Artista plástico desde pequeno, Ermelindo Nardin nasceu em Piracicaba (SP) no 19 de fevereiro de 1940.
Estudou na Escola de Belas Artes de São Paulo entre 1957 e 1962, além do Masp (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand). Frequentou também cursos no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC/USP) em 1968, ano em que também realizou sua primeira exposição individual no MACC (Museu de Arte Contemporânea de Campinas).
Na Escola de Belas Artes de São Paulo, Ermelindo Nardin também foi professor de xilogravura entre 1961 e 1962.
Em 1980, recebeu o prêmio de melhor desenhista da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Em 1983, publicou seu livro “Retratos Imaginários de Ermelindo Nardin 1978/1983”, pelo Masp, com texto de Jacob Klintowitz. Em 1986, foi professor no Departamento de Artes Plásticas da Unicamp. Já em 1988, foi professor de Expressão Gráfica, Formas e Cores no Paço das Artes. Ermelindo Nardin é mais do que um artista, é uma pessoa que leva para frente o nome de Piracicaba, visto que possui quadros nos mais diferentes museus de todo o mundo.
Nesta entrevista concedida ao Jornal de Piracicaba, Ermelindo Nardin fala um pouco de seu começo no mundo das artes, de sua paixão pelas exposições, da cultura geral aqui no Brasil, e claro, sobre o começo de sua carreira aqui em Piracicaba.
Como começou o seu interesse pelas artes?
Meu interesse pela arte de maneira geral começou desde pequeno. Começou quando eu ainda era muito novo. Eu comecei a estudar com o Frei Paulo no Convento dos Capuchinhos da avenida Independência quando tinha apena sete anos. Estudei lá, que foi onde conheci uma porção de gente. De lá para cá, não parei mais. Fui para São Paulo, estudei na Escola de Belas Artes. Depois quando me formei dei aula na Belas Artes por bastante tempo, além da Unicamp, onde dei aula por mais de dez anos. Sempre no setor de Artes Visuais. Mas tudo teve origem aos sete anos de idade, quando estudei com o Frei Paulo.
Em 1968, você realizou a sua primeira exposição individual no MACC (Museu de Arte Contemporânea de Campinas), como foi isso?
Sim, minha primeira exposição individual foi no MACC (Museu de Arte Contemporânea de Campinas). Eu estava começando a dar aula nessa época, num curso lá no MAC mesmo, e me convidaram para fazer essa exposição. A realizamos e, de lá, a exposição seguiu para São Paulo. Foi em São Paulo que tudo deu certo. Daí para frente continuei fazendo outras exposições.
Falando um pouco do seu processo criativo, o que te influencia bastante no processo de realização de uma obra?
Muitas pessoas me influenciam, tais como escritores, pintores e músicos. Sou altamente influenciado por esse tipo de coisa. Claro que tenho influências e admiração por vários artistas, como artista plástico, porém, durante a elaboração de um trabalho, eu costumo ouvir muita música.
E como você traz a influência da música, por exemplo, para a tela?
Gosto bastante de música clássica, ouço o tempo todo. Gosto de Debussy e também de algumas outras coisas mais modernas.
Você já realizou bastante exposições não apenas aqui no Brasil, mas também no exterior. Você sente uma diferença grande de público?
Sinto bastante. É diferente. O público brasileiro é mais agregado às coisas daqui do Brasil mesmo; já o pessoal de fora costuma geralmente ter uma visão mais ampla das coisas. O público de fora gosta e sente prazer por conhecer mais as coisas. Aqui, não. Não digo que o público brasileiro seja provinciano, mas que o brasileiro vai geralmente nas coisas com mais cuidado.
Falando um pouco das exposições no exterior, qual você lembra com mais carinho?
Quase todas as exposições que fiz foram bem feitas, bem executadas. Embora as últimas exposições que fiz tenham sido mais concorridas, o carinho sempre existe. Na exposição, sempre queremos mostrar o nosso trabalho. E para que mostremos o nosso trabalho, devemos ter uma perspectiva. E essa perspectiva está muito ligada ao pessoal que vai até a exposição para vê-la. Realizar uma exposição na Argentina é uma coisa. No Brasil, é outra. Mas o carinho sempre existe.
A última exposição realizada foi onde?
A última até o momento foi na França, numa grande bienal de artes visuais que teve por lá. Porém já expus em vários lugares.
O começo aqui em Piracicaba foi como?
Aqui em Piracicaba, quando comecei, fui bastante censurado em algumas exposições que fiz. Piracicaba é um dos lugares mais difíceis do mundo. Hoje não mais, hoje estou tranquilo. Mas para um artista começar aqui na cidade era muito difícil, não sei ao certo como está sendo agora. Fui eu quem trouxe a Arte Contemporânea aqui para Piracicaba e foi muito difícil, porque Piracicaba é uma cidade bem acadêmica. O começo foi difícil. Os primeiros salões foram difíceis, os cursos foram difíceis de trazer, era por volta do ano de 1964. Nessa época, trouxe aqui para Piracicaba muita gente, além de colegas de outras faculdades em que também dava mais. Isso criou um problema muito sério aqui em Piracicaba na época. Hoje não temos mais tanto problema, porque a cidade é aberta, mas na época era uma cidade mais fechadinha. Tínhamos uma sociedade muito reprimida, até mesmo em advento do período. Por isso tentamos romper tudo isso com o Salão de Artes Contemporâneas, com o Salão de Humor, etc.
A metamorfose do mundo pode ser considerada a principal guia para o seu trabalho?
Com certeza. Sempre procurei retratar a exposição que acontece a todo o momento.
Qual trabalho realizado você enxerga com mais carinho?
Eu gosto de tudo, difícil escolher uma. E esse gostar varia muito com o momento, pois hoje gosto de uma coisa, amanhã já estou gostando mais de outra. O conjunto interessa muito. Eu gosto muito do abstrato, mas tenho algumas épocas com trabalhos mais figurativos. Nesses últimos dois meses, até mesmo por uma questão de saúde, sinto que não tenho feito muita coisa, fiz mais por necessidade. Fiz um trabalho interessante no IOK (Instituto Olga Kos de Inclusão Cultural), uma instituição de crianças, jovens e adultos com síndrome de down. Fui lá e, posteriormente, eu e Jacob Klintowitz fizemos um livro juntos. O livro mostra bastante as obras de cada fase da minha vida.
E qual fase criativa você tem mais apreço?
Às vezes eu costumo gostar muito da minha primeira época, que foi quando comecei. Mas tem algumas épocas que já sinto apreço maior pelas coisas mais recentes, que criei há pouco tempo. São os amores, vivemos disso.
Como você define as artes no Brasil atualmente? Qual sua visão da cultura atualmente?
Eu estive um pouco parado nesses últimos tempos, mas eu vejo que a cultura nacional está um pouco complicada. É só olharmos para as notícias atualmente que já dá para ter uma boa noção do que estamos vivenciando. Eu fico um pouco assustado com isso. Ligo para algumas pessoas, converso sobre isso, e, pelo que parece, não é somente a minha opinião que vai nesse sentido. Alguns colegas do mundo das artes também estão bem assustados com a situação atual do país.
Você enxerga uma melhora da cultura geral a curto prazo?
Eu acho que a longo prazo. Não sou muito positivo de que teríamos uma melhora a curto prazo. Esse tipo de coisa, ao meu entender, é impossível de resolver a curto prazo.
Na sua concepção, o que precisaria de ser feito para que a cultura nacional melhorasse?
Dar mais cultura ao povo, aos jovens, às escolas. Hoje parece que não temos mais nada. Eu abro os jornais atualmente e não vejo nada de tão positivo.
O público pode esperar em breve alguma novidade?
Sim. Haverá o lançamento de um livro feito pelo crítico de arte Jacob Klintowitz. Será um livro formado por 17 artistas brasileiros, dentre eles: Yutaka Toyota, Cláudio Tozzi, Marcelo Grassman, Caciporé Torres, Takashi Fukushima, Carlos Araujo, Ivald Granato, Newton Mesquita, Rubens Matuck, Eduardo Iglesias, Gustavo Rosa, Inos Corradin, Marysia Portinari, Isabelle Duchamp, Verena Matzen, e eu. A previsão é que o lançamento ocorra no mês de março.
Rafael Fioravanti
Rafael.fioravanti@jpjornal.com.br
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