Tupi: cem anos!

Por David Chagas |
| Tempo de leitura: 4 min

Desde o final do ano passado quero escrever sobre bairro que, nas tantas viagens feitas por mais de dez anos, entre Piracicaba e Campinas,passando por ele, sonhei contar a forma como a natureza se organiza a sua frente, a sua direita, por trás, dando-lhe graça, guardando seu contorno, preservando sua gente.
Vim poucas vezes, é bem verdade, caminhar por suas terras. Algumas delas, ao longo dos anos em que, secretário municipal de Ação Cultural, visitei seus moradores, sua igreja, sua organização urbana, caminhando entre gente acolhedora que me recebeu com dignidade e apreço. Era bastante jovem, já professor, e gostava de saber como reconheciam os acertos de um governo rigorosamente preocupado com políticas públicas de cunho social, desejoso de acertar e dar impulso à população como um todo, em especial, os mais vulneráveis que não dispunham nem dispõem do que, por direito, deveriam usufruir.
O setor cultural, sem dúvida, poderia dar-lhes, em projetos que alimentava, discernimento para enfrentar mudanças de comportamento necessário, permitindo com isso escolhas que se preocupassem, como nos preocupávamos naqueles longes, com seu bem-estar e suas conquistas. Muitos nos rotulavam erradamente, desacreditados de nosso correto desejo de sociedade mais igualitária e humana.
No governo de São Paulo obtive apoio imprescindível de José Mindlin, um grande amigo, com quem pude trocar experiências e ideias até o fim de seus dias. Quanto me ajudou a suportar as injustiças que se cometiam quase diariamente tentando dar fim a ideias que entendiam subverter o que acreditavam atender a seus interesses neoliberais imediatos.
No Tupi (aqui respeito a forma como gostam de referir-se ao bairro) sempre encontrei eco para discutir ideias como as estas. Tinha, então, prazer em trocar conversas, valendo-me dos quintais cobertos de árvores frutíferas e agradáveis de estar para assuntos desta ordem.
Depois disso, algumas outras vezes pude estar no bairro, agora, para encontrar-me com os Angolini, onde tenho Antonio Carlos e Eloísa, dentre tantos, como especiais amigos. Antonio Carlos é fonte viva de informação sobre o local. Não fora sua palavra amiga, seu livro contando a história do bairro, talvez não pudesse escrever. Aclarou-me tanto, com fotos recortes de jornais e revistas, decretos publicados por este ou aquele motivo, desde a linha férrea em 1921, aos dias atuais.
Foi, na verdade, quem me convidou a festejar o centenário do bairro dando-me, em comentários precisos, informações que não tinha. O devotamento a sua terra foi tal que a emoção me tomou o espírito fazendo crescer a vontade de estar em Tupi mais e mais. Aquietei-me com leitura de tudo o que me enviou a partir de dezembro de 2021.
Espero,os locais não se aborreçam comigo ao ignorar artigo que costuma anteceder o nome do bairro. Jamais ouvi algum tupiense dizer como digo agora. A referência sempre foi o Tupi. Nas simpáticas visitas que me faziam presenteando-me com jabuticabas, especialmente trazidas do Tupi ou quando insistiam comigo a que não perdesse as festas juninas no Tupi, respeitosas da origem portuguesa e da tradição local. Por algumas vezes busquei explicação que me familiarizasse com esta forma eloquente de tratar seu nome de origem, como se realçassem com isso aspectos que só Tupi tem.
Coisas do dialeto caipira, vivo e encantador. Se o leitor é daqui há de entender-me. Se de fora e andou lendo o professor Antonio Cândido, em sua tese como sociólogo, além de outras tantas obras suas em que defende com vigor a literatura como forma de emancipação social e cultural, há de concordar comigo no que deixo entrever acerca desta riqueza cultural que nos pertence.
Aprendi quanto esta variação linguística é essencial para poder entender, vivenciar e admirar a vida deste homem rude desejoso de oferecer, na linguagem, na forma de ser, em tudo o que faz às margens do rio bonito,a caipirice que dá brilho à sua história e aos muitos segredos que soube guardar. Até quem não tenha nascido aqui, acaba por envolver-se de tal modo com a cidade passando a falar das belezas que nela encontra e do que ela tem.
Tupi é, sem dúvida, uma destas belezas bem guardadas. Cada vez que volto a rever sua história nas páginas bem traçada por Antonio Carlos Angolini, vibro. Deixo envolver-me pela melodia dos nomes das cercanias de Tupi. Gosto, por exemplo, quando afirmam ser Tupi gêmeo de Caiubi ou quando citam, na sua origem, as terras do Tijuco Preto. Sem falar, é claro, em seu Horto Florestal e do pessoal que por lá vive, desde sempre, passarinhando ao enfiar-se em paisagem de romance e poesia.
Quantos terão, como Tupi, em sua certidão de nascimento, beleza igual ao texto centenário de sua criação. “Suas divisas começam na confluência do ribeirão Lambary com o rio de Piracicaba; sobe por esse ribeirão até encontrar o município de Rio das Pedras; por essa divisa, até encontrar o ribeirão do Baptistada, partindo em linha recta, dahi, até encontrar as nascentes do ribeirão de Recanto. Descem por este até o rio Piracicaba e, por este, rio acima, vão até à foz do ribeirão Lambary, ponto em que tiveram começo”.
E por ter encontrado nas histórias de Tonca tanto causo bem contado, fiz do meu coração pouso para festejar os cem anos. Tupi. Centenário.

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