manter qualquer grupo musical precisa-se de recursos constantes. Isso é um desafio em qualquer lugar desse mundo. Cultura sempre depende de recursos públicos e iniciativas privadas.

O que falaria ou recomendaria a jovem que pretende buscar uma carreira na música?
Dedique-se intensamente a seu instrumento e à música, ensaiando todos os dias. Mas tenha um plano B, caso o seu grande desejo e sonho de ser músico não se realize.

Como ser humano, qual é o seu maior sonho? E como profissional da música, qual seu maior projeto?
Atualmente, o meu maior sonho é que paremos de dividir a sociedade em mais e mais grupos e subgrupos e que achemos um caminho de volta ao humanismo. A música sabe reunir pessoas e pode nos ajudar. A pandemia de covid-19 nos ensinou a não pensar mais em grandes projetos, pelo menos não por enquanto. Por isso, estou muito feliz e grato a cada concerto realizado nesse tempo difícil.

Cristiane Bonin
Cristiane.bonin@jpjornal.com.br

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