‘Piracicaba mudou minha a vida; hoje eu sou outra pessoa!’

Por Laís Seguin |
| Tempo de leitura: 6 min

Antonio Marco Pereira Araújo se encontrou em Piracicaba. O então jovem sonhador saiu há nove anos de Várzea, uma cidadezinha de 2.500 habitantes no interior da Paraíba, para trabalhar e “ganhar e vida” aqui na Noiva da Colina. Mas, nesse meio tempo, acabou sendo apresentado ao atletismo por um colega. Foi amor à primeira vista! Por meio de uma corrida turística, meio despretensiosa, ele descobriu que tinha o dom de correr provas de fundo, aquelas acima de 5.000 metros e que podem chegar até a 42,195 metros, no caso das competições olímpicas. Hoje, aos 35 anos, ele curte a fama conquistada pelo 12º melhor tempo na tradicional Corrida Internacional de São Silvestre de 2021, com o tempo de 48min36seg. Como não saiu do grupo de elite, a sua marca não foi computada no ranking oficial da SS. Mas não importa. O mais gratificante foi a marca atingida.
Isso mesmo, por que, para se ter uma ideia do feito de Antonio Marco, basta comparar o tempo dele com o do campeão da São Silvestre Belay Bezabh. O etíope marcou 44min54seg. Já o vice-campeão, o brasileiro Daniel Ferreira do Nascimento, fechou a São Silvestre com a marca de 45min09seg.
Vale lembrar que, para sair no primeiro pelotão da Corrida Internacional de São Silvestre, o atleta tem de conquistar resultados durante o ano e se destacar no cenário nacional e internacional de provas de rua. Devido à pandemia, o atleta de Piracicaba não fez corridas em 2021 e, consequentemente, não conquistou o índice. A elite contou com apenas 33 competidores na edição masculina da SS, com representantes do Brasil e do exterior. Já o segundo pelotão teve cerca de 20 mil pessoas. “Saí no meio do povão e foi buscando um a um”, conta, orgulhoso, o corredor, que mora no Nova América, mas atualmente treina da equipe Top Training, de Americana.
Para esse ano, ele pretende disputar mais provas para conseguir o tão sonhado índice para, enfim, sair da elite da São Silvestre e mostrar o seu valor entre os melhores.
“Garçom nas horas vagas” ou “entre os treinos”, como gosta de falar, Antonio Marco – atualmente com 35 anos - só lamenta o fato de ter encontrado o esporte um pouco tarde. Mesmo assim, tem se dedicado para correr ainda por mais cinco anos, pelo menos. Está atrás de investidores que possam ajudá-lo para viver somente do que mais gosta de fazer. “Meu sonho é me tornar um atleta de elite e estar entre os melhores. Também arrumar um patrocínio que eu realmente consiga me dedicar 100% ao atletismo”. Nessa entrevista ao JP, o piracicabano de coração fala de sua trajetória no atletismo, suas marcas e suas metas para os próximos anos. Confira abaixo os principais trechos:

Você veio do Nordeste para cá, onde conseguiu se desenvolver no esporte. Lá você já praticava no atletismo?
Em morava em uma cidade chamada Várzea, na Paraíba. Uma cidadezinha de 2.500 habitantes, bem do interior. Lá eu nunca tive incentivo de ninguém, por isso eu nunca pensei em correr. Quando eu cheguei aqui em Piracicaba, há uns nove anos, um colega (o nome dele é Claudecir) me chamou para uma prova turística. Eu acabei indo e me pra minha surpresa fui campeão em minha categoria, se não estou enganado. Desde então, eu não parei mais. Eu me desafiei; coloquei objetivos e fui progredindo a cada dia no atletismo.

Você lamenta ter descoberto o atletismo tarde?
Com certeza. Eu fico sempre me perguntando e pensando como seria se tivesse começado com pelo menos 18 anos. Aos 18 anos era a idade que eu estava vendo o que queria para a minha vida. Eu comecei somente com 27 anos. Se eu tivesse começado oito, dez anos antes, certamente eu seria um outro Antonio Marco no atletismo.

Por quanto tempo acredita que ainda correrá em alto nível ainda?
Cara, eu espero ainda mais uns cinco anos. Pelo menos uns cinco anos.

Como Piracicaba entrou em sua vida? Chegou aqui para trabalhar, estudar…
Eu vim para trabalhar mesmo. Não tinha o intuito de ser atleta. Não tinha noção do que era esse mundo do atletismo. Quando eu me encontrei com ele (o esporte) eu pensei: puxa, é isso o que eu quero para a minha vida e comecei a batalhar atrás do meu sonho.

Então, pode-se dizer que Piracicaba mudou sua vida?
Sim. Piracicaba mudou minha vida. Hoje eu sou outra pessoa, com certeza!

Quando você iniciou no atletismo, imaginava resultados tão bons?
Pra ser sincero não. A gente sonha, mas não imaginava se seria real. E nos últimos dois, três anos, as coisas vêm acontecendo. Então só tenho que agradecer a Deus a meu professor (Anito Pinheiro Alves) pelos resultados que eu venho obtendo.

No começo, a corrida foi um hobby mesmo? Você disse que foi um desafio de um amigo…
Foi isso mesmo, mas eu fiz desse hobby um negócio sério. Os resultados foram aparecendo. E assim eu fui atrás de um professor e desde então tenho só evoluído.

Como é a sua rotina diária de treinos?
Eu atualmente estou treinando em dois períodos, pela manhã e à tarde. Mas como eu trabalho, às vezes em dois períodos também, eu fico encaixando os meus treinos com as janelinhas entre o trabalho. Tudo isso seis dias na semana. Dá uma média de 20, 25 km por dia.

Na prova da São Silvestre, você fez um tempo muito bom. Você só lamenta não ter saído da elite da prova, senão você teria chegado em um resultado até melhor que 12º lugar, porque sairia na frente e não no meio do povão. Como você viu esse tempo e esse ano você pretende buscar o índice para sair na elite?
Não esperava chegar nessa colocação, mas sim com um tempo aproximado ao que eu cheguei. Agora, o meu sonho é largar na elite da São Silvestre. E pra isso, tenho de atingir o índice em algumas provas. De 10 km é sub 31 (31 minutos) e 15 km é sub 48 (48 minutos) e assim vai indo. Você tem de fazer as provas e atingir esses índices durante o ano pra largar na elite. Nesse ano, com certeza vou conseguir esse índice para largar na elite da São Silvestre.

Quais as provas que você vai tentar o índice neste ano?
Tenho de tentar obter o índice em duas provas. Esse ano que tenho a de Apucarana, uma corrida de 10 km que eu vou fazer lá. Inclusive, foi adiada pela pandemia, seria dia 30 agora. Tem a prova Tribuna de Santos e tem uma meia maratona de SP, além da maratona de Porto Alegre.

Quais os seus planos para o atletismo nos próximos anos?
O meu principal objetivo é conseguir um patrocínio para que eu consiga me manter em alto rendimento por uns quatro, cinco anos ou mais. E correr sempre bem.

Erivan Monteiro
erivan.monteiro@jpjornal.com.br

LEIA MAIS

Comentários

Comentários